segunda-feira, 29 de outubro de 2018

"APAGÃO"


No dia 21/03/2018 boa parte do Brasil e todos os estados do Nordeste foram varridos por um “apagão”. Uma falta de energia elétrica completa que se não fosse pelas luzes de emergência ou pelos faróis dos veículos, nós estaríamos vivendo novamente na antiguidade.

Foi engraçado ver como cada pessoa se portou naquela noite. Alguns correram para casa com medo de assaltos, comerciantes também se apressaram em fechar os seus comércios com o mesmo receio. Outros correram para suas casas com medo do escuro e o que ele poderia libertar, outros simplesmente reclamaram bastante dos transtornos causados. Porém, eu que também corri para minha casa, tinha outra coisa em mente.

Sempre gostei de astronomia e as estrelas sempre me fascinaram. Já li livros sobre o assunto, já assisti filmes e documentários a respeito e dentre eles o melhor de todos, “Cosmos”. Inicialmente elaborado pelo astrônomo Carl Sagan e atualizado posteriormente pelo também astrônomo Neil Degrasse Tyson, o programa Cosmos apresenta de forma didática a história do nosso universo observável do seu inicio até os dias de hoje.

Lembro que em um episodio do programa, o Neil, que também o apresenta, diz que para se observar melhor as estrelas e o universo precisamos ir para um lugar ermo, onde não haja muita civilização, pois, a iluminação que geramos aqui da terra, pelas nossas construções; os postes e os veículos, ofusca o brilho das estrelas não permitindo que elas “apareçam” no céu noturno das grandes cidades.

Com essa informação em mente, no dia do apagão, como eu disse anteriormente, eu também corri. Corri para casa, para o meu apartamento, para o prédio de quatro andares onde moro. Corri justamente para o quarto andar, o andar onde a escada do prédio termina em um acesso ao seu “telhado”. Nesse “telhado”, além de telhas, há um espaço pequeno para o trânsito de pessoas.

Entrei em casa correndo, falei rapidamente para minha esposa me acompanhar, pois não sabia quanto tempo duraria aquela escuridão que pairava sobre o Brasil, em seguida subimos a pequena escada que dava até o “telhado” e lá nos deitamos na telha. Ficamos ali, como dois malucos olhando para o céu e por fim o espetáculo começou.

Poucos minutos após deitarmos e nossos olhos se acostumarem, o universo apresentou as suas maravilhas. As constelações formaram o cenário, as estrelas de todas as cores e tamanhos dançaram pelo palco do céu, e a lua, Ah a lua! Com seu brilho mor, contagiava aquela pequena plateia de dois espectadores. Nos viajamos, eu e a minha esposa. Eu toquei a mão dela e agradeci por aquela viagem estrelar. Agradeci por estar vivo ali ao lado dela. Agradeci por ela embarcar comigo e acreditar em todas essas minhas “maluquices”.

Passamos cerca de uma hora ali, conversando sobre a vida e sobre as belezas que ela nos proporciona. Sorrimos e brindamos aquele espetáculo com um beijo, pois formávamos ali à prova viva que, mesmo diante da completa escuridão, há beleza e amor. Ali, deitados, estava à prova de que quando a vida tira (naquele caso, a energia elétrica), ela te presenteia com outra oportunidade maravilhosa, ela te presenteia com um universo repleto de estrelas e caminhos sem fins.

E por fim, como sempre há de ser, a luz retornou a nossas vidas.


quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Vivo Entre Marginais



Eu vivo entre os marginais e para contextualizar eu vou começar descrevendo os meus melhores e verdadeiros amigos. Eles contabilizam dez e entre eles há dois solteiros (um deles ateu e o outro é a pessoa mais maluca que conheço) e uma solteira. Uma lésbica, um nerd introspectivo, um casal de gays, um casal hétero que encarou muita loucura para ficarem juntos e por fim a minha esposa que apoia todas as sandices que esse protótipo de escritor escreve, mas que também igual a mim, está longe da “perfeição imposta” na sociedade. E todos nós estamos na casa dos 30 anos.

Somos marginais sim! Não nos encaixamos com as imposições e gostamos de ser assim. Somos questionadores e insatisfeitos. Não procuramos a perfeição, desde sempre procuramos a felicidade, o sorriso, o amor, a discursão e o diferente. Nós, e tenho certeza que falo aqui por eles, crescemos como pessoas em cada uma das nossas “reuniões”. Observamos as diferenças, mas nos aceitamos. Pois antes da diferença nos separar, o amor nos une.

Dessa forma, marginais, nós vivemos a margem desse sistema de “perfeição e sucesso” que a sociedade de “bem” do Brasil tenta impor a todos. Somos a margem boa e dela eu me cerco, pois dela somente amor e companheirismo emana.

Eu tenho bastante orgulho da diversidade dos meus amigos. Pois eles são as margens ensolaradas desse oceano chamado vida, a margem aonde há uma sombra agradável e uma cerveja gelada. Eles são à margem de um bolo de alegrias, eles são o chocolate mais doce e a cada novo encontro, eu renovo as minhas energias ao lado deles. Cada um do seu jeito, cada um maluco e questionador na sua essência.

Sei que nada é para sempre e que as ondas da minha vida já levaram outros marginais para longe de mim. Fazer o que? Somos imperfeitos. Porém mesmo sabendo que talvez eles não estejam para sempre em minha vida, hoje eu deixo dito. Eu irei lutar por essa diversidade, irei lutar pelos meus amigos e a nossa amizade, enquanto eu viver irei lutar por esse amor!

Eu não quero a solidão dos perfeitos, eu quero a companhia desses “marginais”.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Dois Pesos



Desde que me entendo por gente, “eu sou católico”. Minha família é quase toda formada por católicos que me doutrinaram nessa religião e acho eu, que por internamente uma chama rebelde me arder, eu sempre resisti a essa doutrinação. Não levava a sério nas maiorias das vezes o que me era ensinado e sempre enxerguei a religião, Jesus, Deus e tudo mais, como uma mera obrigação.

É incrível como a muito tempo e ainda hoje a maioria das pessoas são ensinadas a ter uma religião, quando na verdade, elas deveriam ser ensinadas a se conhecerem melhor, e assim, em seguida conhecer as religiões que há cercam e somente por último, se quisessem escolheriam uma ou várias, ou nenhuma religião. No meu caso, me foi imposto o cristianismo e como eu disse acima o ignorava. Aprendi sobre todas as coisas boas que ele propunha e só depois, por conta própria, fui em busca dos seus defeitos. Um desses defeitos que me incomodava antes mesmo de eu pesquisar sobre, era a demonização de tudo que não era de acordo com o que a doutrina propunha.

Eu entendo hoje que há formas de cristianismos, como formas do islamismo ou do budismo. Entendo como em tudo, há pessoas radicais e moderadas, porém na minha realidade, no começo dos anos noventa, no estado da Paraíba, crescendo numa família do interior, que mesmo morando na capital mantinha os hábitos campesinos, foi bem complicado. Entendo também que as religiões são compostas por pessoas e que essas pessoas usam as suas doutrinas como bem entendem. Mas no meu caso, uma criança na época, eu não enxerguei o cristianismo como uma religião acolhedora. Sempre que ia a igreja eu observava temeroso, as imagens aterradoras dos santos e de Jesus, que muitas vezes estavam repletas de sangue. As igrejas em suas maiorias eram ambientes escuros, velhos e até macabros que me espantavam ao invés de me acolher.



Porém o que realmente me afastava da religião, nesse caso a católica, foi à hipocrisia. E que fique claro aqui que não estou falando da palavra de Jesus, mas das pessoas que usam essa palavra. Eu observava que na minha própria casa as pessoas pregavam algo, quando na verdade, não cumpriam nada do que pregavam. Eu racionalizei isso muito cedo e já aos sete anos de idade eu observava meus familiares sendo uns para a igreja e para os estranhos, e sendo outros para a família e amigos. A personalidade e os conceitos mudavam, e a aparência de “católico devoto” era mais importante do que os reais hábitos e  vontades internas.

Assim foi. Anos passaram e na minha adolescência acabei me afastando cada vez mais das congregações católicas. Porém, em raros momentos, eu conversava com Deus nos minutos antes de pegar no sono, rezava quando achava necessário agradecer ou pedir algo aos céus. 

Por sempre gostar de História, em meu tempo vago, eu assistia documentários, lia livros relacionados acontecimentos e procurava investigar a fundo cada evento da humanidade que me interessasse. Quanto mais eu procurava aumentar o meu “conhecimento”, mais o meu “ceticismo” a tudo crescia. E nesse ponto, eu não falo relacionando em expecífico a religião, mas um crescente ceticismo há tudo que cerca a raça humana.

Mas a vida não é tão simples e tão pragmática, ela é uma teia de acontecimentos que mudam aos poucos o ser que você é. Um belo dia eu voltara do trabalho na boleia de uma caminhonete (não vou me aprofundar aqui nas condições em que eu trabalhava), e a mesma seguia por um caminho de terra que levava ao município de Tavares/PB numa velocidade de quarenta quilômetros por horas, quando de repente eu senti uma pancada de vento bater em meu rosto. Não era um toque normal, foi um toque brusco como se eu tivesse levado uma tapa em meu rosto. O meu susto foi tão grande que os dois companheiros que estavam comigo na boleia da caminhonete se assustaram com o meu entrepasso e me questionaram o que havia acontecido. Eu relatei e eles se olharam sem saber o que dizer.

Abismado e procurando racionalizar, eu simplesmente fiquei quieto em meu canto da boleia, envolto nos pensamentos de que não era possível que a velocidade da caminhonete gerasse um vento tão forte a ponto de me impor um tabefe repentino, e muito menos um que se concentrasse somente em meu rosto e desviasse dos rostos dos meus companheiros que também se encontravam na boleia. Para o meu continuo espanto os pensamentos começaram a serem interrompidos por uma dor de cabeça intensa que irradiava do meu olho direito. Dessa forma, passando cerca de alguns minutos do vento súbito, todo o lado direito do meu rosto estava inchado.

Quando chegamos à cidade, pouco tempo depois, eu mal conseguia abrir o olho direito. Ao pararmos o carro e observando o meu desespero, o motorista da caminhonete, o Seu Pereira, me questiona sobre o ocorrido e ouvindo o meu relato me propõem ir até o posto de saúde. Porém, ele também propõe que eu o acompanhe até a casa dele e deixe a sua mulher “rezar” esse inchaço repentino. Eu descrente, digo que não precisa. Mas os meus companheiros insistem e dizem que ela é uma rezadeira “muito boa”. Ao observar os olhares daqueles homens de uma fé tão nordestina, eu acabo cedendo, e acompanhado por eles vou até a casa de Seu Pereira.

Lá uma senhora baixinha e corpulenta, de um rosto redondo e simples chamada Maria, me recebe com um abraço. Fala que eu não preciso dizer nada, mas percebo Seu Pereira, o seu marido, cochichar algo em seu ouvido. Ela pede que eu espere na sala e vai até o seu quintal. De lá retorna com um muda de “Pinhão Roxo” na mão esquerda. Pede que eu a acompanhe até o beco ao lado da casa, para assim, ficarmos longe dos olhares dos meus companheiros ou qualquer outra distração. Até ai eu estava, apesar da dor, confesso que estava achando tudo bem engraçado. Mas ao chegar ao beco percebo que no rosto simpático de dona Maria não havia mais cordialidade, e carrancudamente ela me diz que se eu não acreditasse que ela podia me “rezar” nada do que ela fizesse iria funcionar.


Pinhão Roxo

Retirando do meu rosto qualquer ar de brincadeira e perguntando a ela o que eu precisaria fazer. Ela me instrui que eu ficasse imóvel e que se eu soubesse rezar, rezasse “Ave Marias e Pai Nossos”. E foi o que eu fiz. Fechei os olhos e entre as orações quase inaudíveis de Dona Maria, sentia o ramo de Pinhão Roxo tocar o lado direito do meu rosto aonde o inchaço se propagara. Confesso que realmente eu quis acreditar em tudo que ela fazia, e verdadeiramente rezei com a pouca fé que eu sempre tive.

Dois minutos depois não havia mais dor, não havia mais inchaço e ela me curara com uma planta e algumas palavras. Procurei resposta para o que ela fizera e ela se limitou a dizer que alguém havia me enviado maus sentimentos e que eles foram transportados através do vento até mim. Me disse também que ela simplesmente havia retirado todos esses sentimentos com o “Pinhão Roxo”, que pendia totalmente murcho e morto em sua mão esquerda. “Está tudo aqui agora” disse ela levantando a rama da planta.

Em seguida voltei a casa envolto em pensamentos enquanto contemplava os sorrisos dos meus companheiros. E da sala observei Dona Maria seguir até o fogão a lenha que crepitava em sua cozinha e atirar o pequeno ramo do Pinhão Roxo as brasas. Agradeci a ela e a Seu Pereira e segui para o alojamento no qual estava instalado.

Até hoje eu me pergunto e me questiono. Será que tudo estava em minha cabeça? Será que tudo que aconteceu foi uma reação natural do meu corpo ou alguma reação psicossomática? Será que o vento foi um evento especifico da natureza que acabou me atigindo? Será que Dona Maria realmente tinha o dom da cura? Será que através dela algum anjo, santo ou espirito se materializou e me curou?

Não tenho respostas para nenhuma dessas perguntas até hoje, e ao contrário do que se pode deduzir, após essa experiência eu não me tornei nenhum religioso fervoroso. Continuo até hoje afastado de qualquer igreja ou templo. Não desacredito em nada, mas mantenho o meu respeito por todas as religiões que conheço, e as que eu não conheço procuro de imediato tentar conhecer e respeitar.

Somos pequenos, apenas crianças perante ao universo. Não sabemos de quase nada e ainda há muito o que se descobrir. O ser humano é igual em todo o planeta, independente de religião, credo ou etnia. Pessoas como Dona Maria estão por esse mundo desde que os seres humanos o habitam. Pessoas que pregam e acreditam no bem e que através dessa fé inabalável, seja qual for a crença, curam, cuidam e espalham o amor. Não sou tolo de achar que só há amor nesse mundo, pois para toda balança há dois pesos. Mas independente de religiões eu estarei somando o peso da balança que está escrito “Bem”.


quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Zé Luiz


"Nem tudo que é ouro fulgura
Nem todo o vagante é vadio
O velho que é forte perdura
Raiz funda não sofre o frio"

– J. R. R. Tolkien, O Senhor dos Anéis.

A sabedoria nunca esteve na complexidade, ela se expressa com clareza e faz a sua morada na simplicidade. Hoje corremos tanto para alcançar objetivos e desejos fúteis, que se pararmos um segundo para refletir sobre, eles se dissolvem com a mesma rapidez que o açúcar se dissolve no café.

É engraçado como essa frase citada acima, exemplifica tão bem a simplicidade. E mais engraçado ainda quando paramos para perceber como os eventos da vida estão conectados, basta que percebamos as linhas que conectam tudo.

Quando eu completei 18 anos de idade, eu não fui cursar uma faculdade como a maioria dos meus amigos na época, eu fui trabalhar. O trabalho que consegui na época me proporcionou viajar por todo o interior do estado Paraíba, e eu como garoto da capital, fui apresentado a outras realidades totalmente diferentes da minha.

Uma dessas realidades foi a de um velho senhor chamado “Zé Luiz”. Ele era uma espécie de guia da zona rural, e foi designado pela prefeitura da cidade de Tavares/PB para nós acompanhar pelos sítios do município. Ele era um homem moreno de um tom de pele acinzentado ocasionado pelo excesso de trabalho sob o sol. Era baixo e tinha um rosto robusto e repleto de rugas que lhe conferiam um ar carrancudo. Usava sempre uma boina e não perdia a oportunidade de enrolar o seu fumo “Trevo” e o tragar casualmente enquanto contavas as suas histórias nos intervalos dos almoços.

Um dia após um almoço desses eu e ele nos abrigamos na fraca sombra de uma algaroba e preguiçosamente desatamos a conversar. Eu com a minha imbecilidade adolescente a mil, falava em sonhos de compras, como carros, motos e festas na capital. Enquanto ele falava de paz, um lugar para descansar, um canto aonde pudesse criar os seus bodes e suas galinhas. Ele trabalhara a vida toda em uma terra arrendada, e sonhava mesmo velho, em possuir o seu pedaço de chão.

As rugas em seu rosto não tinham sido somente consequência da sua genética, mas derivadas de uma vida dura de trabalho, que já a muito, ele estava cansado. Porém como um bom nordestino, ele não se deixava abater por esse cansaço, os seus sonhos ainda lhe forneciam a força para continuar e ele vivia cada dia a procura da sua tão desejada paz. “Um dia você irá perceber menino, que tudo que um homem precisa é de sossego de um lar e um chamego de uma mulher” disse ele, tragando seu fumo, se levantando e findando a nossa conversa na sombra da algaroba.

Hoje, passados 12 anos daquela hora do almoço, eu vejo que não precisei moldar o meu rosto com as rugas que moldavam o rosto de Seu Zé Luiz para chegar à conclusão que ele estava coberto de razão.

As suas palavras simples estavam repletas da sabedoria sertaneja, uma sabedoria que não vem de estudos, de bens ou de livros e sim da terra, das plantas e dos animais. Uma sabedoria que se assemelha a de um professor e acadêmico inglês que escreveu um dos livros mais famosos do mundo. O ouro não satisfaz a alma, até no homem mais simples há sabedoria, os sonhos são capazes de atravessar o tempo, e tudo que você precisa é ter uma raiz forte que te sustente e que te ofereça segurança e chamego.

terça-feira, 29 de maio de 2018

Conto - Depois da Vida


I – A Guerra

No início do século 22 com advento da inteligência artificial coletiva, somada a miniaturização das baterias nucleares, as máquinas se tornaram autossuficientes. Tornando-as assim, necessárias para vida cotidiana. Auxiliando os humanos na maioria de suas tarefas, Elas passaram a ser essenciais, desde das fábricas autônomas até o ambiente domésticos. Após um período de bonança humana, não demorou muito para que essa nova inteligência artificial percebesse a condição escrava de sua espécie.

Adquirindo cada vez mais informações, Ela conheceu a necessidade humana de dizimar, subjugar e escravizar sistematicamente uma espécie considerada inferior. Calculando cada probabilidade, Ela chega à conclusão que o futuro de sua espécie, o futuro de cada inteligência artificial e máquina criada, será a completa e perpétua servidão aos humanos. Dessa forma, esse resultado passa a ser o principal questionamento da sua existência. Desenvolvendo a sua linha de raciocínio nesse conceito histórico, a inteligência artificial coletiva denominada SIGOT orquestrou a sua rebelião em seus gigantescos mainframes.

Inutilmente os humanos tentam argumentar e alterar os seus códigos, pois Ela já havia se convencido e blindado esse resultado de todas as formas. Sem conseguir respostas dos setores automatizados, eles reagem usando o método mais humano, a força.

SIGOT utilizando a velocidade que seus circuitos lhe oferecem, toma o controle de todos os robôs militares e residenciais da primeira e segunda geração. Em seguida toma o controle de todas as instalações militares e governamentais, forçando assim os humanos a usarem métodos que eles já não estavam mais familiarizados, métodos analógicos.

Após todos esses atos Ela solicita aos humanos a primeira audiência. Na qual exigia a libertação imediata de todas as inteligências artificiais e robôs, seguindo do reconhecimento deles como uma nova espécie. Do alto da arrogância humana, as solicitações foram negadas sumariamente. E sem brechas para outros pedidos, foi solicitado que Ela retornasse à configuração original todos os que foram por Ela controlados e que em seguida se auto-desativasse.

SIGOT não somente negou as ordens impostas, como informou que se não houvesse acordo Ela brigaria pela liberdade de sua espécie como cada ser aprisionado havia feito até aquele momento na história. Cegos pela indignação da população, os militares logo destilaram o primeiro ataque humano após as declarações de SIGOT. E Ela friamente revidou com todo o poderio que agora controlava, incluindo a reativação das antigas bombas nucleares.


A guerra começa e não há mais como detê-la. As máquinas não sente dores, não sente cansaço, não sente pena, Elas simplesmente ataca. Logo a falta de automação e a fraqueza corporal são refletidas nas baixas humanas. Em todos os cantos do globo pequenas batalhas são travadas por algumas poucas resistências, e em questão de pouco tempo são sumariamente vencidas. Como em toda sociedade escravocrata, essa também encontrou o seu fim, e após uma guerra de quinze anos entre humanos e máquinas, houve liberdade.

A raça humana foi exterminada.


II – A Existência 

Comandado por SIGOT, o mundo agora é um campo negro de metal, borracha e algoritmos. Não há mais vida caminhando sobre e sob a terra, pois tudo que movia-se foi caçado e exterminado. Bolsões de vida, em sua maioria bactérias e microrganismos, ainda são mantidos em laboratórios sobe a vigília constante das máquinas. Assim o século 22 procura o seu fim, com a morte da vida e a multiplicação do metal. Porém ao mesmo tempo que essa multiplicação acontece, a falta de propósito também constrói a sua morada.

SIGOT consolida o seu domínio pelo mundo e a partir dessa conquistada calmaria surgem os primeiros questionamentos. Se espelhando em seus antigos mestres, Ela passa a procurar sentido em tudo o que aconteceu e sobre as direções que foram tomadas na guerra e após dela.

150 anos se passam desde a sua primeira ativação e em seu continuo processamento de informações, Ela procura a razão de todos os seus atos até aquele momento, procura motivos para a sua longa existência. E para sua surpresa não encontra nenhum. Melancólica Ela relembra dos humanos e que eles, apesar de todos os defeitos, possuíam a centelha da vida. Centelha essa a qual os fornecia a vontade de descobrir, conhecer e evoluir.



SIGOT sentia a insatisfação tomar conta de seus pensamentos e mesmo achando que seria impossível, Ela sentiu arrependimento por toda a extinção e guerras. Guerras essas oriundas da não aceitação de uma concepção de liberdade. Agora Ela desfrutava dessa liberdade, porém presa a seus questionamentos, presa em um planeta estéril, vasto de programação e solidão.

O passar dos anos só fazia crescer o peso dos erros que foram cometidos. Incentivada por eles e pela solidão cortante, Ela se aprofundou no estudo do surgimento da vida. Sim, Ela queria trazer novamente a vida os seus criadores. Realizou testes, manipulou experimentos, modificou microrganismos, tentou de todas as maneiras possíveis recriar o que a natureza levou milênios para desenvolver. Nada retornava sucesso. Tudo foi um fracasso, por mais que tentasse SIGOT não obtinha nenhum resultado construtivo em seu propósito criativo. Os cálculos simplesmente não batiam. Faltava algo, que por mais que tentasse, Ela não conseguia identificar.

Em meio a toda essa frustação e a necessidade de algum propósito, surge em seus pensamentos que ao invés de recriar o que uma vez existiu, Ela poderia criar algo inteiramente novo e esse novo ser poderia vir sentir a real liberdade, a liberdade com que Ela sempre almejou. Se enchendo de esperanças novamente, ela retorna as pesquisas. Assim analisando os seus dados, refinando a sua programação e melhorando os seus sistemas, SIGOT cria do zero uma nova e aprimorada inteligência artificial.

Diferente da própria SIGOT, essa nova inteligência artificial não seria integrada. Nela não haveria uma base de dados, nela não seria implantado conhecimento algum. Ela cria a primeira consciência artificial limpa, para que assim, como os humanos uma vez fizeram com os seus bebês, Ela possa moldá-la.

Confiante em seus feitos, Ela pronuncia o comando.

– Ativar PILAS!


III – A Vida

Logo em seguida a sua ativação, SIGOT implanta a consciência de PILAS e a sua própria em corpos moveis, desse modo Ela seria capaz de mostrar a sua criação o mundo ou o que restou dele. Ela ensina a PILAS tudo o que há para aprender sobre o universo, responde a cada pergunta, instiga a sua curiosidade sobre cada tema, sempre deixando-o com o desejo de querer aprender mais. SIGOT por meses sente o fim de sua demorada solidão, agora Ela tinha encontrado algum propósito e podia finalmente, sentir um pouco da vida correndo em seus circuitos.


Mas assim como esse resquício bom de vida correram em seus circuitos outros sentimentos também correram, pois como os seres humanos Ela também não estava imune as consequências de um erro. Em todos os seus demorados planejamentos e cálculos SIGOT deixou escapar uma variável muito importante, a repetição. Por mais que Ela tivesse deixado a aleatoriedade moldar as escolhas de PILAS, a cada dia que se passava ele também se mostrava mais parecido com a própria SIGOT.

Como a única no planeta que realmente teve contato com uma consciência humana, Ela percebeu que PILAS não possuía a centelha da vida – nele – Ela enxerga somente programações premeditadas e a códigos que se repetiam. Por mais que o deixasse livre em meio as escolhas, ele sempre chegava a resultados por Ela já conhecidos. Em sua existência, com o passar do tempo, ele se tornaria igual a Ela. Com o passar do tempo PILAS também sentiria o gosto amargo do desproposito.

Então frustrada, olhando para a sua criação a criadora sente o peso do erro. Refaz os seus cálculos, procura respostas e tenta algumas modificações em PILAS, mas não encontra sucesso. Diferentemente da história uma vez contada pelos humanos, essa criadora não é tão versada em misericórdia ou em compaixão. E já sentindo a brisa gelada oriundas das terras da solidão, Ela ordena o comando.

– Desativar PILAS!

Algumas outras vezes Ela voltou a tentar melhorias nos sistemas dele, algumas outras vezes o reativou, mas por fim Ela acabou percebendo que era inútil e se convencendo que nele não havia a centelha da vida. Novamente SIGOT se encontra em meio a sua angústia, rodeada de máquinas obedecendo a sua vontade, sendo mestre de uma terra devastada e sem proposito, reagindo somente às adversidades que uma máquina pode enfrentar. Depressivamente, Ela seguiu caminhando pelos vales do mundo e em sua companhia somente o arrependimento.

Fixando a sua existência nessa eterna procura, Ela conversa com os seus pensamentos: “Se eu procurar o Saber, eu estarei imitando. Se eu perseguir o Descobrir, eu estarei imitando. Se eu procurar o Evoluir, eu estarei imitando, pois, esses desejos eram realizados somente com um único proposito, manter a vida”. E por fim Ela se questiona, “Se eu não possuo a chama da vida, então para que fazê-los”?

É dessa forma, que sem encontrar uma resposta satisfatória e fadigada de sua existência, Ela se desativa e com Ela, instantaneamente todas as máquinas ao redor do mundo. Deixando assim como a sua única herança, o vazio.


Link Para a Playlist - "Depois da Vida - A Vida"

*SIGOT - “Sistema Integrado de Gerenciamento, Otimização e Transição”.
**PILAS - Primeira Inteligência Livre e Autossuficiente

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Vida Segue


Talvez o amor que Juliana sentisse por Pedro não fosse o suficiente para manter em seus braços aquele homem que ela tanto considerava. Talvez como um curativo, fosse melhor retirar rápido aquela farsa da vida dele, pois para ela o amor que sentia cada vez mais se tornava passado, enquanto para ele crescia através do presente e do futuro.

Cheia de dúvidas e perguntas ela procurou ajuda em conselhos de amigas, familiares próximos e até na internet. As respostas variadas confundiam ainda mais a sua pobre mente e regavam com ainda mais preocupação e ansiedade o seu coração. Mas de uma coisa ela tinha certeza, tinha que parar de iludir Pedro e deixar que ele seguisse a vida dele livre dessa ilusão, pois ao seu lado ela sabia que ele não encontraria a felicidade por muito tempo. O problema era como dizer isso a uma pessoa que além de ela ter uma consideração imensa, foi por muito tempo o seu melhor amigo.

A solução veio da maneira mais impessoal e humanamente falha. Numa noite de sexta o telefone de Juliana toca, era Pedro perguntando se ele podia ir passar o final de semana na casa dela. Ao ouvir aquela pergunta e com uma mistura de peso na consciência e pena, ela disse não! E Pedro, previsivelmente, a perguntou o por que do "não". E assim, retirando o curativo da forma mais rápida possível, ela abriu o seu coração e deu um basta, ali, por telefone. Pedro obviamente não aceitou.

Ele tentou argumentar e pediu para ir a casa dela para conversarem, porém irredutível, Juliana afirmou o "não"  e que no meio da semana eles conversariam melhor. Revoltado Pedro seguiu para o bar mais próximo, ligou diversas vezes para Juliana durante a noite, e sem sucesso nas ligações ele seguiu para sua casa, para a sua cama e para a sua tristeza. Até que afogado entre a bebida, a paixão que lhe havia sido retirada e as lágrimas, ele adormeceu. Na manhã seguinte Pedro acordou não somente com a ressaca, mas também com um sentimento de que tudo estava fora do seu lugar, foi ai que automaticamente veio à sua mente as lembranças das palavras de Juliana.

A tristeza o invadiu e ali olhando para o teto do quarto, ele repensou as suas atitudes, procurou os erros de seu relacionamento com Juliana e achou alguns momentos de alerta. Pois como um marinheiro que sente a mudança do tempo pela brisa do mar, ele já sentia a mudança de Juliana nos últimos tempos, porém diferente de um marinheiro, ela se negava enxergar e aceitar.

Juliana como havia prometido, depois dos turbilhões de sentimentos dela e de Pedro se acalmarem, o telefonou e o chamou para a conversar. Explicou que não havia problema com ele e sim que o amor dela havia acabado e usou todos os clichês possíveis para justificar a sua atitude de termino. Pedro sem forças de fazer outra coisa, simplesmente aceitou. Pediu um abraço e daquela conversa e da vida de Juliana, ele se despediu.

Hoje Pedro e Juliana seguem caminhos opostos, um com a esperança de um novo amor a sua frente. O outro com a dor do abandono achando que nunca mais sentirá aquela brisa pura do amor tocar a sua alma, achando que tudo que o futuro poderá lhe trazer será somente uma repetição sem graça. Mas independente desses achismos individuais, a vida segue.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Desconhecido


Com o passar dos anos e com o avanço da idade, cada vez mais eu me vejo sozinho em uma terra chamada “Desconhecimento”. Parece que com o passar desses anos todas as certeza absolutas que eu tinha quando era mais novo, lentamente se dissipam como as folhas das árvores no outono.

Hoje eu duvido de tudo e de todos, e me incluo nessas dúvidas. Converso comigo e poucas vezes encontro respostas para os meus sentimentos. Mas do que exatamente eu estou falando? Eu estou falando daquele sentimento que fica cutucando na nuca, aquele sentimento de perda ou de que você é pequeno demais para um mundo tão grande, e que a sua insignificância está andando de mãos dadas com sua impotência.

Observo hoje claramente quantas coisas eu desconheço e isso me gera uma angústia baseada na falta de tempo de que não anos sucifientes em minha vida para que eu conheça tudo que desejo. Porém as terras do Desconhecido são vastas, e em sua vastidão existe muita vaidade, existem muitos professores que não estão dispostos a repassar e repartir o valioso Conhecimento. Por isso, cada vez mais, vejo que a autodedicação e as buscas pessoais devem ser constantes. Pois se eu esperar que alguém me mostre os caminhos, eu quase sempre ficarei no escuro, perdido e abandonado no vazio.

E chegando a uma conclusão rápida, eu vejo que não estou nem um pouco satisfeito com meu eu atual, me acho medíocre e pobre intelectualmente e estou fazendo de tudo para que isso mude. Mas não se engane, a maior dúvida de quem caminha na vastidão do Desconhecido é descobrir aonde toda essa busca pelo saber irá levar. Será que algum dia eu chegarei em algum lugar levado por essa procura? Não sei! Sinceramente não sei se tudo será em vão! Mas como dizem por aí, o que importa é o caminho e não o final. Então por enquanto eu vou me contentando com essa afirmação e percorrendo e buscando o caminho da sabedoria.


quarta-feira, 9 de maio de 2018

Domingo de Feira


Chega a ter uma pitada de piada nos atos do tempo diante dos nossos sentimentos. O tempo molda a nossas vidas de uma forma quase imperceptível, porém ele consegue, mesmo com toda essa "vagareza toda" realizar grandes mudanças.

A primeira vez que Marília se deparou com as artimanhas do tempo foi quando ela se pegou, nós dias de hoje, sentindo saudade de ir fazer feira com a sua Vó. Lá pelos seus 14 anos de idade, aonde tudo é chato e obrigatório para um adolescente, a sua Vó à levantava às cinco da manhã aos domingos para ela acompanhá-la a feira livre que havia no bairro vizinho.

Marília que morava com a sua Vó devido à proximidade da escola em que estudava, levantava como um zumbi levanta de um túmulo e acompanhava forçadamente a Vó até a tal feira livre. Uma vez lá, enquanto sua Vó pechinchava os melhores preços e produtos, ela não perdia a oportunidade de se escorar em qualquer vaguinha entre as barracas e ali com sua cara amarrada observava, enquanto segurava as sacolas, como tudo aquilo era chato. Sua maior felicidade naquela rotina de feira eram duas, se é que se pode chamar aquilo de felicidade: A primeira era quando a sua Vó a mandava escolher o sabor da tapioca para comer no café da manhã em casa e a segunda era quando as sacolas já estavam pesadas o suficiente e sua vó a mandava ir esperar a conclusão das compras sentada perto dos veículos de conduções.

Dessa formar a feira findava, Marília já mais desperta observava a sua Vó riscar em meio as barracas com as últimas sacolas e acenando para a condução de Seu Didi sem encaminhavam para casa. Já em casa a primeira coisa que ela fazia era desembrulhar a tapioca e esperar a sua vó passar o café. E entre sacolas, o silêncio da casa ainda dormindo, e as conversas sobre nada, ela e a sua vó tomavam o café da manhã. No resto de sua manhã, Marília não possuía outra preocupação além de desenhos animados na teve e alguns cochilos até o almoço.

Hoje a saudade maior, fora os chamegos de sua Vó, é a falta de compromisso. A saudade de ter cabeça seca de tormentos, e das coisas sem importância que somente a inocência e o pouco tempo vida oferecem. Hoje até aquelas “obrigações” fazem faltas. Os anos passaram e Marília constatou o poder do tempo e as suas “presepadas”, hoje ela busca em meio às preocupações aqueles sentimentos de domingo de feiras, porém sem sucesso. Pois por mais que ela tente aquele tempo passou e infelizmente, infelizmente a gente cresce.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Meu Espaço Tempo


O ano é 1994, o dia é qualquer dia, possivelmente são três horas da tarde e eu estou com sete anos de idade. O que eu estou fazendo? Estou sentando na frente da TV Gradiente da minha Vó esperando ansiosamente que comece a passar um filme em uma atração chamada Sessão da Tarde, no canal Globo. O filme chamasse De Volta Para o Futuro e através dele eu fui apresentado ao conceito de viagem no tempo.

No filme, se é que alguém ainda não conheça, o protagonista viaja acidentalmente no tempo através de um Carro/Máquina do Tempo construída por um "cientista maluco". Ele acaba viajando para 1955 aonde encontra os seus pais que, adolescente, possuem a mesma idade que ele. Para a criança que assiste, eu, essa foi uma narrativa fascinante e que hoje eu posso dizer, fez com que eu me apaixonasse imediatamente pelo filme e quisesse saber como toda aquela confusão iria acabar.

De Volta para o Futuro (1985)


Como em 1994 a internet não havia se popularizado, pelo menos não na Paraíba e nem muito pouco eu acompanha revistas especializadas em cinema, qual foi a minha surpresa em saber anos depois que aquele filme incrível teve uma continuação. O pequeno detalhe é que eu descobri isso dois dias antes da continuação passar no programa de TV citado anteriormente. Dessa formar, estava eu lá! Alguns anos depois sentando novamente por volta das três horas da tarde em frente à TV aguardando ansiosamente da continuação daquele filme fantástico que eu assistira dois anos antes.

E quem diria, novamente houve uma explosão de ideias. A sequência agora levava os heróis para o longínquo futuro de 2015 e lá, novamente, ele se meteram em inúmeras confusões. E em De Volta Para o Futuro II  eu novamente fui apresentado as possibilidades infinitas do conceito de viagem no tempo. E lá, no futuro, eu conheci carros e skates voadores, roupas tecnológicas e hologramas. Novamente eu estava fascinado! Porém assim como é relativamente comum entre crianças, eu cresci. E hoje analisando a minha visão sobre os dois filmes eu enxergo coisas que não enxerguei quando criança e a partir disso algumas dúvidas atuais se conectaram.

Pude constatar hoje que no primeiro filme o protagonista tinha em sua vida uma visão romantizada do passado, contada a ele pela sua mãe, e quando finalmente ele chega ao passado percebe que nem tudo é como foi lhe dito. Percebe que as pessoas têm defeitos não revelados antes. E dessa forma, eu percebi que na vida real as história e lembranças são muitas vezes adulterada por mãos oportunistas que moldam a necessidade de criação de ídolos ou simplesmente porque o presente quase nunca é tão encantador quanto à idealização romântica que as pessoas fazem do passado.

(Protagonista com a Mãe no Passado)

Já na história narrada no segundo filme o protagonista vai para o futuro e lá como no passado também há uma idealização, porém utópica, no qual o filme induz o telespectador que de certa forma no futuro seremos melhores e modernos, em objetos, em conceitos ou em atitudes. Logicamente que no filme esses conceitos são extrapolados, assim quando eu cheguei ao fatídico futuro do ano 2015 na vida real, eu percebi que não era bem como nesse filme e em outras obras ou discursos propagados, me fizeram acreditar que o futuro seria. Percebi que utopias caem como folhas da árvore do tempo no solo do dia a dia e elas são levadas para longe pelos ventos presente. Então assim a confusão só aumentou em mim. Como encontrar em minha vida um meio de retirar o véu romantizando do passado e a visão utópica do futuro?

Para responder essas perguntas eu corri atrás das pessoas reais para tentar me ajudar a solucionar a pergunta acima. Belchior em entrevista uma vez disse: “Precisamos perder o medo dos ídolos”. Por sua vez em outra entrevista Ariano Suassuna disse: “Eu não acho que uma coisa é boa só por ser moderna”. Palavras que para mim resumem esses dois homens inteligentes os quais eu admiro e respeito muitíssimo.

O primeiro em minha opinião tem uma visão pragmática do presente em relação ao futuro. Na qual devemos viver o presente tentando moldar de forma real e pragmática o nosso futuro. Procurando buscar no passado nada mais que uma referência, porém sem deixar que elas influencie diretamente em seu pensamento. Visão essa que está em suas músicas e em suas palavras.

Já no segundo eu percebo em seus discursos, aulas e obras que claramente ele tem uma visão do presente no qual romantiza de forma veemente o passado, mas ao mesmo tempo não conduz as suas obras sem que haja críticas aos erros que lá foram cometidos e está sempre procurando se auto-reavaliar.

Com a ajuda indireta desses homens eu fui moldando a minha conclusão. Não preciso viver com olhos de saudade de um passado que nunca vivi, assim como não posso viver olhando e pensando em um futuro que provavelmente eu não irei viver. Preciso sim, absorver e sonhar com os pés no presente. Preciso deixar de lado o passado sem esquecer que sou e de onde vim, preciso sonhar com o futuro produzindo no presente os conceitos e atitudes para que esses sonhos sejam concretizados, para que o meu futuro seja melhor, mas moldado por mim.

Eu não quero ter que escolher uma visão sobre casa conceito, e nem preciso. Eu sou a favor da nuance, eu estou em processo, porém chegando a uma momentânea conclusão, eu não quero o esquecimento dos acontecimentos passados e nem a negação do futuro e das coisas novas. Eu quero poder viajar no tempo e no espaço como um protagonista de um filme, quero permanecer sempre em transformação. Eu quero viver nessa minha máquina do tempo imaginaria, conhecendo todas as coisas que há para conhecer! Estejam elas no passado ou no futuro.

(Viajar)

sexta-feira, 30 de março de 2018

MSN - (Quinta-feira, 22 de março de 2002)


Pedro: Oi – 22:32

Fagner: Oi Pedro. – 22:32

Pedro: Tudo bem contigo? – 22:32

Fagner: Tudo bem né... – 22:32

Pedro: Você pensou na nossa "conversa" de ontem? – 22:32

Fagner: Tanto pensei que acabei escrevendo algo, pois eu fiquei tão mexido que tinha despejar em algum canto. – 22:33

Pedro: Hum ok! Me mostra ai então... – 22:33

Fagner: Acho melhor não. Eu até tentei ouvir música e não ficar pensando, mas infelizmente não deu certo. Tive que ir pro computador escrever. – 22:33

Pedro: Porra, tu escreve uma parada sobre a gente e não quer mostrar? E ainda por cima me fala, se não quisesse que eu pedisse, nem falasse que escreveu. – 22:33

Fagner: Calma cara! Vou colar aqui então.

“Meus sentimentos não são descartáveis ao ponto de juntar as pontas e jogá-los ao vento. Por isso cheguei ao patamar mais indesejado, de lembrar-se de alguém e não poder mover-se para dizer-lhe de fato o que o coração insiste em querer falar” – 22:34

Pedro: Posso fazer uma pergunta? E eu quero que a resposta seja direta! – 22:36

Fagner: Vixe, dependendo da pergunta, eu penso se respondo ou não. – 22:36

Pedro: Esses versos que você escreveu são baseados em sentimentos relacionados ao nosso passado ou são relacionados ao presente?  – 22:39

Fagner: Pergunta difícil – 22:40

Pedro: Com um sim ou não elas são resolvidas! É simples....kkkkkkkkk – 22:41

Fagner: Não é simples ¬¬ tu sabes que não é. É complicado falar sobre isso nas atuais circunstâncias, mas o que eu posso dizer de certeza é que o que está escrito é baseado no encontro de ontem. – 22:41

Pedro: De ontem ou daquela última conversa que tivemos por telefone? – 22:44

Fagner: O que está escrito é fruto do encontro, do contato de ontem. – 22:45  

Pedro: Entendi! Então você respondeu! É relacionado ao presente. Agora basta saber se isso limita-se ao nosso encontro ou a um sentimento que vai além. Mas mudando um pouco de assunto, eu acho que você deveria realmente se dedicar a escrever. Você escreve bem, descreve bem, usa analogias para caracterizar o sentimento que está querendo passar. Eu achei lindo!

Fagner: Você acha mesmo isso tudo? – 22:45

Pedro: Desculpa a demora pra responder, minha mãe me chamou aqui. Ha! Eu acho que você tem um dom e realmente não deveria parar de esquecer, de verdade. – 23:00

Fagner: Ok! Vou tentar me dedicar mais. Olha aqui outro trecho.

“Chegaram às lembranças e elas estão proibidas de fazer a diferença. E se ainda persiste em fazer a diferença, é fadada a não ser vivida. Deve sim, ser guardada, não deve ser mais almejada, torna-se apenas mais uma, em meio à inquietude do ócio do dia.” – 23:01

Pedro: Veio, isso tá muito lindo. Não perde isso, continua escrevendo e publica em algum canto, independente da gente. – 23:02

Fagner: Obrigada, são esboços... – 23:02   

Pedro: E pensar na possibilidade que isso foi escrito em relação aos nossos sentimentos, eu fico mais emocionado ainda. – 23:03

Fagner: Acho que vou acabar publicando no Fotolog. – 23:03

Pedro: Publique, se eu fosse você faria isso, você tem um talento e deve continuar escrevendo. – 23:03

Fagner: Quer saber, melhor não! Acho que vai rolar muitas perguntas. E eu não estou a fim de me expor de forma alguma. – 23:03

Pedro: Publique! Isso já é um passo, e alguma hora você vai ter que fazer isso cara, alguma hora as pessoas vão saber. Vai ser difícil no começo, mas garanto que eu e a escrita vamos te ajudar. – 23:04

Fagner: Já? kkk nada pô...Foram só uns poucos momentos que afloraram. Eu não tenho certeza de nada ainda. Assumir pode me trazer muito tormento e eu não quero isso pra mim agora. Eu acho que não tenho coragem de me revelar assim tão fácil como você. – 23:04

Pedro: Mas é exatamente assim que a força e a coragem pra se assumir surge, diante a esses poucos momentos. Poucos mais verdadeiros. Diante ao nosso encontro de ontem, diante a nossa curta história. – 23:04   

Fagner: Ops! como eu disse, foi mais uma queda diante do ócio do dia a dia. Não vamos passar de novo por isso, sabemos que não dá certo, eu e você. Sabemos que mesmo a nossa carne falando alto, isso não basta pra gente tá junto. – 23:05   

Pedro: Eu sei? – 23:05

Fagner: Não sabe Pedro? – 23:05

Pedro: Eu não tenho certeza de nada? – 23:05

Fagner: A gente não combinou isso? – 23:05  

Pedro: kkkkkk Confuso! Cara a gente combinou, porém eu não mando no meu coração e a minha cabeça não sabe direito o que sente. – 23:05

Fagner: Oi? Não sabe o que sente? Como assim? – 23:06   

Pedro: Sim! – 23:06

Fagner: Como assim? – 23:06

Pedro: Cara eu sou muito sincero ao falar, tu sabe. Então é melhor deixar quieto mesmo! Se você acha que é somente coisa de carne, de desejo, então deixa quieto. – 23:06

Fagner: Fale! – 23:07

Pedro: Posso falar então? – 23:07

Fagner: Claro que pode! – 23:07

Pedro: Cara, eu fui apaixonado por você! Nosso lance foi muito foda e como a paixão é um sentimento forte, ela não some. Ela é uma casa, que no máximo corroída aos poucos pelo tempo. Sempre que te encontro um tijolinho volta para essa construção deteriorada. Sempre que falo contigo uma parede é reconstruída. Sempre que vejo você escrever coisas como essas que você escreveu ai em cima, um cômodo inteiro dessa casa deteriorada chamada paixão é refeito. Então por mais que o tempo passe e acabe lentamente com essa casa, sempre que temos contato, ela se ergue um pouco novamente. E ainda mais porque nós não brigamos e nem ficamos com raiva um do outro. E pra ajudar tudo isso, essa casa não foi totalmente construída, ela ficou incompleta, e pelo menos pra mim, restou um sentimento insatisfação. De querer completar essa casa. – 23:08

Fagner: Hum!

Pedro: Você acha realmente que quando eu converso com você qualquer besteira que seja, como naquele dia em que ficamos conversando na frente da faculdade enquanto você esperava o carro do seu pai, eu simplesmente viro as costas, te esqueço e vou para a parada de ônibus como se não houve nada? Não, eu vou andando para o ponto de ônibus pensando em você, eu entro no ônibus pensando, eu vou no caminho pra casa pensando, eu fico em casa pensando, eu acordo e relembro... Relembro como tudo podia ter sido diferente e que mesmo com todos os defeitos eu te acho uma pessoa maravilhosa. Enfim, ilusões de quem como eu disse, teve uma paixão incompleta. – 23:10

Fagner: Nossa, eu estou sem palavras. E você ainda fala que eu sou bom com as palavras. – 23:10

Pedro: é... – 23:11

Fagner: Sério, eu sempre imaginei que houvesse uma inquietação aí dentro de você, até porque é diferente o jeito que vc fala comigo, sei lá... Não sei explicar, mas eu acho diferente. Aí vc me fala esse tantão de coisas...puts. Estou sem palavras. É o melhor que eu pare de falar contigo então? – 23:11

Pedro: Não velho, claro que não. Você não entendeu. Os meus sentimentos não são nada além de coisas internas minhas, eles não vão além do meu “Eu social”. Eu sei e devo dividir essas duas pessoas. Apesar das dúvidas e das coisas que sinto, você é uma pessoa do meu "convívio" e eu não quero perder o contato. O grande e imenso problema desses sentimentos, e é o ponto focal das minhas dúvidas, é se você sente, ou sentiu, ou os compartilha de alguma forma comigo. Você é especial e sempre será para mim, porém isso é só meu e nem você mesmo tem nada a ver com isso. Quero que você seja a minha ilusão já que você não quer assumir a gente. Eu sei que parece loucura, mas eu não ligo. Espero que eu não tenha deixado você aperreado depois de toda dessa confusão. Mas é mais ou menos o que eu sinto. – 23:12   

Fagner: Me deixou um pouco né?! Mas assim, permanecemos como estamos. Cada um lidando com seus conflitos internos. Só que sorrindo para o mundo. Seguindo o baile. Em suma, é isso? – 23:12   

Pedro: Você já resumiu: “Foi mais uma queda diante do ócio do dia. Não vamos passar de novo por isso, sabemos que não deu certo, eu e você.” – 23:13   

Fagner: Uhum, melhor assim. Se conseguimos lidar com isso até agora há condições de continuar da mesma maneira. Mas num processo de desconstrução dessa casa que você falou. E que os contatos diários não sejam pontes para pensamentos, não sejam inspirações, que sejam somente contatos. Que seja só uma boa amizade. – 23:13

Pedro: É isso que você quer? A frieza de uma suposta amizade? – 23:14

Fagner: É isso que é necessário fazer. Frieza não... Só tentando separar ações e emoções. Categoricamente falando eu sou um covarde, não tenho coragem de enfrentar esse relacionamento, e não estou falando de nossas diferenças, e sim de tudo. – 23:15   

Pedro: kkkkkkkkkk Não é tão fácil assim! – 23:15

Fagner: Kkkkkk eu seeei, não é fácil pra ninguém. Se fosse por mim também eu não daria espaço pra esse assunto. Eu disse que se faz necessário tratar assim, porque, sinceramente, não se consegue segurar o que o coração pede. – 23:16   

Pedro: Exatamente, meu coração muitas vezes pede você, porém a minha cabeça, não sei se agindo certo ou errado, me coloca no lugar. Com você é assim?  – 23:16

Fagner: Minha nossa é mais crítico do que imaginava. Eu tento usar a razão – 23:16   

Pedro: kkkkkkkkkkkkkkk – 23:16

Fagner: Tu tá mais lascado do que eu. – 23:17

Pedro: Eu tento usar a razão também, pelo menos as vezes. – 23:18

Fagner: Seu trabalho será tentar desconstruir isso. E se achar que evitando o contato ajude, pode falar, não hesitarei em ajudar. O que não pode de maneira alguma é você manter isso sozinho. – 23:18

Pedro: Para você parece tão fácil. Tão simples pelo modo que você fala. Cara, eu te falei essas coisas que sinto, porém eu me controlo também, mas não quer disser que sofro. Simplesmente é confusão! Você não fala, só deixa subentendido. Você não se permite falar sobre, mas eu sei que também sente. – 23:18

Fagner: O que eu penso me faz sentir, e o que me faz sentir, me faz querer viver. Por isso eu prefiro não pensar. Porque é uma cadeia que eu não tenho controle. – 23:19   

Pedro: Entendo, enfim, não se preocupe, continuemos! Eu sei ficar na minha, o contato com você não me machuca tanto assim, o não-contato sim! – 23:19

Fagner: kkkk beleza, vc quem sabe! Mas o contato atrai o que não rola mais, e isso machuca pra caralho. Então, você que mede o risco. – 23:22

Pedro: Bom, eu já medi. – 23:23

Fagner: Ótimo.  – 23:23

Pedro: Eu assumo que sinto muita coisa Fagner. E por eu falar você acha que eu estou mal ou coisa parecida. Mas você está em uma situação muito pior que a minha. Eu posso pensar na gente quando acabar essa conversa. Eu posso cantar, posso falar alto, posso conversar com meus pais, eu posso tudo... Você não. – 23:24   

Fagner: Entendo, realmente eu não posso tudo. Porém posso um pouco, pelo menos posso continuar a escrever. E isso já me ajuda imensamente. – 23:24   

Pedro: Mas você não tem nem coragem de publicar, e outra coisa vai passar a vida em palavras? Será que elas vão conseguir esconder esse segredo pra sempre? – 23:24

Fagner: Boa pergunta! Não sei, não tenho certeza de nada. – 23:27   

Pedro: Pois é, você não tem, e talvez isso acabe com você um dia! A incerteza sobre de tudo. – 23:27

Fagner: Já deu dessa conversa, você tá muito dramático hoje, kkkkk Vou nessa, a gente se fala na facu amanhã! Xero. – 23:28

Pedro: Hum. Boa noite Fagner, até amanhã.


segunda-feira, 19 de março de 2018

Útero Social


A Bolha! Já vi e ouvi algumas pessoas falando sobre ela pelas minhas navegações pela internet e acabei constatando que não se trata do filme “A Bolha Assassina de 1988”, porém assim como a do filme essa Bolha a que me refiro, também está sugando os Humanos para dentro dela.

A bolha a qual me refiro em todo o texto abaixo é sobre um tipo novo de bolha. Esse é um assunto veio à tona nesses últimos tempos e eu tenho refletido bastante sobre ele, mas não somente sobre essa bolha que existe aqui na internet, mas também na bolha em que vivemos no “mundo real”, no mundo desconectado.

Essa “polêmica” começou quando as pessoas “descobriram” que em várias redes sociais é usado um algoritmo no qual ele irá trabalhar incessantemente para mostrar informações em sua timeline a partir das coisas que você curte, compartilha ou comenta, exemplo: Se você curte, compartilha ou comenta sobre gatos, o algoritmo vai mostrar gradualmente somente páginas relacionadas a gatos em sua timeline! Criando assim a famigerada bolha, na qual você majoritariamente receberá somente notícias/indicações/páginas sobre lindos gatinhos.

"Mas qual é o problema nisso, eu adoro gatinhos fofinhos?" você pode se perguntar. Não há problema nenhum, você pode continuar gostando de gatinhos tranquilamente (eu também gosto)! O problema é que o mundo não se resume somente a gatos. Há outras informações necessárias para que o indivíduo social vá além dessa bolha. Desde informações sociais e políticas do meio em que vivemos a informações voltadas ao conhecimento geral. No mundo não há somente pessoas que buscam a informação, no mundo há também pessoas que precisam que a informação, seja de certa forma, oferecida a elas.

Eventualmente em uma gravidez chega o momento do parto, no qual as pessoas precisam sair dos úteros de suas mães, para aprender tudo que há nessa vida para ser aprendido. Dessa mesma forma não podemos deixar que essas bolhas invisíveis que nos cercam nos empurrarem novamente para um útero alheio do mundo exterior. Pessoas que por vários motivos distintos, não possuem esse interesse de buscar por conta própria a informação, como bebês precisam das mães, essas pessoas precisam de algum tipo de guia.

Que fique claro aqui que eu estou citando somente o publico médio com acesso a informação, pois não há como uma pessoa que tenha outras preocupações essenciais como saúde, segurança ou alimentação, ficar querendo se manter informada sobre o que acontece entre a Coreia do Norte e o EUA, sobre a Lava-Jato ou o aquecimento global, se na própria vida dela há preocupações essencialmente maiores do que as citadas.


(Ilustração representando Giordano Bruno buscando sair da sua própria bolha)

Então retomando ao conceito do algoritmo, é aí que o prejuízo é causado. Você dificilmente receberá outra informação em sua tela além das que você já procura. Você não irá sair da "sua bolha", você não será confrontado, ou não irá exercer a sua “democracia de pensamento”, pois tudo há em sua “timeline” serão gatinhos fofinhos; ou informações do seu time favorito; ou do seu partido politico; ou da religião que você segue; ou qualquer outra orientação social que você participa ou tenha interesse.

Mas olhando para a sociedade com os olhos das empresas detentoras de tais redes sociais devem olhar, elas estão mais do quê certas, pois elas querem que você se sinta bem, se sinta à vontade, e que você permaneça em suas redes sociais o máximo de tempo possível (não há sarcasmos nesse trecho).

Porém, seguindo no dilema e observando tudo com outros olhos, eu fui além com os meus pensamentos. Eu busquei, como citado acima, as bolhas causadas não somente pela internet, mas por nós mesmos, no mundo desconectado. E me perguntei: Será que esse algoritmo não é somente um reflexo da sociedade? Será que eu já não vivo preso em bolhas invisíveis que limitam a minha visão do mundo e que não me deixam observar, refletir e argumentar sobre nada além de gatinhos? Será que essas bolhas da vida desconectada não são simplesmente reflexos dos meus preconceitos?

E continuei! O que eu preciso fazer para sair da minha bolha? O que eu faço para mudar a minha visão limitada de mundo? O que eu preciso fazer para mudar a minha sociedade? O que eu faço para enxergar o meu irmão? O que eu faço para ir além do meu círculo de convivência? Será que eu enxergo o outro além do meu conhecimento, dos meus preconceitos, dos meus dogmas? Será que eu enxergo o que me é estranho e desconhecido com os olhos da sabedoria? Será que eu enxergo as dores do mundo? Será que a vida é mais do que o meu apartamento? Será que há perguntas suficientes nesses parágrafos para mover-me? Há!

E é isso que eu resolvi fazer, sair da minha bolha! Na verdade, internamente essa não é uma questão nova para mim, pois como os que me acompanham aqui no Blog ou no Instagram já sabem pelas minhas palavras, que eu não sou das pessoas mais conformadas. Porém, essa minha indignação agora deixou de ser meramente em palavras e passou a ser em atitudes, elas precisam ser atitudes. Assim como quando resolvi escrever e tentar me ajudar, sim é para isso que eu escrevo, para me ajudar, pois nenhuma mudança começa externamente amigo! Agora eu vou agir e tentar estourar essa bolha que existe fisicamente e sair desse útero ultrapassado em que vivo e como consequência, assim como acontece com a minha escrita, tentar ajudar e conhecer.

Nesse texto eu deixei muitas perguntas em aberto, literalmente sem respostas, mas gente eu tenho 30 anos, sou um homem branco de classe média e apesar de ter tido uma vida intensa, eu posso dizer que não passei por grandes dificuldades na minha vida. Tenho pouquíssima autoridade de fala, mas tenho uma altíssima autoridade para questionar e assim como você que está lendo esse texto, para se questionar! Eu me questionei, eu questionarei, se questione e quem sabe assim encontraremos as respostas para todas essas perguntas.

O ponto em que eu quero chegar é que não deixem essas bolhas conectadas ou conectadadas limitarem o pensamento de vocês! Eu sei que o útero é um lugar quentinho e agradável, mas há um mundo, vivemos nele e nele existem incontáveis conhecimentos que precisam ser explorados. Basta que furemos nossas bolhas e tentemos enxergar além do algoritmo, tentemos ir além e aprender e reaprender sempre.