quarta-feira, 22 de maio de 2024

Cada Soneto Um Moído - Autofagia

 

O Presente em Pensamentos e Sonetos

Acredito que um dos elementos mais fantásticos e divertidos do livro Deuses Americanos, do escritor inglês Neil Gaiman, é o fato de o autor transformar “conceitos” da nossa sociedade e do nosso mundo em Deuses. Por exemplo: como vivemos adorando a televisão, os celulares, os computadores e a internet, a Mídia se torna um Deus. 

Se você acha que esse é um conceito absurdo ou fantasioso, então basta constatar quantas pessoas são “dadas” em sacrifício constantemente a essa Deusa pelo fato de morrerem em acidentes de trânsito ocasionados pelo simples ato de checar as notificações das redes sociais. 

Este não é um conceito novo nem para o autor inglês, que já o havia explorado na série de quadrinhos de sua autoria, Sandman, nem na história humana. Desde a Antiguidade, criamos e adoramos deuses! As forças da Natureza, por exemplo, já tiveram seus momentos de adoração em nosso percurso neste planeta. No entanto, em sua maioria, essas forças já foram há muito esquecidas, com exceção de uma: o Tempo! 

Sempre achei que o Tempo seria o próprio Deus de Abraão. A personificação do Um. O monoteísmo encarnado ou o Deus dos Deuses imperando inconteste sobre todos os outros deuses. Desde muito cedo, entendi que o Tempo é um deus que expõe claramente a nossa fragilidade humana e que, diante dele, percebemos que não somos absolutamente nada. E mesmo assim, diante da possibilidade do frio esquecimento, não o adoramos devidamente. O filósofo romano Sêneca, afirmou certa vez: 

Nós desperdiçamos nosso tempo com frivolidades, dando mais valor ao ouro a conquistar, ou conquistado, do que ao bem mais precioso que temos, o Tempo. Negamos uma moeda a um mendigo, mas oferecemos, distribuímos, gastamos, o nosso valioso tempo com a mais rala interação social ou a mais potente das procrastinações”.

Então, quando nos damos conta, acabou-se o tempo, e nem todo dinheiro do mundo compra mais alguns dias de vida. É aí que imploramos, rezamos e choramos por mais horas, minutos e segundos. Mas, como a nossa adoração é falha, contraditória, infiel e bandoleira, este Deus, solitário e universal, observa o nosso sofrimento diminuto e, de seu trono secular, age com excessiva impiedade!


Autofagia

 

Corre o Tempo nas linhas da História

como um verso correndo em magia.

Quem será que conduz a trajetória?

Quem será que declama a poesia?

 

Sente o Tempo desgraça em demasia,

pela face da Morte há sua glória!

Cada Vida, passada em sangria,

só comprova a perene palmatória:

 

Sofre o Tempo cortando cada hora,

o seu corte lhe fere em sincronismo

demonstrando que faz bem seus papéis.

 

Chora o Tempo sozinho na Aurora!

Sem olhares. Perdido no abismo,

como um Deus esquecido por fiéis!



Clique no link abaixo para ouvir este soneto declamado:






Nenhum comentário:

Postar um comentário