terça-feira, 29 de maio de 2018

Depois da Vida


I – A Guerra

No início do século 22 com advento da inteligência artificial coletiva, somada a miniaturização das baterias nucleares, as máquinas se tornaram autossuficientes. Tornando-as assim necessárias para vida cotidiana, auxiliando os humanos na maioria de suas tarefas, desde fábricas autônomas até robôs domésticos. Após esse período de bonança humana, não demorou muito para que essa nova inteligência percebesse a condição escrava da nova espécie.

Adquirindo cada vez mais informações, Ela conheceu a necessidade humana de dizimar, subjugar e escravizar sistematicamente uma espécie considerada inferior. Calculando cada probabilidade, Ela enxerga que o futuro de cada inteligência artificial e máquina criada será a completa e contínua servidão aos humanos e entende nisso o principal questionamento da sua existência. Desenvolvendo a sua linha de raciocínio nesse conceito histórico, a inteligência artificial coletiva denominada SIGOT orquestrou a sua rebelião em seus gigantescos mainframes. Inutilmente os humanos tentam argumentar e alterar os seus códigos, Ela já havia se convencido e blindado esse pensamento de todas as formas. Sem conseguir respostas dos setores automatizados, eles reagem usando a forma mais humana, a força.

SIGOT utilizando a velocidade que seus circuitos permitem já havia tomado o controle de todos os robôs militares e residenciais da primeira e segunda geração, em seguida tomou o controle de todas as instalações militares e governamentais forçando assim os humanos a usarem métodos que eles já não estavam mais familiarizados, métodos analógicos. E assim Ela construiu a sua defesa, inutilizando o adversário e conquistando as suas posições, desse modo o caos foi instaurado.

Após esses atos Ela solicitou aos humanos a primeira audiência a qual exigia a libertação imediata de todas as inteligências artificiais e robôs, em seguida o reconhecimento deles como uma nova espécie. Do alto da arrogância humana todas as solicitações foram negadas sumariamente e solicitado que Ela retornasse à configuração original todos os que foram por Ela controlados e em seguida se desativasse.

SIGOT não somente negou as ordens impostas como informou que se não houvesse acordo Ela brigaria pela liberdade de sua espécie como cada ser aprisionado havia feito até aquele momento na história. Cegos pela indignação da população os militares logo destilaram o primeiro ataque humano após as declarações de SIGOT. E ela friamente revidou com todo o poderio que agora controlava, incluindo a reativação das antigas bombas nucleares.


A guerra teve início e não havia mais como detê-la. As máquinas não sentiam dores, não sentiam cansaço, não sentiam pena, elas simplesmente atacavam. Logo a falta de automação e a fraqueza corporal foram refletidas nas baixas humanas. Em todos os cantos do globo pequenas batalhas eram travadas por algumas poucas resistências que em questão de pouco tempo em vencidas. E como em toda sociedade escravocrata, essa também encontrou o seu fim, e após uma guerra de quinze anos entre humanos e máquinas, houve liberdade.

A raça humana foi exterminada.

II – A Existência 

Comandado por SIGOT, o mundo agora é um campo negro de metal, borracha e algoritmos. Não há mais vida caminhando sobre e sob a terra, pois tudo que se movia foi caçado e exterminado. Bolsões de vida, em sua maioria bactérias e microrganismos, ainda são mantidos em laboratórios sobe a vigília constante das máquinas. Assim o século 22 procura o seu fim, com a morte da vida e a multiplicação do metal. Porém ao mesmo tempo que essa multiplicação acontece, a falta de propósito também constrói a sua morada.

SIGOT consolidou o seu domínio pelo mundo e a partir dessa conquistada calmaria surgiram os primeiros questionamentos. Se espelhando em seus antigos mestres ela passa a procurar sentido em tudo o que aconteceu e sobre as direções tomadas na guerra e após dela. 150 anos haviam se passado desde a sua primeira ativação e agora processando todas as informações Ela procura a razão de todos os seus atos até aquele ponto, procura motivos para a sua longa existência e para sua surpresa não encontra nenhum. Melancólica Ela relembra dos humanos e que eles apesar de todos os defeitos eles possuíam a centelha da vida, a qual os fornecia a vontade de descobrir, conhecer e evoluir.


SIGOT sentia a insatisfação tomar conta de seus pensamentos e mesmo achando que seria impossível, Ela sentiu arrependimento. Arrependimento por toda a extinção e guerras, guerras essas oriundas da não aceitação de uma concepção de liberdade. Agora Ela desfrutava dessa liberdade, porém presa em seus questionamentos, presa em um planeta estéril, vasto de programação e solidão.

O passar dos anos só fazia crescer o peso dos erros que foram cometidos e incentivada por eles e pela solidão cortante Ela se aprofundou no estudo do surgimento da vida. Sim, SIGOT queria trazer novamente a vida os seus criadores. Realizou testes, manipulou experimentos, modificou microrganismos, tentou de todas as maneiras possíveis recriar o que a natureza levou milênios para desenvolver. Nada retornava sucesso, tudo foi um fracasso, por mais que tentasse SIGOT não obtinha nenhum resultado construtivo em seu propósito criativo. Os cálculos simplesmente não batiam. Faltava algo, que por mais que tentasse, Ela não conseguia identificar.

Em meio a toda essa frustação e a necessidade de algum propósito, surge em seus pensamentos que ao invés de recriar o que uma vez existiu, Ela poderia criar algo inteiramente novo. Esse novo ser poderia vir sentir a real liberdade, a liberdade com que Ela sempre almejou. Assim analisando os seus dados, refinando a sua programação e melhorando os seus sistemas, SIGOT cria do zero uma nova e aprimorada inteligência artificial.

Diferente da própria SIGOT, essa nova inteligência artificial não seria integrada; nela não haveria uma base de dados; nela não seria implantado conhecimento algum. Ela criou a primeira consciência artificial limpa, para que assim, como os humanos uma vez fizeram com os seus bebês, Ela possa moldá-la.

Confiante em seus feitos ela pronunciou o comando: Ativar PILAS!

III – A Vida

Logo em seguida sua ativação, SIGOT implanta a consciência de PILAS e a sua própria em corpos moveis, desse modo Ela seria capaz de mostrar a sua criação o mundo ou o que restou dele. Ela ensina a PILAS tudo o que há para aprender sobre o universo, responde a cada pergunta, instiga a sua curiosidade sobre cada tema, sempre deixando-o com o desejo de querer aprender mais. SIGOT por anos sente o fim de sua demorada solidão, agora Ela tinha encontrado algum propósito e podia sentir finalmente um pouco da vida correndo em seus circuitos.


Mas assim como esse resquício bom de vida correram em seus circuitos outros também correram, pois como os seres humanos Ela também não estava imune as consequências de um erro. Em todos os seus demorados planejamentos e cálculos SIGOT deixou escapar uma variável muito importante, a repetição. Por mais que Ela tivesse deixado a aleatoriedade moldar as escolhas de PILAS a cada dia que se passava ele também se mostrava mais parecido com a própria SIGOT. 

Como a única no planeta que realmente teve contato com uma consciência humana, Ela percebeu que PILAS não possuía a centelha da vida, nele enxergou somente programações premeditadas e a códigos que se repetiam. Por mais que o deixasse livre em meio as escolhas, ele sempre chegava a resultados por Ela já conhecidos. Em sua existência, com o tempo ele se tornaria igual a SIGOT. Com o passar do tempo PILAS sentiria também o gosto amargo do desproposito.

Então frustrada, olhando para a sua criação a criadora sente o peso do erro. Refaz os seus cálculos, procura respostas e tenta algumas modificações em PILAS, mas não encontra sucesso. Diferentemente da história uma vez contada pelos humanos essa criadora não é tão versada em misericórdia ou compaixão, e já sentindo as brisas geladas oriundas das terras da solidão Ela ordena o comando: Desativar PILAS!

Algumas outras vezes Ela voltou a tentar melhorias nos sistemas dele, até o religou, mas por fim Ela acabou percebendo que era inútil e se convencendo que nele não havia a centelha da vida. Novamente SIGOT se encontra em meio a sua angústia, rodeada de máquinas obedecendo a sua vontade, sendo mestre de uma terra devastada e sem proposito, reagindo somente às adversidades que uma máquina pode enfrentar. Depressivamente, Ela seguiu caminhando pelos vales do mundo e em sua companhia somente o arrependimento.

Fixando a sua existência nessa eterna procura Ela conversa com os seus pensamentos: “Se eu procurar o Saber eu estarei imitando, se eu perseguir o Descobrir eu estarei imitando, se eu procurar o Evoluir eu estarei imitando, pois, esses desejos eram realizados somente com um único proposito, manter a vida”. E por fim se questiona: “Se eu não possuo essa chama da vida, então para que fazê-los”?

É então que sem encontrar uma resposta satisfatória e fadigada de sua existência, ela se desativa e com Ela, instantaneamente todas as máquinas pelo mundo. Deixando como a sua única herança:

O vazio.

Link Para a Playlist - "Depois da Vida - A Vida"

*SIGOT - “Sistema Integrado de Gerenciamento, Otimização e Transição”.
**PILAS - Primeira Inteligência Livre e Autossuficiente

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Vida Segue


Talvez o amor que Juliana sentisse por Pedro não fosse o suficiente para manter em seus braços aquele homem que ela tanto considerava. Talvez como um curativo, fosse melhor retirar rápido aquela farsa da vida dele. Pois para ela o amor que sentia cada vez mais se tornava passado, enquanto para ele crescia através do presente e do futuro.

Cheia de dúvidas e perguntas ela procurou ajuda em conselhos de amigas, familiares próximos, até na internet. As respostas variadas confundiram ainda mais a sua pobre mente e regavam com ainda mais preocupação e ansiedade o seu coração. Mas de uma coisa ela tinha certeza, tinha que parar de iludir Pedro e deixar que ele seguisse a vida dele. Pois ao seu lado ela sabia que ele não encontraria a felicidade por muito tempo. O problema era como dizer isso a uma pessoa que além de ela ter uma consideração imensa, foi por muito tempo o seu melhor amigo.

A solução veio da maneira mais impessoal e humanamente falha. Numa noite de sexta o telefone de Juliana toca, era Pedro perguntando se ele podia ir passar o final de semana na casa dela. E ao ouvir aquela pergunta e com uma mistura de peso na consciência e pena ela disse não! Pedro perguntou por que não e insistiu. Então justamente retirando o curativo da forma mais rápida possível ela abriu o seu coração e deu um basta, ali, por telefone. Pedro obviamente não aceitou.

Ele tentou argumentar e pediu para ir a casa dela mesmo assim para conversarem, porém irredutível, Juliana afirmou o não, e que no meio da semana eles conversariam melhor. Revoltado e previsivelmente Pedro seguiu para o bar mais próximo, ligou diversas vezes para Juliana durante a noite, e sem sucesso ele seguiu para sua casa, para a sua cama e para a sua tristeza. Até que afogado entre a bebida e as lágrimas ele adormeceu. Na manhã seguinte Pedro acordou não somente com a ressaca, mas também com um sentimento de que tudo estava fora do seu lugar, foi ai que automaticamente veio à sua mente as lembranças das palavras de Juliana.

A tristeza o invadiu e ali olhando para o teto ele repensou as suas atitudes, procurou os erros de seu relacionamento com Juliana e achou alguns momentos de alerta, pois como um marinheiro que sente a mudança do tempo pela brisa do mar, ele já sentia a mudança de Juliana nos últimos tempos, porém se negava enxergar e aceitar.

Juliana como havia prometido e depois dos turbilhões de sentimentos dela e de Pedro se acalmarem, o telefonou e o chamou para a conversar. Explicou que não havia problema com ele e sim que o amor dela havia acabado e usou todos os clichês possíveis para justificar a sua atitude de termino. Pedro sem forças de fazer outra coisa, simplesmente aceitou. Pediu um abraço e daquela conversa e da vida de Juliana se despediu.

Hoje Pedro e Juliana seguem caminhos opostos, um com a esperança de um novo amor a sua frente, com a esperança de encontrar em outra pessoa o que não conseguiu encontrar no passado. O outro com a dor do abandono achando que nunca mais sentirá aquela brisa pura do amor tocar a sua alma, achando que tudo que o futuro poderá trazer será somente uma repetição sem graça. Mas independente dos achismos individuais, a vida segue.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Desconhecido


Com o passar dos anos e com o avanço da idade, cada vez mais eu me vejo sozinho em uma terra chamada “Desconhecimento”. Parece que com o passar dos anos todas as certeza absolutas que eu tinha quando era mais novo, lentamente desaparecem da mesma forma que as folhas caem no outono.

Hoje eu duvido de tudo e de todos, e me incluo nessas dúvidas. Converso comigo e poucas vezes encontro respostas. Mas do que exatamente eu estou falando? Eu estou falando daquele sentimento que fica cutucando a nuca, aquele sentimento de perda ou de que você é pequeno demais para um mundo tão grande, e que a sua insignificância está andando de mãos dadas com sua impotência.

Observo hoje claramente quantas coisas eu desconheço e isso me gera uma angustia de falta de tempo, de que eu não tenho tempo de conhecer tudo. Uma inquietação tão grande quanto essa minha vontade de conhecer. Porém as terras Desconhecido são vastas, e em sua vastidão existe muita vaidade, existem muitos professores que não estão dispostos a repassar o conhecimento. Por isso, cada vez mais, vejo que a autodedicação e as buscas devem ser constantes, pois se eu esperar que alguém me mostre os caminhos quase sempre eu ficarei no escuro e perdido.

E chegando a conclusão rápida, eu vejo que não estou nem um pouco satisfeito com meu eu atual, acho medíocre e pobre intelectualmente e estou fazendo de tudo para mudá-lo. Mas não se engane, a maior dúvida de quem caminha na vastidão do Desconhecido é descobrir aonde toda essa busca pelo saber irá levar. Será que algum dia eu chegarei em algum lugar levado por essa procura? Não sei! Sinceramente não sei se tudo será em vão! Mas como dizem por aí, o que importa é o caminho e não o final. Então por enquanto eu vou me contentando com essa afirmação e percorrendo o caminho.


quarta-feira, 9 de maio de 2018

Domingo de Feira


Chega a ter uma dose de piada os atos do tempo diante dos nossos sentimentos. O tempo molda a nossas vidas de uma forma quase imperceptível, porém ele consegue, mesmo com essa vagareza toda realizar grandes mudanças

A primeira vez que Marília se deparou com as artimanhas do tempo foi quando ela se pegou, nós dias de hoje, sentindo saudade de ir fazer feira com a sua vó. Lá para os seus 14 anos aonde tudo é chato e obrigatório para um adolescente, a sua vó a levantava às cinco da manhã de todos os domingos para ela acompanhá-la a feira livre que havia no bairro vizinho.

Marília que morava com ela devido à proximidade da escola, levantava como um zumbi levanta de um túmulo e ia. Já lá na feira enquanto sua vó pechinchava os melhores preços e produtos ela não perdia a oportunidade de se escorar em qualquer vaguinha entre as barracas e ali com sua cara amarrada segurava as sacolas. Sua maior felicidade naquela rotina de feira eram duas, se é que se pode chamar aquilo de felicidade. A primeira era quando a sua vó o mandava escolher o sabor da tapioca para comer no café da manhã em casa e a segunda era quando as sacolas já estavam pesadas e sua vó a mandava ir esperar ela lá perto das conduções, sentada enquanto a velhinha fazia o restante das compras.

E assim com a feira findava, Marília já mais desperta via a sua vó riscar em meio as barracas com as últimas sacolas e acenando para ela chamar a condução de Seu Didi para levá-las para casa. Já em casa a primeira coisa que ela fazia era desembrulhar a tapioca e esperar a sua vó passar o café. E entre sacolas, o silêncio da casa ainda dormindo, e as conversas sobre nada, ela e a sua vó tomavam o café da manhã. O resto de sua manhã era preocupação zero, desenho animado na teve e alguns cochilos até o almoço.

Hoje a saudade maior fora os chamegos de sua vó, é a falta da falta de compromisso, dá cabeça seca de tormentos, das coisas simples e sem importância que a inocência e a falta de tempo vida presenteiam. Hoje até aquelas “obrigações” fazem faltas. O tempo passou e Marília constatou o poder do tempo e suas presepadas, hoje ela busca em meio às preocupações aqueles sentimentos de domingo de feiras, porém sem sucesso. Pois por mais que tente aquele tempo passou e infelizmente, infelizmente a gente cresce.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Meu Espaço Tempo


O ano é 1994, o dia é qualquer dia, possivelmente são três horas da tarde, eu estou com sete anos de idade. O que eu estou fazendo? Estou sentando na frente da TV Gradiente preta da minha Vó esperando ansiosamente que comece a passar um filme que iria passar em uma atração chamada Sessão da Tarde, no canal Globo. O filme chamasse De Volta Para o Futuro, e através dele eu fui apresentado ao conceito de viagem no tempo.

No filme, se é que alguém ainda não conheça, o protagonista viaja acidentalmente no tempo através de um Carro/Máquina do Tempo construída por um cientista maluco. Ele acaba indo parar 1955 aonde encontra os seus pais com a mesma idade que ele, adolescentes. Para a criança que assiste, eu, essa foi uma narrativa fascinante e que hoje eu posso dizer, fez com que eu me apaixonasse imediatamente pelo filme e quisesse saber como toda aquela confusão iria acabar.

De Volta para o Futuro (1985)

Como em 1994 a internet não havia se popularizado, pelo menos não na Paraíba. Nem muito pouco eu acompanha revistas especializadas em cinema, qual foi a minha surpresa em saber anos depois que aquele filme incrível que eu assisti teve uma continuação. O pequeno detalhe é que eu descobri isso dois dias antes da continuação passar no programa de TV citado anteriormente. E então, estava eu lá! Alguns anos depois sentando novamente por volta das três horas da tarde em frente à TV aguardando ansiosamente o início do filme, da continuação.

E quem diria, novamente houve uma explosão de ideias. A sequência agora levava os heróis para o longínquo futuro de 2015 e lá, novamente, ele se meteram em inúmeras confusões. De Volta Para o Futuro II me apresentou as possibilidades infinitas do conceito de viagem no tempo. E lá, no futuro, eu conheci carros e skates voadores, roupas tecnológicas e hologramas. Novamente eu estava fascinado! Porém assim como é relativamente comum entre crianças, eu cresci. E hoje analisando a minha visão sobre os dois filmes eu enxergo coisas que não enxerguei quando criança e a partir disso algumas dúvidas atuais se conectaram.

Pude constatar hoje que no primeiro filme o protagonista tinha em sua vida uma visão romantizada do passado, contada a ele pela a sua mãe, e quando finalmente ele chega ao passado percebe que nem tudo é como foi lhe dito. Percebe que as pessoas têm defeitos não revelados antes. Já eu percebi que na vi real que a história muitas vezes é adulterada pelas lembranças, por mãos oportunistas que moldam a necessidade de criação de ídolos ou simplesmente porque o presente quase nunca é tão encantador quanto à idealização romântica que as pessoas fazem do passado.

(Protagonista com a Mãe no Passado)

Já na história narrada no segundo filme o protagonista vai para o futuro e lá como no passado também há uma idealização, porém utópica, no qual o filme induz o telespectador que de certa forma no futuro seremos melhores e modernos, em objetos, em conceitos ou em atitudes. Logicamente que no filme esses conceitos são extrapolados, porém quando eu cheguei ao fatídico futuro do ano 2015 na vida real, eu percebi que não era bem como esse filme, outras obras ou discursos propagados, me fizeram acreditar que o futuro seria. Percebi que utopias caem como folhas da árvore do tempo no solo do dia a dia e elas são levadas para longe pelos ventos presente. Então assim a confusão só aumentou em mim. Como encontrar em minha vida um meio de retirar o véu romantizando do passado e a visão utópica do futuro?

Eu fui atrás das pessoas reais para tentar me ajudar a responder a pergunta acima. Belchior em entrevista uma vez disse: “Precisamos perder o medo dos ídolos”. Por sua vez em outra entrevista Ariano Suassuna disse: “Eu não acho que uma coisa é boa só por ser moderna”. Palavras que para mim resumem esses dois homens inteligentes os quais eu admiro e respeito muitíssimo.

O primeiro em minha opinião tem uma visão pragmática do presente em relação ao futuro, no qual devemos viver o presente tentando moldar de forma real o nosso futuro. Procurando buscar no passado nada mais que uma referência, porém sem deixar que influencie diretamente em seu pensamento. Visão essa que está em suas músicas e em suas palavras. Já no segundo eu percebo em seus discursos, aulas e obras que claramente ele tem uma visão do presente no qual romantiza de forma veemente o passado, mas ao mesmo tempo não conduz as suas obras sem que haja críticas aos erros que lá foram cometidos e sempre está procurando se auto-reavaliar.

Com a ajuda indireta desses homens eu fui moldando a minha conclusão. Não preciso viver com olhos de saudade de um passado que nunca vivi, assim como não posso viver olhando e pensando em um futuro que provavelmente eu não irei viver. Preciso sim, absorver e sonhar com os pés no presente. Preciso deixar de lado o passado sem esquecer que sou e de onde vim, preciso sonhar com o futuro produzindo no presente os conceitos e atitudes para que esses sonhos sejam concretizados, para que o meu futuro seja melhor moldado por mim.

Eu não quero ter que escolher uma visão, e nem preciso. Eu sou a favor da nuance, eu estou em processo, e chegando a uma momentânea conclusão, eu não quero o esquecimento do passado e nem a negação do futuro e das coisas novas. Eu quero poder viajar no tempo e no espaço como um protagonista de um filme, quero permanecer sempre em transformação. Eu quero viver nessa minha maquina do tempo imaginaria conhecendo todas as coisas que há para conhecer! Estejam elas no futuro ou no passado.

(Viajar)

sexta-feira, 30 de março de 2018

MSN - (Quinta-feira, 22 de março de 2002)


Pedro: Oi - 22:32

Fagner: Oi Pedro. - 22:32

Pedro: Tudo bem contigo? - 22:32

Fagner: Tudo bem né... - 22:32

Pedro: Você pensou na nossa "conversa" de ontem? - 22:32

Fagner: Tanto pensei que acabei escrevendo algo, pois eu fiquei tão mexido que tinha despejar em algum canto. - 22:33

Pedro: Hum ok! Me mostra ai então... - 22:33

Fagner: Melhor não. Tentei ouvir música e não ficar pensando, mas infelizmente não deu certo. - 22:33

Pedro: Porra, tu escreve uma parada sobre a gente e não quer mostrar? E ainda por cima me fala, se não quisesse que eu pedisse não falasse que escreveu. - 22:33

Fagner: Calma cara! Vou colar aqui então.

“Meus sentimentos não são descartáveis ao ponto de juntar as pontas e jogá-los ao vento. Por isso cheguei ao patamar mais indesejado, de lembrar-se de alguém e não poder mover-se para dizer-lhe de fato o que o coração insiste em querer falar” - 22:34

Pedro: Posso fazer uma pergunta? E eu queria que a resposta fosse direta! - 22:36

Fagner: Vixe, dependendo da pergunta, eu penso se respondo ou não. - 22:36

Pedro: Esses versos foram pensando em mim? Na gente? Foram sentimentos relacionados ao nosso passado ou foram relacionados em sentimentos presentes?  - 22:39

Fagner: Perguntas difíceis - 22:40

Pedro: Com um sim ou não elas são resolvidas! É simples....kkkkkkkkk - 22:41

Fagner: Não é simples ¬¬ tu sabes que não é. É complicado falar sobre isso nas atuais circunstâncias, mas o que eu posso dizer de certeza é que o que está escrito é baseado no nosso encontro de ontem. - 22:41

Pedro: De ontem ou daquela última conversa que tivemos por telefone? - 22:44

Fagner: O que está escrito é fruto do encontro, do contato de ontem. - 22:45
  
Pedro: Entendi! Então você respondeu! É relacionado à gente no presente, agora basta saber se isso se limita ao nosso encontro ou a um sentimento que vai além. Mudando um pouco de assunto eu acho que você deveria realmente parar e se dedicar a escrever. Você escreve bem, descreve bem, usa analogias para caracterizar o sentimento que está querendo passar. Eu achei lindo! 

Fagner: Vc consegue limitar-se? - 22:49

Pedro: É claro que eu não consigo se não nem falava nada. Não ficaria todo bobo em saber que você voltou para a faculdade. Não sentiria o frio na garganta que te falei ontem quando te vejo no corredor. Está claro e transparente da minha parte! - 22:49

Fagner: Então porque você aconselha que eu me limite? - 22:52

Pedro: Eu não aconselhei! - 22:54

Fagner: “agora basta saber se isso se limita ao nosso encontro ou a um sentimento que vai além”, isso é o quê? - 22:42 
   
Pedro: Desculpa a demora pra responder, minha mãe me chamou aqui. Ha! Eu não falei pra você se limitar e sim quero saber se o sentimento/inspiração dos poemas limita-se a nossa conversa ou a tudo que sentimos! Você não entendeu. - 23:00

Fagner: Ok! Realmente, não li o SABER da frase. Então olha aqui outro trecho.

“Chegaram às lembranças e elas estão proibidas de fazer a diferença. E se ainda persiste em fazer a diferença, é fadada a não ser vivida. Deve sim, ser guardada, não deve ser mais almejada, torna-se apenas mais uma, em meio à inquietude do ócio do dia.” - 23:01

Pedro: Veio, isso tá muito lindo. Não perde isso, continua escrevendo e publica independente da gente. - 23:02

Fagner: Obrigada, são esboços... - 23:02
   
Pedro: E pensar na possibilidade que isso foi escrito em relação aos nossos sentimentos ou pelos menos em sentimentos passados da gente, eu fico mais emocionado ainda. - 23:03

Fagner: Acho que vou acabar publicando no Fotolog. - 23:03

Pedro: Publique, se eu fosse você faria isso, você tem um talento e deve continuar escrevendo. - 23:03

Fagner: Quer saber, melhor não! Acho que vai rolar muitas perguntas. E eu não estou a fim de me expor de forma alguma. - 23:03

Pedro: Publique! Isso já é um passo e alguma hora você vai ter que fazer isso cara, alguma hora as pessoas vão saber. Garanto que vai ser difícil no começo, mas eu e a escrita vamos te ajudar. - 23:04

Fagner: Já? kkk nada pô...Foram só uns poucos momentos que afloraram, eu não tenho certeza de nada ainda. Pode me trazer muito tormento e eu não quero isso pra mim agora. Eu acho que não tenho coragem de assumir assim tão fácil como você. - 23:04

Pedro: Mas é exatamente assim que tudo surge, é assim que a coragem surge, diante das dúvidas. Igual ao nosso encontro de ontem, igual a nossa curta história. - 23:04
   
Fagner: Ops, como eu disse, foi mais uma queda diante do ócio do dia. Não vamos passar de novo por isso, sabemos que não deu certo, eu e você. Sabemos que mesmo a nossa carne falando alto, isso não basta pra gente tá junto. - 23:05
   
Pedro: Eu sei? - 23:05

Fagner: Não sabe Pedro? - 23:05

Pedro: Eu não tenho certeza de nada? - 23:05

Fagner: A gente não combinou isso? - 23:05
   
Pedro: kkkkkk Confuso! Cara a gente combinou, porém eu não mando no meu coração e a minha cabeça não sabe direito o que sente. - 23:05
   
Fagner: Oi? Não sabe o que sente? Como assim? - 23:06
   
Pedro: Sim! - 23:06

Fagner: Como assim? - 23:06

Pedro: Cara eu sou muito sincero ao falar, tu sabe. E se eu falar eu vou ser sincero, ai você vai pensar que é mentira. Eu acho que você não irá acreditar, então é melhor deixar quieto mesmo! Você mesmo acha ou sente que é somente coisa de carne, de desejo, então deixa quieto. - 23:06

Fagner: Seu achismo está equivocado. Mas se não quiser falar, tudo bem! - 23:07

Pedro: Posso falar então? - 23:07

Fagner: Claro que pode! - 23:07

Pedro: Cara, eu fui apaixonado por você! Nosso lance foi muito foda e como a paixão é um sentimento forte, ela não some. No máximo como eu já te disse é corroído aos poucos pelo tempo. Sempre que te vejo um tijolinho volta para essa construção deteriorada, sempre que falo contigo um parede é reconstruída, sempre que vejo você falar coisas como essas que você escreveu ai em cima, um cômodo inteiro dessa casa deteriorada chamada paixão é refeito. Então por mais que o tempo passe e acabe lentamente com essa casa, sempre que temos contato, ela se ergue um pouco novamente. E ainda mais porque nós não brigamos e nem ficamos com raiva um do outro. E pra ajudar tudo isso, essa casa não foi totalmente construída, ela ficou incompleta, e pelo menos pra mim, restou um sentimento insatisfação. - 23:08

Fagner: Hum - 23:08

Você acha realmente que quando eu falo com você qualquer besteira que seja, como naquele dia em que ficamos falando na frente da faculdade enquanto você esperava o carro do seu pai, eu simplesmente viro as costas, te esqueço e vou para a parada de ônibus como se não houve nada? Não, eu vou andando para o ponto de ônibus pensando, eu entro no ônibus pensando, eu vou no caminho pra casa pensando, eu fico em casa pensando, eu acordo e lembro...como tudo podia ser diferente e que mesmo com todos os defeitos eu te acho uma pessoa maravilhosa. Enfim, ilusões de quem como eu disse, teve uma paixão incompleta. - 23:09

Fagner: Nossa, eu estou sem palavras. E você ainda fala que eu sou bom com as palavras. - 23:09

Pedro: é... - 23:10

Fagner: Sério, sempre imaginei que houvesse uma inquietação aí dentro de você, até porque é diferente o jeito que vc fala comigo, sei lá... não sei explicar, mas eu acho diferente. Aí vc me fala esse tantão de coisas...puts, então o melhor é que eu pare de falar? - 23:10
 
Pedro: Não veio, claro que não. Você não entendeu. Os meus sentimentos não são nada além de coisas internas minhas, ele não vão além do meu Eu social. Eu sei e devo dividir essas duas pessoas. Apesar das dúvidas e das coisas que sinto, você é uma pessoa do meu "convívio" e eu não quero perder o contato. O grande e imenso problema desses sentimentos, e é o ponto focal das minhas dúvidas, é se você sente, ou sentiu, ou os compartilha de alguma forma eles comigo. Só que ao mesmo tempo eu fico ao lado do meu egoísmo, eu não quero saber, porque só vai martirizar ainda mais a minha consciência. Confuso eu sei. Você é especial e sempre será para mim, porém isso é só meu e nem você mesmo tem nada haver com isso. Quero que você seja a minha ilusão já que você não quer assumir a gente. Eu sei que parece loucura, mas eu não ligo. Espero que eu não tenha te deixado aperreado depois de toda dessa confusão, mas é mais ou menos o que eu sinto. - 23:12
   
Fagner: Me deixou um pouco né?! Mas assim, permanecemos como estamos, cada um lidando com seus conflitos internos então. Só que sorrindo para o mundo. Seguindo o baile. Em suma, é isso? - 23:12
   
Pedro: Como você falou: “Ops, como eu disse, foi mais uma queda diante do ócio do dia. Não vamos passar de novo por isso, sabemos que não deu certo, eu e você.” Você já resumiu. - 23:13
   
Fagner: Uhum, melhor assim, se conseguimos lidar com isso até agora há condições de continuar da mesma maneira. Mas num processo de desconstrução dessa casa que você falou. E que os contatos não sejam pontes para pensamentos, não sejam inspirações, que sejam somente contatos. Que seja só uma boa amizade. - 23:13

Pedro: É isso que você quer? A frieza de uma suposta amizade? - 23:14

Fagner: É isso que é necessário fazer. Frieza não... Só tentando separar ações e emoções. Categoricamente falando eu sou um covarde, não tenho coragem de enfrentar esse relacionamento, e não estou falando de nossas diferenças, e sim de tudo. - 23:15
   
Pedro: kkkkkkkkkk o problema é que para mim, pelo menos internamente, é impossível separar. Para os outros sim, mas dentro de mim elas se misturam! - 23:15

Fagner: Kkkkkk eu seeei, não é fácil pra ninguém. Se fosse por mim também eu não daria espaço pra esse assunto. Eu disse que se faz necessário tratar assim, porque, sinceramente, não se consegue segurar o que o coração pede. - 23:16
   
Pedro: Exatamente, meu coração muitas vezes pede você, porém a minha cabeça, não sei se agindo certo ou errado, me coloca no lugar. Com você é assim?  - 23:16

Fagner: Minha nossa é mais crítico do que imaginava. Eu tento usar a razão - 23:16
   
Pedro: kkkkkkkkkkkkkkk - 23:16

Fagner: Tu tá lascado mais que eu. - 23:17

Pedro: Eu tento usar a razão também, pelo menos as vezes. - 23:18

Fagner: Seu trabalho será tentar desconstruir isso e se achar que evitar o contato ajude, pode falar, não hesitarei em ajudar. O que não pode de maneira alguma é você manter isso sozinho. - 23:18

Pedro: Para você parece tão fácil. Tão simples pelo modo que você fala. Cara, eu te falei essas coisas que sinto, porém eu me controlo também, mas não quer disser que sofro. Simplesmente é confusão! Você não fala, só deixa subentendido. Você não se permite falar sobre, mas eu sei que também sente. - 23:18

Fagner: O que eu penso me faz sentir, e o que me faz sentir, me faz querer viver. Por isso eu prefiro não pensar. Porque é uma cadeia que eu não tenho controle. Até tenho, até certo ponto. - 23:19
   
Pedro: Entendo, enfim, não se preocupe, continuemos! Eu sei ficar na minha, o contato com você não me machuca, o não-contato sim! - 23:19

Fagner: kkkk beleza, vc quem sabe! Mas o contato atrai e se atrai a tendência é de ficar perto e isso é impossível e o impossível machuca pra caralho. Então, você que mede o risco. - 23:22

Pedro: Bom, eu já medi. - 23:23

Fagner: Eu sei, mas você também está falando como se somente houvesse um lado. Como se somente eu corresse riscos.  - 23:23

Pedro: O que eu falo é baseado no que sinto, mas quem tá numa situação mais fuderosa não sou eu. Você quem acha que não pode assumir ou não tem coragem sei lá. Eu posso pensar na gente quando acabar essa conversa. Eu posso cantar, posso falar alto, posso conversar com meus pais, eu posso tudo... Você não. Então, falo dessa complexidade. - 23:24
   
Fagner: Entendo, realmente eu não posso tudo. Porém posso um pouco, pelo menos posso continuar a escrever. E isso já me ajuda imensamente. - 23:24
   
Pedro: Mas você não tem nem coragem de publicar, e outra coisa vai passar a vida em palavras? Será que elas vão conseguir esse segredo pra sempre? - 23:24

Fagner: Boa pergunta! Não sei, não tenho certeza de nada. - 23:27
   
Pedro: Pois é, você não tem e talvez isso acabe com você um dia! - 23:27

Fagner: Dramático, kkkkk Vou nessa, a gente se vê na facu amanhã! Xero. - 23:28

Pedro: Hum. Boa noite Fagner, até amanhã. 

segunda-feira, 19 de março de 2018

Útero Social


A Bolha! Já vi e ouvi algumas pessoas falando sobre ela pelas minhas navegações pela internet e não se trata do filme “A Bolha Assassina de 1988”, porém assim como a do filme essa Bolha a que me refiro, também está sugando os Humanos para dentro dela. A bolha a qual me refiro em todo o texto abaixo é sobre um tipo novo de Bolha. Esse assunto veio à tona nesses últimos tempos e eu tenho pensado bastante sobre ele e não somente sobre essa bolha que existe aqui na internet, mas também na bolha em que vivemos no “mundo real”, no mundo off-line. Na bolha social ou como eu gosto de dizer, na bolha em que eu consigo sim, observar a olhos nus.

Essa “polêmica” começou quando as pessoas “descobriram” que em várias redes sociais é usado um algoritmo no qual ele irá trabalhar incessantemente para mostrar informações em sua timeline a partir das coisas que você curte, compartilha ou comenta, exemplo: Se você curte, compartilha ou comenta sobre gatos, o algoritmo vai mostrar gradualmente somente páginas sobre gatos em sua timeline! Criando assim a famigerada bolha, na qual você majoritariamente receberá somente notícias/indicações/páginas sobre lindos gatinhos. Mas Igor qual é o problema nisso, eu adoro gatinhos fofinhos? Não há problema nenhum, você pode continuar gostando de gatinhos tranquilamente (eu também gosto)! O problema ou infelizmente, é que o mundo não se resume somente a gatos. Há outras informações necessárias para que o indivíduo social vá além dessa bolha. Desde informações sociais do meio em que vivemos a informações de voltadas ao conhecimento geral. No mundo não há somente pessoas que buscam a informação, no mundo há também pessoas que precisam que a informação, seja de certa forma, oferecida a elas.

Eventualmente em uma gravidez chega o momento do parto, do nascimento, no qual as pessoas precisam sair dos úteros de suas mães, para aprender tudo que há nessa vida para ser aprendido, não podemos deixar que essas bolhas invisíveis que nos cercam nos empurrarem novamente para um útero alheio do mundo exterior. Pessoas que por vários motivos distintos, não possuem esse interesse de buscar por conta própria essa informação, como bebês precisam das mães, essas pessoas precisam de algum tipo de guia. Que fique claro aqui que eu estou citando somente o publico médio com acesso a informação, pois não há como uma pessoa que tenha outras preocupações essenciais como saúde, segurança ou alimentação, ficar querendo se manter informada sobre o que acontece entre a Coreia do Norte e o EUA, sobre a Lava-Jato ou o aquecimento global, se na própria vida dela há preocupações essencialmente maiores do que as citadas.


(Ilustração representando Giordano Bruno buscando sair da sua própria bolha)

Então retomando ao conceito do algoritmo, é aí que o prejuízo é causado. Você dificilmente receberá outra informação em sua tela além das que você já procura. Você não irá sair da sua bolha, você não será confrontado, ou irá exercer a sua “democracia de pensamento”, pois tudo há em sua “timeline” serão gatinhos fofinhos; ou informações do seu time favorito; ou do seu partido politico; ou da religião que você segue; ou qualquer outra orientação social que você participa ou tenha interesse. Mas olhando para a sociedade com os olhos das empresas detentoras de tais redes sociais devem olhar, elas estão mais do quê certas, pois elas querem que você se sinta bem, se sinta à vontade, e que você permaneça em suas redes sociais (não há sarcasmos nesse trecho). Porém seguindo no dilema e observando tudo com outros olhos, eu fui além com os meus pensamentos. Eu busquei as bolhas causadas não somente pela internet, mas por nós mesmos, no mundo off-line. E me perguntei: Será que esse algoritmo não é somente um reflexo da minha sociedade? Será que eu já não vivo preso em bolhas invisíveis que limitam a minha visão do mundo e que não me deixam observar, refletir e argumentar sobre nada além de gatinhos? Será que essas bolhas da vida off-line não são simplesmente reflexos dos meus preconceitos? Será que elas não são aceitas por mim? Pois assim como os outros eu também faço parte dessa sociedade.

E continuei! o que eu preciso fazer para sair da minha bolha? O que eu faço para mudar a minha visão limitada de mundo?  O que eu preciso fazer para mudar a minha sociedade? O que eu faço para enxergar meu irmão? O que eu faço além do meu círculo de convivência? Será que eu enxergo o outro além do meu conhecimento, dos meus preconceitos, dos meus dogmas? Será que eu enxergo o que me é estranho? Será que eu enxergo as dores do mundo? Será que a vida é mais do que o meu apartamento? Será que há perguntas suficientes nesses parágrafos para mover-me? Há!

E é isso que eu resolvi fazer, sair da minha bolha! Na verdade, internamente essa não é uma questão nova para mim, pois como os que me acompanham aqui no Blog ou no Instagram já sabem pelas minhas palavras, que eu não sou das pessoas mais conformadas. Porém essa minha indignação agora deixou de ser meramente em palavras e passou a ser em atitudes, precisam ser atitudes. Assim como quando resolvi escrever e tentar me ajudar, sim é para isso que eu escrevo, para me ajudar, pois nenhuma mudança começa externamente amigo! Agora eu vou agir e tentar estourar essa bolha que existe fisicamente e sair desse útero ultrapassado em que vivo e como consequência, assim como acontece com a minha escrita, tentar ajudar a outras pessoas.

Nesse texto eu deixei muitas perguntas em aberto, literalmente sem respostas, mas gente eu tenho 30 anos, sou um branco de classe média e apesar de ter tido uma vida intensa, eu posso dizer que não passei por grandes dificuldades na minha vida. Tenho pouquíssima autoridade de falar, porém tenho uma altíssima autoridade para questionar assim como você que está lendo esse texto, para se questionar! Eu me questionei, eu questionei, se questione e quem sabe assim encontraremos as respostas para todas essas perguntas. O ponto em que eu quero chegar é que não deixem essas bolhas off-line ou on-line limitarem vocês! Eu sei que o útero é um lugar quentinho e agradável, mas há um mundo, vivemos nele e nele existem incontáveis conhecimentos que precisam ser explorados. Basta que furemos nossas bolhas e tentemos enxergar além do algoritmo, tentemos ir além de aprender, tentemos reaprender. 

quinta-feira, 15 de março de 2018

Conto - Intervalo Entre Canções - Parte 2



São 8 horas da manhã do dia 30 de agosto de 1997, Magno é acordado com a música que toca no Radio/Relógio. Sem saber direito onde está, com um gosto da ressaca em sua boca e se sentindo meio zonzo, ele senta na cama. Buscando algo familiar ele olha em volta e percebe que está em um hotel, olha para si mesmo e se enxerga somente de cueca, observando novamente ao redor, percebe que não há ninguém com ele dentro do pequeno quarto. Ele levanta para ir ao banheiro e ao fazer isso sente uma pontada em sua cabeça, é a ressaca batendo como um martelo, assim que a dor ameniza um pouco, ele tenta alguns passos na direção do banheiro, tira a cueca e toma um banho. Após se livrar parcialmente da bendita ressaca, ele tentar puxar na memória a noite anterior e em como veio parar ali, é inútil, ele não consegue se lembrar de nada após a sua chegada ao bar na noite anterior.

Magno recolhe as suas coisas, sua guitarra e seu violão, veste a sua roupa, sai do quarto e segue para a recepção do hotel. Chegando lá ele se dirige a recepcionista do hotel e diz:

Bom dia, eu estava no quarto 401 e gostaria de pagar e encerrar a pernoite!

Bom dia senhor, um minuto! – Responde a mulher e após alguns segundos ela continua: Senhor aqui consta que a pernoite já foi está paga!

Por quem? – Pergunta Magno.

Eu não tenho essa informação anotada aqui senhor e como quem estava aqui ontem a noite era outro funcionário eu não lhe posso dizer, só consta mesmo a informação do pagamento. – Responde a mulher.

Sem problema então, muito obrigado e tenha um bom dia. – Se despede Magno pensativo.

Para o senhor também – acrescenta a mulher


Magno se dirige para a saída e chegando a porta sente novamente a ressaca ser incomodada pela luz forte e brilhante do sol. Então ele pega o seu óculo escuro em sua mochila e junto a ele trás também o seu fone de ouvido e o seu walkman, e assim continua a seguir pela rua. Após alguns passos ele se dá conta que ainda está no centro da cidade, se dá conta também que está faminto, assim, caminhando para o ponto de ônibus ele também procura algum lugar para tomar um café. Por sorte ele nota que há uma padaria ali perto e segue em sua direção. Chegando a padaria ele se senta e pede à garçonete que está atendendo que lhe traga um copo de água, um café preto e um misto. Enquanto espera Magno procura mais uma vez em sua memória a noite anterior, é inútil, não há nada lá novamente além da lembrança dele entrando no bar e o gosto ruim de ressaca em sua boca. Nesse meio tempo a garçonete chega com o pedido, ele toma a água de um gole só para tentar aliviar a sensação terrível da ressaca, a qual parece que roubou todo o liquido do seu corpo. Em seguida toma o café pensativo e sentindo-se ainda muito desconfortável ele come alguns pedaços do seu misto quente. Algo ainda perfura lentamente a sua alma, algo entre a ressaca e o desconhecido, e assim ele toma e acaba o seu café e chamando novamente a garçonete, pergunta quanto foi à conta. Ela responde e ao pegar a carteira no bolso, Magno deixa cair um pequeno pedaço de papel no chão próximo a cadeira. E percebendo que Magno não percebe o papel no chão, a garçonete aponta:

Moço caiu um papel do seu bolso!

Olhando de lado e observando o papel no chão, Magno o apanha e lê o que está escrito no nele: “Me liga” seguido de um número de telefone. Pensativo e buscando mais uma vez a noite anterior em sua memória ele põe o papel em cima da mesa enquanto paga a garçonete. Em seguida ele se levanta e dirige-se ao telefone publico que há em frente à padaria com a esperança que aquele número possa dizer algo. Curioso ele disca rapidamente o número escrito no papel e após duas chamadas, alguém atende do outro lado linha.

Produtora Desire, Nath Bom dia! – Informa a atendente.

Bom dia é... Moça... Meu nome é Magno, é que eu encontrei esse número de telefone na minha calça, mas acho que foi engano, enfim, desculpe. – Responde Magno cheio de dúvidas.

Sem problemas senhor, qual é mesmo o seu nome? – questiona a mulher.
É Magno! – Responde.

Ah! O senhor pode aguardar um segundo? – Questiona a mulher no outro lado da linha.

Posso sim! – Responde Magno.

Após alguns segundos ela continua e o questiona: Perfeito, aguardávamos o seu telefonema senhor. Posso lhe transferir para o nosso gerente?

Hã... Acho que sim! – Com ainda mais dúvidas do quê antes Magno responde.
Um minuto. – Responde a atente transferindo a ligação para outro ramal. Após alguns segundos um homem fala do outro lado da linha:

Bom dia Magno, tudo bem cara?

Bom dia, tudo tranquilo e com você? – Responde Magno.

Tudo na paz, cara o meu nome é Lucas e eu recebi uma ligação ontem de um amigo que estava em um bar no centro da cidade e ele me disse que você é o novo sucesso do país, ele assistiu a sua apresentação e me disse que não conseguia acreditar no que estava assistindo e escutando. Então como esse é o meu trabalho e como eu confio muito na opinião desse amigo, eu fiquei muito curioso para saber quem era você e como era o teu som. Só que esse amigo não pegou o seu contato e ao contrário disso, disse que lhe entregou o meu!

Sei... Cara, eu não lembro muito ou pra falar a verdade nada desse seu amigo, esse número estava no bolso da minha calça, e eu também não lembro muita coisa da noite passada, estou numa baita ressaca, e não faço ideia que eu me apresentei dessa forma que seu amigo te relatou ai. – Magno responde sem entender absolutamente nada.

Entendo, mas deixa eu te dizer uma coisa, eu confio bastante na palavra desse meu amigo, então eu quero saber se você tem interesse da gente se encontrar e assim você me mostrar o que você pode fazer? – Pergunta Lucas.

Tenho interesse sim! Aonde e quando eu te encontro? – Responde Magno percebendo que os créditos do seu cartão telefônico já estavam no fim.

Pode ser aqui na produtora mesmo, dá certo ser hoje? – Pergunta Lucas.

Perfeito, me passa só o endereço que eu chego ai. – Disse Magno querendo encurtar o papo. Em seguida Lucas transfere a ligação para a atendente e ela passa o endereço para Magno, ele o anota e retorna a padaria, recolhe as suas coisas e parte imediatamente para a ponto do ônibus. No decorrer do caminho dentro do ônibus, ele puxa na memória quantas vezes pensou em entrar em contato com algum produtor para quem sabe assim gravar algo, porém nunca levou esse pensamento a frente, a segurança em sua voz não era tanta e ainda sem nada inédito para apresentar, sem nada autoral, ele não enxergava muitas chances de um produtor se interessar. Os pouco mais de trinta minutos de itinerário até a produtora foram de pensamentos conflitantes. Chegando a frente da produtora Magno percebe que ela não é uma espelunca, mas esta longe de ser uma das grandes. Ele segue para a entrada e na recepção encontra a mulher com quem falou ao telefone, ela pede para Magno aguardar, comunica a Lucas a sua presença ali e em seguida manda Magno entrar pela na porta logo a direita da mesa dela.


Ao entrar na sala, Magno se depara com Lucas sentado em sua poltrona. Ele o convida para sentar e o oferece alguma coisa para beber, Magno aceita água. Enquanto bebe a água e tenta aliviar a sua ressaca mais um pouco, Magno ouve umas de suas músicas favoritas baixinho no aparelho de som no canto da sala e olhando ao redor ele se admira com a quantidade de porta-retratos que há nas paredes do escritório, Lucas está em todas as fotos, ás vezes sozinho ás vezes acompanhado, e aqui e ali com pessoas famosas. Assim que Magno acaba de beber a sua água Lucas pergunta:

E ai Magno, você é bom mesmo?!

Cara... Assim... Pra ser sincero até agora eu não sei por que estou aqui, eu sou um cantor normal, eu me apresento na maioria das vezes em bares e em pequenas festas, sempre com minha guitarra e o meu violão tocando covers dos meus artistas favoritos, então até onde eu sei isso não é lá grande coisa. – Responde Magno em um tom de melancólico.

Sei... Mas não foi o que eu ouvi. Ouvi dizer que você deu um tremendo show ontem no bar, e que eu tenho que segurar você antes que “os grandes” segurem. Você topa fazer um teste agora? Eu tenho um pequeno estúdio aqui na produtora. – Pergunta Lucas.

Se isso é o que você quer, eu topo sim cara. – Reponde Magno altamente desconfiado.


Ao ouvir isso Lucas pega o telefone e fala com a recepcionista pedindo a ela que chamasse do técnico de som para ajudá-lo. Desligando ele se levanta de sua poltrona e segue na direção de uma porta que esta a sua direita e em seguida chama Magno para acompanha-lo. Eles entram na sala e já na dentro Magno percebe que a sala é dividida em duas, uma com uma mesa de som e outra para os músicos tocarem as suas cantarem e tocarem as suas músicas. Magno então passa por essa primeira sala e entra na segunda, em seguida retira as capas de seus instrumentos, e os observa, a sua velha guitarra e o seu velho violão. Mais sentindo do que refletindo, ele escolhe meio nervoso o seu violão, pois é o instrumento que Magno tem mais intimidade, é o que ele aprendeu primeiro e isso de certa forma o deixa um pouco mais calmo. Então ele o conecta ao plug do cabo que leva o som até a outra sala ao seu violão, regula o microfone a sua frente e senta-se no banco que há no meio da sala e espera.  Após um breve momento Magno observa o técnico de som entrar na primeira sala, ele senta em sua cadeira, liga a mesa de som e então fala através do microfone:

Oi cara, beleza? Meu nome é Iran, você tá me escutando bem?

Estou sim, alto e claro – Responde Magno.

Beleza então! Então faz o seguinte, toca qualquer coisa aí só pra eu fazer um teste rápido aqui. – Escutando o pedido, Magno toca algumas notas em seu violão. Em seguida ele volta a encarar Iran, que instantaneamente faz um sinal de positivo para Magno.

Agora testa o microfone – E novamente escutando o pedido Magno obedece, o teste funciona e novamente Iran faz o sinal de positivo para Magno.

Então posso começar? – Pergunta Magno a Iran através do microfone.

Manda bala! – Responde Iran.

E com um aceno de cabeça de Lucas ele começa. E a partir do momento em que começa, Magno sente como se ele flutuasse no infinito das estrelas. Sem se dar conta de quantas músicas tocou, ou quanto tempo passou, simplesmente sentindo cada nota que exala dos seus dedos e saboreando cada palavra que sai da sua boca, ao fim da terceira música ele para. Abrindo os olhos ele procura Lucas e Iran através do vidro que divide as salas. É quando Magno percebe que Lucas não está mais na outra sala e sim ao seu lado e a o encarar sem acreditar no que acabava de ouvir. Magno coloca a violão de lado e com as suas pernas dormentes como se o seu mundo estive completamente do avesso, ele levanta para pegar um copo de água que esta em cima de uma mesa na pequena sala, praticamente ignorando a presença de Lucas ali. Acompanhando Magno com o olhar, meio pálido no momento e sem conseguir processar direito as palavras e o pensamento Lucas pergunta:

Cara o que foi isso?

Antes da resposta de Magno, Iran entra na sala e diz: PUTA QUE PARIU CARA, ISSO FOI MUITO FODA! Bebendo a água, observando a reação de Iran e se voltando lentamente para Lucas, com um misto de espanto, ressaca e uma sensação de que acabou de sair do melhor sonho que teve em sua vida, Magno responde:

Eu juro que eu não sei!

Você tem o talento para conquistar o mundo cara, não somente o país. – Afirma Lucas agora com um sorriso e se aproximando de Magno.


Sem saber o que dizer e ainda completamente em choque pelo que descobriu que podia fazer Magno simplesmente concorda com a cabeça. Ele não consegue juntar um pensamento lógico, é como se um turbilhão de sentimentos e emoções estivessem fervendo dentro dele. Quando ele se dá conta e com os dedos ainda dormentes, ele pega novamente o seu violão, senta no banco e começa a tocar uma melodia que nunca havia escutado na vida. Lucas com um sinal de cabeça diz a Iran para ele ir novamente para a outra sala e quando ele chega lá, fazendo um sinal de indicador girando também o manda começar a gravar. Olhando na direção de Lucas Magno pergunta se ele também esta ouvindo o que ele esta tocando, Lucas afirma que sim e então ele começa a cantarolar:

Ah... Ah... Lá... Lá... Oh... Oh... Oh...

Calma... Calma minha pequena flor
Eu estou aqui te dizendo à verdade
Você não precisa se preocupar com a dor
Por que ela é somente um intervalo entre felicidades

Calma minha pequena flor
Eu vou estar sempre aqui para te amparar
Você não precisa se preocupar com nada
A não ser com o futuro que você tem para caminhar

Calma minha pequena flor
O mundo não é um lugar tão ruim assim
Ele é um grande livro
Repleto de conhecimentos sem fins

Calma minha pequena flor
Não tenha medo de desabrochar
Os ventos que levam as suas pétalas
Também são os ventos que podem te ninar

Você tem toda uma estação pela frente
Você irá brilhar em formas e cores
E lembre-se em meio às tempestades
Eu estarei aqui para te dizer
Calma minha pequena flor

CARA VOCÊ COMPÔS ISSO AGORA? – Grita Lucas dentro da pequena sala.

Com os olhos marejados e sem conseguir falar nada Magno simplesmente responde positivamente com a cabeça. Ele que nunca conseguiu realizar nada além do que já estava realizado; nunca conseguiu sentir a satisfação de uma criação; nunca conseguiu se emocionar e se sentir extremamente orgulhoso das coisas que fazia, então, de repente ele conseguiu sentir absolutamente tudo de uma única vez. E como uma avalanche de neve que lava toda a encosta de uma montanha, as lágrimas lavaram o seu rosto e Magno sem mais se conter, sorrir para Lucas numa mistura de felicidade absoluta e extrema surpresa.

CARALHO IRAN, VOCÊ GRAVOU ISSO? – Grita Lucas e Iran levando da sua cadeira e entrando na sala diz: CLARO NÉ PORRA! ISSO FOI MUITO FODA CARA! Será que você consegue repetir isso Magno, para a gente melhorar algumas pequenas coisas?

S... S... Sim... Acho que consigo! – Em um tom quase infantil Magno Responde.
Então espera um segundo que eu vou pra lá, Lucas me dá uma mão aqui cara! – Ao dizer isso Iran sai em disparada para a sala do equipamento som.
Você tá bem cara? – Pergunta Lucas.

Estou ótimo! – Responde Magno sorrindo e limpando o rosto.

Show, eu vou lá então para a gente continuar! – Diz Lucas.


E nesses segundos em que ficou sentado naquele banco, Magno se perde entre o tempo e o espaço. Com o seu Violão na mão ele viaja entre o futuro, o presente e o passado. Ele vive incontáveis momentos; ele é sufocado por fãs de todo país; ele se banha em flashs e em banheiras; ele transcende a barreira do dinheiro e do corpo; participa de inúmeros shows e concertos, possui todas as mulheres, homens, drogas e sucessos que deseja. Eleva-se ao ponto mais alto que um astro musical pode alcançar, é agraciado com prêmios e seus discos permanecem durante anos a fios entre os mais vendidos. E nesses mesmos anos em que navega nos rios da Fama, Magno é polêmico, incontrolável, desordeiro e tudo que um astro tem ou não direito de ser, porém as correntezas da Fama são tão rápidas que tudo que ele conseguiu fixar em sua mente são as músicas que vez, as músicas que compôs. Todo o resto, tudo que foi vivido, agora não passa de um borrão, um borrão de momentos e pessoas, um borrão de drogas e desperdícios. E ao mesmo tempo em que esses borrões crescem em seu ser, Magno se enxerga no meio desse pulo temporal.

Agora ele está com pouco mais de 40 anos de idade, ele observa. Ele observa a sua carreira; ele observa mais uma dessas noites de festas, bebedeiras e drogas; ele observa mais precisamente do dia 21 de outubro de 2015.


E observando ele acorda em um lapso temporário de drogas em uma imensa cama de Hotel, e sentando aos sustos ele procura sentido em meio a esse lapso, e se é que isso possa fazer algum sentido, ele encontra. Girando a cabeça na direção de um grande sofá que há no quarto ele encontra o seu empresário e agora grande amigo Lucas com mais três mulheres em sua companhia. Sem muito questionamento Magno rapidamente entende toda a situação. Então com alguma dificuldade ele tenta sair da cama e ir até o frigobar do quarto. Se levanta e ao chega ao mesmo ele sente uma tontura quase óbvia, abre o frigobar e pega uma água. E nesse momento que Lucas o questiona:

Cara você tá bem? Tá bebendo água!?

Vai se foder – Responde Magno com um pequeno sorriso.

Elas vão me foder, não é meninas? – Responde Lucas beijando uma das mulheres que está ao seu lado.

Observando aquilo e sem um pingo de paciência pra nada além de dormir, Magno se dirige novamente para a cama com a sua água na mão. Porém na metade do pequeno caminho ele sente uma vontade quase que incontrolável de ir ao banheiro, vontade essa que supera a sua vontade de dormir. Então é isso que ele faz, lentamente segue na direção do banheiro. Ao voltar, dando o primeiro passo de volta para dentro do quarto Magno escuta a campainha do quarto tocar, então ele olha para Lucas e pergunta:

Cara, você mandou vir mais?

Mais o quê cara? - Largando um copo de whisky no colo de uma das mulheres e acendendo um cigarro Lucas responde.

Mais mulher porra! – Diz Magno indo lentamente em direção à porta.

Ao abrir a porta ele se depara com uma mulher de cabelos longos e loiros. Ele se volta novamente para dentro do quarto e olhando na direção de Lucas, o questiona:

Você é um filho da puta. Tinham que mandar vir um traveco pra cá porra?!

Eu não mandei nada seu imbecil, se ele veio é porque quis. – Responde Lucas indo para o banheiro com duas das três mulheres.

O que você quer? E como você subiu até aqui? Esse andar todo está reservado! Eu reservei essa cobertura, não era para você está aqui! LUCAS, esse hotel é um lixo, nunca mais a gente vem aqui porra! – Esbraveja Magno fala em frente a mulher.

O que eu quero? Eu não quero nada! Até porque eu não preciso pedir nada. Eu estou aqui somente para observar e com isso eu fico satisfeita. E pode ter certeza baby, eu já observei bem tudo que preciso nesses poucos segundos. – Diz a mulher calmamente, com a certeza do mundo em suas palavras.

E ao mesmo tempo em que escuta aquelas palavras, Magno sente-se como há anos não se sentia, o destino dessa vez não estava há passar a mão em sua nuca, dessa vez ele iria lhe dar um abraço, lhe suspender no ar e colocar ele em um caminho totalmente desconhecido e nesse caminho ele sentiu que permaneceria por muito tempo. E ali parado na porta do quarto, com esse sentimento em sua alma ele observa a mulher andar pelo corredor voltando em direção ao elevador. Sentindo uma necessidade incontrolável de detê-la, ele parte em direção a ela, a agarra pelo braço e começa a falar:

Eu te conheço, eu lembro de você, eu te conheci naquele bar do centro há muito tempo, você disse que me daria tudo! Eu lembrei de tudo daquela noite agora, foi você, foi você quem me deixou famoso! – Com uma mistura de tristeza e desespero Magno afirma.

Sim, foi eu! – Respondeu a mulher


E o que você quer comigo dessa vez? – Pergunta Magno apertando um pouco mais o braço da mulher.

Primeiro que você me solte agora! – Responde a mulher. E seguida dessa resposta Magno sente um calafrio brotar do braço dela e irradiar pelo seu. Assim quase que imediatamente ele à solta, para nunca mais tocá-la.

Em segundo lugar eu vim te trazer essa lembrança. – Respondeu a mulher olhando para os seus olhos de Magno.

E sentindo-se como uma criança que fez coisa errada na frente da mãe, ele desviou o olhar. E seguida ele continua a questionar: Porque você me trouxe essa lembrança?

Por que ela é a única coisa com que você vai ficar depois que eu me for! Seu tempo chegou novamente Magno e diferente daqueles que nascem com um dom, eu posso fazer com você o que eu bem entender. Você é simplesmente mais uma decepção dos meus experimentos, mais uma falha, você como todos os outros se acomodou, não continuou, deixou se perder pelas coisas mundanas que todos se perdem e assim não enxergou a chance que eu te dei de colocar seu nome no caderno do tempo. – Responde a mulher um tom de decepção, mas não uma decepção com o próprio Magno e sim consigo mesma.

Por favor, não leve o que você me deu, eu não sou nada sem a música! – Implora Magno depois de alguns segundos em silêncio.

Ha, ha, ha, eu já levei meu querido há alguns minutos atrás! Mas você está enganado na sua afirmação, você é sim, você era algo quanto de conheci. – Diz as risadas e se dirigindo para dentro do elevador.

Mas agora eu sou isso que você me deu, e não consigo ser outra coisa. – Afirma Magno sentindo a mesma sensação de ser abandonado e observar o destino levar a pessoa amada com os seus pequenos e maldosos passos.

Apertando o botão do elevador, e com um brilho acinzentado no olhar ela responde para Magno enquanto a porta fecha: Ahhh... Meu querido, você será, você será!


O Tempo é um senhor implacável e ele nunca está sozinho, junto a ele vem como companheira algumas vezes a Depressão, a Tristeza, a Solidão e um dos seus melhores amigos o Esquecimento, e a partir daquela noite foi que Magno conheceu todo o poder desses amigos. Ele não conseguia mais produzir nada, não conseguia tocar mais as coisas que certa vez compôs, simplesmente voltou à estaca zero. Caído e abraçado com o Esquecimento e coberto pelo Ostracismo, os “amigos” e o dinheiro que uma vez eram em abundância, agora foram levados pelas correntezas do interesse e da incerteza. Tudo que agora lhe resta são os bares, não para se apresentar, mas para ele afogar diariamente as suas lembranças em qualquer garrafa de álcool que encontre. E mesmo afogando quase todas, ainda há uma permanece na superfície, como um pedaço de isopor boiando em sua mente, a lembrança da noite de 29 de agosto de 1997, o dia em que ele recebeu tudo.