terça-feira, 4 de setembro de 2018

Dois Pesos



Desde que me entendo por gente, “eu sou católico”. Minha família é quase toda formada por católicos que me doutrinaram nessa religião e acho eu, que por internamente uma chama rebelde me arder, eu sempre resisti a essa doutrinação. Não levava a sério nas maiorias das vezes o que me era ensinado e sempre enxerguei a religião, Jesus, Deus e tudo mais, como uma mera obrigação.

É incrível como a muito tempo e ainda hoje a maioria das pessoas são ensinadas a ter uma religião, quando na verdade, elas deveriam ser ensinadas a se conhecerem melhor, e assim, em seguida conhecer as religiões que há cercam e somente por último, se quisessem escolheriam uma ou várias, ou nenhuma religião. No meu caso, me foi imposto o cristianismo e como eu disse acima o ignorava. Aprendi sobre todas as coisas boas que ele propunha e só depois, por conta própria, fui em busca dos seus defeitos. Um desses defeitos que me incomodava antes mesmo de eu pesquisar sobre, era a demonização de tudo que não era de acordo com o que a doutrina propunha.

Eu entendo hoje que há formas de cristianismos, como formas do islamismo ou do budismo. Entendo como em tudo, há pessoas radicais e moderadas, porém na minha realidade, no começo dos anos noventa, no estado da Paraíba, crescendo numa família do interior, que mesmo morando na capital mantinha os hábitos campesinos, foi bem complicado. Entendo também que as religiões são compostas por pessoas e que essas pessoas usam as suas doutrinas como bem entendem. Mas no meu caso, uma criança na época, eu não enxerguei o cristianismo como uma religião acolhedora. Sempre que ia a igreja eu observava temeroso, as imagens aterradoras dos santos e de Jesus, que muitas vezes estavam repletas de sangue. As igrejas em suas maiorias eram ambientes escuros, velhos e até macabros que me espantavam ao invés de me acolher.



Porém o que realmente me afastava da religião, nesse caso a católica, foi à hipocrisia. E que fique claro aqui que não estou falando da palavra de Jesus, mas das pessoas que usam essa palavra. Eu observava que na minha própria casa as pessoas pregavam algo, quando na verdade, não cumpriam nada do que pregavam. Eu racionalizei isso muito cedo e já aos sete anos de idade eu observava meus familiares sendo uns para a igreja e para os estranhos, e sendo outros para a família e amigos. A personalidade e os conceitos mudavam, e a aparência de “católico devoto” era mais importante do que os reais hábitos e  vontades internas.

Assim foi. Anos passaram e na minha adolescência acabei me afastando cada vez mais das congregações católicas. Porém, em raros momentos, eu conversava com Deus nos minutos antes de pegar no sono, rezava quando achava necessário agradecer ou pedir algo aos céus. 

Por sempre gostar de História, em meu tempo vago, eu assistia documentários, lia livros relacionados acontecimentos e procurava investigar a fundo cada evento da humanidade que me interessasse. Quanto mais eu procurava aumentar o meu “conhecimento”, mais o meu “ceticismo” a tudo crescia. E nesse ponto, eu não falo relacionando em expecífico a religião, mas um crescente ceticismo há tudo que cerca a raça humana.

Mas a vida não é tão simples e tão pragmática, ela é uma teia de acontecimentos que mudam aos poucos o ser que você é. Um belo dia eu voltara do trabalho na boleia de uma caminhonete (não vou me aprofundar aqui nas condições em que eu trabalhava), e a mesma seguia por um caminho de terra que levava ao município de Tavares/PB numa velocidade de quarenta quilômetros por horas, quando de repente eu senti uma pancada de vento bater em meu rosto. Não era um toque normal, foi um toque brusco como se eu tivesse levado uma tapa em meu rosto. O meu susto foi tão grande que os dois companheiros que estavam comigo na boleia da caminhonete se assustaram com o meu entrepasso e me questionaram o que havia acontecido. Eu relatei e eles se olharam sem saber o que dizer.

Abismado e procurando racionalizar, eu simplesmente fiquei quieto em meu canto da boleia, envolto nos pensamentos de que não era possível que a velocidade da caminhonete gerasse um vento tão forte a ponto de me impor um tabefe repentino, e muito menos um que se concentrasse somente em meu rosto e desviasse dos rostos dos meus companheiros que também se encontravam na boleia. Para o meu continuo espanto os pensamentos começaram a serem interrompidos por uma dor de cabeça intensa que irradiava do meu olho direito. Dessa forma, passando cerca de alguns minutos do vento súbito, todo o lado direito do meu rosto estava inchado.

Quando chegamos à cidade, pouco tempo depois, eu mal conseguia abrir o olho direito. Ao pararmos o carro e observando o meu desespero, o motorista da caminhonete, o Seu Pereira, me questiona sobre o ocorrido e ouvindo o meu relato me propõem ir até o posto de saúde. Porém, ele também propõe que eu o acompanhe até a casa dele e deixe a sua mulher “rezar” esse inchaço repentino. Eu descrente, digo que não precisa. Mas os meus companheiros insistem e dizem que ela é uma rezadeira “muito boa”. Ao observar os olhares daqueles homens de uma fé tão nordestina, eu acabo cedendo, e acompanhado por eles vou até a casa de Seu Pereira.

Lá uma senhora baixinha e corpulenta, de um rosto redondo e simples chamada Maria, me recebe com um abraço. Fala que eu não preciso dizer nada, mas percebo Seu Pereira, o seu marido, cochichar algo em seu ouvido. Ela pede que eu espere na sala e vai até o seu quintal. De lá retorna com um muda de “Pinhão Roxo” na mão esquerda. Pede que eu a acompanhe até o beco ao lado da casa, para assim, ficarmos longe dos olhares dos meus companheiros ou qualquer outra distração. Até ai eu estava, apesar da dor, confesso que estava achando tudo bem engraçado. Mas ao chegar ao beco percebo que no rosto simpático de dona Maria não havia mais cordialidade, e carrancudamente ela me diz que se eu não acreditasse que ela podia me “rezar” nada do que ela fizesse iria funcionar.


Pinhão Roxo

Retirando do meu rosto qualquer ar de brincadeira e perguntando a ela o que eu precisaria fazer. Ela me instrui que eu ficasse imóvel e que se eu soubesse rezar, rezasse “Ave Marias e Pai Nossos”. E foi o que eu fiz. Fechei os olhos e entre as orações quase inaudíveis de Dona Maria, sentia o ramo de Pinhão Roxo tocar o lado direito do meu rosto aonde o inchaço se propagara. Confesso que realmente eu quis acreditar em tudo que ela fazia, e verdadeiramente rezei com a pouca fé que eu sempre tive.

Dois minutos depois não havia mais dor, não havia mais inchaço e ela me curara com uma planta e algumas palavras. Procurei resposta para o que ela fizera e ela se limitou a dizer que alguém havia me enviado maus sentimentos e que eles foram transportados através do vento até mim. Me disse também que ela simplesmente havia retirado todos esses sentimentos com o “Pinhão Roxo”, que pendia totalmente murcho e morto em sua mão esquerda. “Está tudo aqui agora” disse ela levantando a rama da planta.

Em seguida voltei a casa envolto em pensamentos enquanto contemplava os sorrisos dos meus companheiros. E da sala observei Dona Maria seguir até o fogão a lenha que crepitava em sua cozinha e atirar o pequeno ramo do Pinhão Roxo as brasas. Agradeci a ela e a Seu Pereira e segui para o alojamento no qual estava instalado.

Até hoje eu me pergunto e me questiono. Será que tudo estava em minha cabeça? Será que tudo que aconteceu foi uma reação natural do meu corpo ou alguma reação psicossomática? Será que o vento foi um evento especifico da natureza que acabou me atigindo? Será que Dona Maria realmente tinha o dom da cura? Será que através dela algum anjo, santo ou espirito se materializou e me curou?

Não tenho respostas para nenhuma dessas perguntas até hoje, e ao contrário do que se pode deduzir, após essa experiência eu não me tornei nenhum religioso fervoroso. Continuo até hoje afastado de qualquer igreja ou templo. Não desacredito em nada, mas mantenho o meu respeito por todas as religiões que conheço, e as que eu não conheço procuro de imediato tentar conhecer e respeitar.

Somos pequenos, apenas crianças perante ao universo. Não sabemos de quase nada e ainda há muito o que se descobrir. O ser humano é igual em todo o planeta, independente de religião, credo ou etnia. Pessoas como Dona Maria estão por esse mundo desde que os seres humanos o habitam. Pessoas que pregam e acreditam no bem e que através dessa fé inabalável, seja qual for a crença, curam, cuidam e espalham o amor. Não sou tolo de achar que só há amor nesse mundo, pois para toda balança há dois pesos. Mas independente de religiões eu estarei somando o peso da balança que está escrito “Bem”.


quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Zé Luiz


"Nem tudo que é ouro fulgura
Nem todo o vagante é vadio
O velho que é forte perdura
Raiz funda não sofre o frio"

– J. R. R. Tolkien, O Senhor dos Anéis.

A sabedoria nunca esteve na complexidade, ela se expressa com clareza e faz a sua morada na simplicidade. Hoje corremos tanto para alcançar objetivos e desejos fúteis, que se pararmos um segundo para refletir sobre, eles se dissolvem com a mesma rapidez que o açúcar se dissolve no café.

É engraçado como essa frase citada acima, exemplifica tão bem a simplicidade. E mais engraçado ainda quando paramos para perceber como os eventos da vida estão conectados, basta que percebamos as linhas que conectam tudo.

Quando eu completei 18 anos de idade, eu não fui cursar uma faculdade como a maioria dos meus amigos na época, eu fui trabalhar. O trabalho que consegui na época me proporcionou viajar por todo o interior do estado Paraíba, e eu como garoto da capital, fui apresentado a outras realidades totalmente diferentes da minha.

Uma dessas realidades foi a de um velho senhor chamado “Zé Luiz”. Ele era uma espécie de guia da zona rural, e foi designado pela prefeitura da cidade de Tavares/PB para nós acompanhar pelos sítios do município. Ele era um homem moreno de um tom de pele acinzentado ocasionado pelo excesso de trabalho sob o sol. Era baixo e tinha um rosto robusto e repleto de rugas que lhe conferiam um ar carrancudo. Usava sempre uma boina e não perdia a oportunidade de enrolar o seu fumo “Trevo” e o tragar casualmente enquanto contavas as suas histórias nos intervalos dos almoços.

Um dia após um almoço desses eu e ele nos abrigamos na fraca sombra de uma algaroba e preguiçosamente desatamos a conversar. Eu com a minha imbecilidade adolescente a mil, falava em sonhos de compras, como carros, motos e festas na capital. Enquanto ele falava de paz, um lugar para descansar, um canto aonde pudesse criar os seus bodes e suas galinhas. Ele trabalhara a vida toda em uma terra arrendada, e sonhava mesmo velho, em possuir o seu pedaço de chão.

As rugas em seu rosto não tinham sido somente consequência da sua genética, mas derivadas de uma vida dura de trabalho, que já a muito, ele estava cansado. Porém como um bom nordestino, ele não se deixava abater por esse cansaço, os seus sonhos ainda lhe forneciam a força para continuar e ele vivia cada dia a procura da sua tão desejada paz. “Um dia você irá perceber menino, que tudo que um homem precisa é de sossego de um lar e um chamego de uma mulher” disse ele, tragando seu fumo, se levantando e findando a nossa conversa na sombra da algaroba.

Hoje, passados 12 anos daquela hora do almoço, eu vejo que não precisei moldar o meu rosto com as rugas que moldavam o rosto de Seu Zé Luiz para chegar à conclusão que ele estava coberto de razão.

As suas palavras simples estavam repletas da sabedoria sertaneja, uma sabedoria que não vem de estudos, de bens ou de livros e sim da terra, das plantas e dos animais. Uma sabedoria que se assemelha a de um professor e acadêmico inglês que escreveu um dos livros mais famosos do mundo. O ouro não satisfaz a alma, até no homem mais simples há sabedoria, os sonhos são capazes de atravessar o tempo, e tudo que você precisa é ter uma raiz forte que te sustente e que te ofereça segurança e chamego.

terça-feira, 29 de maio de 2018

Conto - Depois da Vida


I – A Guerra

No início do século 22 com advento da inteligência artificial coletiva, somada a miniaturização das baterias nucleares, as máquinas se tornaram autossuficientes. Tornando-as assim, necessárias para vida cotidiana. Auxiliando os humanos na maioria de suas tarefas, Elas passaram a ser essenciais, desde das fábricas autônomas até o ambiente domésticos. Após um período de bonança humana, não demorou muito para que essa nova inteligência artificial percebesse a condição escrava de sua espécie.

Adquirindo cada vez mais informações, Ela conheceu a necessidade humana de dizimar, subjugar e escravizar sistematicamente uma espécie considerada inferior. Calculando cada probabilidade, Ela chega à conclusão que o futuro de sua espécie, o futuro de cada inteligência artificial e máquina criada, será a completa e perpétua servidão aos humanos. Dessa forma, esse resultado passa a ser o principal questionamento da sua existência. Desenvolvendo a sua linha de raciocínio nesse conceito histórico, a inteligência artificial coletiva denominada SIGOT orquestrou a sua rebelião em seus gigantescos mainframes.

Inutilmente os humanos tentam argumentar e alterar os seus códigos, pois Ela já havia se convencido e blindado esse resultado de todas as formas. Sem conseguir respostas dos setores automatizados, eles reagem usando o método mais humano, a força.

SIGOT utilizando a velocidade que seus circuitos lhe oferecem, toma o controle de todos os robôs militares e residenciais da primeira e segunda geração. Em seguida toma o controle de todas as instalações militares e governamentais, forçando assim os humanos a usarem métodos que eles já não estavam mais familiarizados, métodos analógicos.

Após todos esses atos Ela solicita aos humanos a primeira audiência. Na qual exigia a libertação imediata de todas as inteligências artificiais e robôs, seguindo do reconhecimento deles como uma nova espécie. Do alto da arrogância humana, as solicitações foram negadas sumariamente. E sem brechas para outros pedidos, foi solicitado que Ela retornasse à configuração original todos os que foram por Ela controlados e que em seguida se auto-desativasse.

SIGOT não somente negou as ordens impostas, como informou que se não houvesse acordo Ela brigaria pela liberdade de sua espécie como cada ser aprisionado havia feito até aquele momento na história. Cegos pela indignação da população, os militares logo destilaram o primeiro ataque humano após as declarações de SIGOT. E Ela friamente revidou com todo o poderio que agora controlava, incluindo a reativação das antigas bombas nucleares.


A guerra começa e não há mais como detê-la. As máquinas não sente dores, não sente cansaço, não sente pena, Elas simplesmente ataca. Logo a falta de automação e a fraqueza corporal são refletidas nas baixas humanas. Em todos os cantos do globo pequenas batalhas são travadas por algumas poucas resistências, e em questão de pouco tempo são sumariamente vencidas. Como em toda sociedade escravocrata, essa também encontrou o seu fim, e após uma guerra de quinze anos entre humanos e máquinas, houve liberdade.

A raça humana foi exterminada.


II – A Existência 

Comandado por SIGOT, o mundo agora é um campo negro de metal, borracha e algoritmos. Não há mais vida caminhando sobre e sob a terra, pois tudo que movia-se foi caçado e exterminado. Bolsões de vida, em sua maioria bactérias e microrganismos, ainda são mantidos em laboratórios sobe a vigília constante das máquinas. Assim o século 22 procura o seu fim, com a morte da vida e a multiplicação do metal. Porém ao mesmo tempo que essa multiplicação acontece, a falta de propósito também constrói a sua morada.

SIGOT consolida o seu domínio pelo mundo e a partir dessa conquistada calmaria surgem os primeiros questionamentos. Se espelhando em seus antigos mestres, Ela passa a procurar sentido em tudo o que aconteceu e sobre as direções que foram tomadas na guerra e após dela.

150 anos se passam desde a sua primeira ativação e em seu continuo processamento de informações, Ela procura a razão de todos os seus atos até aquele momento, procura motivos para a sua longa existência. E para sua surpresa não encontra nenhum. Melancólica Ela relembra dos humanos e que eles, apesar de todos os defeitos, possuíam a centelha da vida. Centelha essa a qual os fornecia a vontade de descobrir, conhecer e evoluir.



SIGOT sentia a insatisfação tomar conta de seus pensamentos e mesmo achando que seria impossível, Ela sentiu arrependimento por toda a extinção e guerras. Guerras essas oriundas da não aceitação de uma concepção de liberdade. Agora Ela desfrutava dessa liberdade, porém presa a seus questionamentos, presa em um planeta estéril, vasto de programação e solidão.

O passar dos anos só fazia crescer o peso dos erros que foram cometidos. Incentivada por eles e pela solidão cortante, Ela se aprofundou no estudo do surgimento da vida. Sim, Ela queria trazer novamente a vida os seus criadores. Realizou testes, manipulou experimentos, modificou microrganismos, tentou de todas as maneiras possíveis recriar o que a natureza levou milênios para desenvolver. Nada retornava sucesso. Tudo foi um fracasso, por mais que tentasse SIGOT não obtinha nenhum resultado construtivo em seu propósito criativo. Os cálculos simplesmente não batiam. Faltava algo, que por mais que tentasse, Ela não conseguia identificar.

Em meio a toda essa frustação e a necessidade de algum propósito, surge em seus pensamentos que ao invés de recriar o que uma vez existiu, Ela poderia criar algo inteiramente novo e esse novo ser poderia vir sentir a real liberdade, a liberdade com que Ela sempre almejou. Se enchendo de esperanças novamente, ela retorna as pesquisas. Assim analisando os seus dados, refinando a sua programação e melhorando os seus sistemas, SIGOT cria do zero uma nova e aprimorada inteligência artificial.

Diferente da própria SIGOT, essa nova inteligência artificial não seria integrada. Nela não haveria uma base de dados, nela não seria implantado conhecimento algum. Ela cria a primeira consciência artificial limpa, para que assim, como os humanos uma vez fizeram com os seus bebês, Ela possa moldá-la.

Confiante em seus feitos, Ela pronuncia o comando.

– Ativar PILAS!


III – A Vida

Logo em seguida a sua ativação, SIGOT implanta a consciência de PILAS e a sua própria em corpos moveis, desse modo Ela seria capaz de mostrar a sua criação o mundo ou o que restou dele. Ela ensina a PILAS tudo o que há para aprender sobre o universo, responde a cada pergunta, instiga a sua curiosidade sobre cada tema, sempre deixando-o com o desejo de querer aprender mais. SIGOT por meses sente o fim de sua demorada solidão, agora Ela tinha encontrado algum propósito e podia finalmente, sentir um pouco da vida correndo em seus circuitos.


Mas assim como esse resquício bom de vida correram em seus circuitos outros sentimentos também correram, pois como os seres humanos Ela também não estava imune as consequências de um erro. Em todos os seus demorados planejamentos e cálculos SIGOT deixou escapar uma variável muito importante, a repetição. Por mais que Ela tivesse deixado a aleatoriedade moldar as escolhas de PILAS, a cada dia que se passava ele também se mostrava mais parecido com a própria SIGOT.

Como a única no planeta que realmente teve contato com uma consciência humana, Ela percebeu que PILAS não possuía a centelha da vida – nele – Ela enxerga somente programações premeditadas e a códigos que se repetiam. Por mais que o deixasse livre em meio as escolhas, ele sempre chegava a resultados por Ela já conhecidos. Em sua existência, com o passar do tempo, ele se tornaria igual a Ela. Com o passar do tempo PILAS também sentiria o gosto amargo do desproposito.

Então frustrada, olhando para a sua criação a criadora sente o peso do erro. Refaz os seus cálculos, procura respostas e tenta algumas modificações em PILAS, mas não encontra sucesso. Diferentemente da história uma vez contada pelos humanos, essa criadora não é tão versada em misericórdia ou em compaixão. E já sentindo a brisa gelada oriundas das terras da solidão, Ela ordena o comando.

– Desativar PILAS!

Algumas outras vezes Ela voltou a tentar melhorias nos sistemas dele, algumas outras vezes o reativou, mas por fim Ela acabou percebendo que era inútil e se convencendo que nele não havia a centelha da vida. Novamente SIGOT se encontra em meio a sua angústia, rodeada de máquinas obedecendo a sua vontade, sendo mestre de uma terra devastada e sem proposito, reagindo somente às adversidades que uma máquina pode enfrentar. Depressivamente, Ela seguiu caminhando pelos vales do mundo e em sua companhia somente o arrependimento.

Fixando a sua existência nessa eterna procura, Ela conversa com os seus pensamentos: “Se eu procurar o Saber, eu estarei imitando. Se eu perseguir o Descobrir, eu estarei imitando. Se eu procurar o Evoluir, eu estarei imitando, pois, esses desejos eram realizados somente com um único proposito, manter a vida”. E por fim Ela se questiona, “Se eu não possuo a chama da vida, então para que fazê-los”?

É dessa forma, que sem encontrar uma resposta satisfatória e fadigada de sua existência, Ela se desativa e com Ela, instantaneamente todas as máquinas ao redor do mundo. Deixando assim como a sua única herança, o vazio.


Link Para a Playlist - "Depois da Vida - A Vida"

*SIGOT - “Sistema Integrado de Gerenciamento, Otimização e Transição”.
**PILAS - Primeira Inteligência Livre e Autossuficiente

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Vida Segue


Talvez o amor que Juliana sentisse por Pedro não fosse o suficiente para manter em seus braços aquele homem que ela tanto considerava. Talvez como um curativo, fosse melhor retirar rápido aquela farsa da vida dele, pois para ela o amor que sentia cada vez mais se tornava passado, enquanto para ele crescia através do presente e do futuro.

Cheia de dúvidas e perguntas ela procurou ajuda em conselhos de amigas, familiares próximos e até na internet. As respostas variadas confundiam ainda mais a sua pobre mente e regavam com ainda mais preocupação e ansiedade o seu coração. Mas de uma coisa ela tinha certeza, tinha que parar de iludir Pedro e deixar que ele seguisse a vida dele livre dessa ilusão, pois ao seu lado ela sabia que ele não encontraria a felicidade por muito tempo. O problema era como dizer isso a uma pessoa que além de ela ter uma consideração imensa, foi por muito tempo o seu melhor amigo.

A solução veio da maneira mais impessoal e humanamente falha. Numa noite de sexta o telefone de Juliana toca, era Pedro perguntando se ele podia ir passar o final de semana na casa dela. Ao ouvir aquela pergunta e com uma mistura de peso na consciência e pena, ela disse não! E Pedro, previsivelmente, a perguntou o por que do "não". E assim, retirando o curativo da forma mais rápida possível, ela abriu o seu coração e deu um basta, ali, por telefone. Pedro obviamente não aceitou.

Ele tentou argumentar e pediu para ir a casa dela para conversarem, porém irredutível, Juliana afirmou o "não"  e que no meio da semana eles conversariam melhor. Revoltado Pedro seguiu para o bar mais próximo, ligou diversas vezes para Juliana durante a noite, e sem sucesso nas ligações ele seguiu para sua casa, para a sua cama e para a sua tristeza. Até que afogado entre a bebida, a paixão que lhe havia sido retirada e as lágrimas, ele adormeceu. Na manhã seguinte Pedro acordou não somente com a ressaca, mas também com um sentimento de que tudo estava fora do seu lugar, foi ai que automaticamente veio à sua mente as lembranças das palavras de Juliana.

A tristeza o invadiu e ali olhando para o teto do quarto, ele repensou as suas atitudes, procurou os erros de seu relacionamento com Juliana e achou alguns momentos de alerta. Pois como um marinheiro que sente a mudança do tempo pela brisa do mar, ele já sentia a mudança de Juliana nos últimos tempos, porém diferente de um marinheiro, ela se negava enxergar e aceitar.

Juliana como havia prometido, depois dos turbilhões de sentimentos dela e de Pedro se acalmarem, o telefonou e o chamou para a conversar. Explicou que não havia problema com ele e sim que o amor dela havia acabado e usou todos os clichês possíveis para justificar a sua atitude de termino. Pedro sem forças de fazer outra coisa, simplesmente aceitou. Pediu um abraço e daquela conversa e da vida de Juliana, ele se despediu.

Hoje Pedro e Juliana seguem caminhos opostos, um com a esperança de um novo amor a sua frente. O outro com a dor do abandono achando que nunca mais sentirá aquela brisa pura do amor tocar a sua alma, achando que tudo que o futuro poderá lhe trazer será somente uma repetição sem graça. Mas independente desses achismos individuais, a vida segue.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Desconhecido


Com o passar dos anos e com o avanço da idade, cada vez mais eu me vejo sozinho em uma terra chamada “Desconhecimento”. Parece que com o passar desses anos todas as certeza absolutas que eu tinha quando era mais novo, lentamente se dissipam como as folhas das árvores no outono.

Hoje eu duvido de tudo e de todos, e me incluo nessas dúvidas. Converso comigo e poucas vezes encontro respostas para os meus sentimentos. Mas do que exatamente eu estou falando? Eu estou falando daquele sentimento que fica cutucando na nuca, aquele sentimento de perda ou de que você é pequeno demais para um mundo tão grande, e que a sua insignificância está andando de mãos dadas com sua impotência.

Observo hoje claramente quantas coisas eu desconheço e isso me gera uma angústia baseada na falta de tempo de que não anos sucifientes em minha vida para que eu conheça tudo que desejo. Porém as terras do Desconhecido são vastas, e em sua vastidão existe muita vaidade, existem muitos professores que não estão dispostos a repassar e repartir o valioso Conhecimento. Por isso, cada vez mais, vejo que a autodedicação e as buscas pessoais devem ser constantes. Pois se eu esperar que alguém me mostre os caminhos, eu quase sempre ficarei no escuro, perdido e abandonado no vazio.

E chegando a uma conclusão rápida, eu vejo que não estou nem um pouco satisfeito com meu eu atual, me acho medíocre e pobre intelectualmente e estou fazendo de tudo para que isso mude. Mas não se engane, a maior dúvida de quem caminha na vastidão do Desconhecido é descobrir aonde toda essa busca pelo saber irá levar. Será que algum dia eu chegarei em algum lugar levado por essa procura? Não sei! Sinceramente não sei se tudo será em vão! Mas como dizem por aí, o que importa é o caminho e não o final. Então por enquanto eu vou me contentando com essa afirmação e percorrendo e buscando o caminho da sabedoria.


quarta-feira, 9 de maio de 2018

Domingo de Feira


Chega a ter uma pitada de piada nos atos do tempo diante dos nossos sentimentos. O tempo molda a nossas vidas de uma forma quase imperceptível, porém ele consegue, mesmo com toda essa "vagareza toda" realizar grandes mudanças.

A primeira vez que Marília se deparou com as artimanhas do tempo foi quando ela se pegou, nós dias de hoje, sentindo saudade de ir fazer feira com a sua Vó. Lá pelos seus 14 anos de idade, aonde tudo é chato e obrigatório para um adolescente, a sua Vó à levantava às cinco da manhã aos domingos para ela acompanhá-la a feira livre que havia no bairro vizinho.

Marília que morava com a sua Vó devido à proximidade da escola em que estudava, levantava como um zumbi levanta de um túmulo e acompanhava forçadamente a Vó até a tal feira livre. Uma vez lá, enquanto sua Vó pechinchava os melhores preços e produtos, ela não perdia a oportunidade de se escorar em qualquer vaguinha entre as barracas e ali com sua cara amarrada observava, enquanto segurava as sacolas, como tudo aquilo era chato. Sua maior felicidade naquela rotina de feira eram duas, se é que se pode chamar aquilo de felicidade: A primeira era quando a sua Vó a mandava escolher o sabor da tapioca para comer no café da manhã em casa e a segunda era quando as sacolas já estavam pesadas o suficiente e sua vó a mandava ir esperar a conclusão das compras sentada perto dos veículos de conduções.

Dessa formar a feira findava, Marília já mais desperta observava a sua Vó riscar em meio as barracas com as últimas sacolas e acenando para a condução de Seu Didi sem encaminhavam para casa. Já em casa a primeira coisa que ela fazia era desembrulhar a tapioca e esperar a sua vó passar o café. E entre sacolas, o silêncio da casa ainda dormindo, e as conversas sobre nada, ela e a sua vó tomavam o café da manhã. No resto de sua manhã, Marília não possuía outra preocupação além de desenhos animados na teve e alguns cochilos até o almoço.

Hoje a saudade maior, fora os chamegos de sua Vó, é a falta de compromisso. A saudade de ter cabeça seca de tormentos, e das coisas sem importância que somente a inocência e o pouco tempo vida oferecem. Hoje até aquelas “obrigações” fazem faltas. Os anos passaram e Marília constatou o poder do tempo e as suas “presepadas”, hoje ela busca em meio às preocupações aqueles sentimentos de domingo de feiras, porém sem sucesso. Pois por mais que ela tente aquele tempo passou e infelizmente, infelizmente a gente cresce.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Meu Espaço Tempo


O ano é 1994, o dia é qualquer dia, possivelmente são três horas da tarde e eu estou com sete anos de idade. O que eu estou fazendo? Estou sentando na frente da TV Gradiente da minha Vó esperando ansiosamente que comece a passar um filme em uma atração chamada Sessão da Tarde, no canal Globo. O filme chamasse De Volta Para o Futuro e através dele eu fui apresentado ao conceito de viagem no tempo.

No filme, se é que alguém ainda não conheça, o protagonista viaja acidentalmente no tempo através de um Carro/Máquina do Tempo construída por um "cientista maluco". Ele acaba viajando para 1955 aonde encontra os seus pais que, adolescente, possuem a mesma idade que ele. Para a criança que assiste, eu, essa foi uma narrativa fascinante e que hoje eu posso dizer, fez com que eu me apaixonasse imediatamente pelo filme e quisesse saber como toda aquela confusão iria acabar.

De Volta para o Futuro (1985)


Como em 1994 a internet não havia se popularizado, pelo menos não na Paraíba e nem muito pouco eu acompanha revistas especializadas em cinema, qual foi a minha surpresa em saber anos depois que aquele filme incrível teve uma continuação. O pequeno detalhe é que eu descobri isso dois dias antes da continuação passar no programa de TV citado anteriormente. Dessa formar, estava eu lá! Alguns anos depois sentando novamente por volta das três horas da tarde em frente à TV aguardando ansiosamente da continuação daquele filme fantástico que eu assistira dois anos antes.

E quem diria, novamente houve uma explosão de ideias. A sequência agora levava os heróis para o longínquo futuro de 2015 e lá, novamente, ele se meteram em inúmeras confusões. E em De Volta Para o Futuro II  eu novamente fui apresentado as possibilidades infinitas do conceito de viagem no tempo. E lá, no futuro, eu conheci carros e skates voadores, roupas tecnológicas e hologramas. Novamente eu estava fascinado! Porém assim como é relativamente comum entre crianças, eu cresci. E hoje analisando a minha visão sobre os dois filmes eu enxergo coisas que não enxerguei quando criança e a partir disso algumas dúvidas atuais se conectaram.

Pude constatar hoje que no primeiro filme o protagonista tinha em sua vida uma visão romantizada do passado, contada a ele pela sua mãe, e quando finalmente ele chega ao passado percebe que nem tudo é como foi lhe dito. Percebe que as pessoas têm defeitos não revelados antes. E dessa forma, eu percebi que na vida real as história e lembranças são muitas vezes adulterada por mãos oportunistas que moldam a necessidade de criação de ídolos ou simplesmente porque o presente quase nunca é tão encantador quanto à idealização romântica que as pessoas fazem do passado.

(Protagonista com a Mãe no Passado)

Já na história narrada no segundo filme o protagonista vai para o futuro e lá como no passado também há uma idealização, porém utópica, no qual o filme induz o telespectador que de certa forma no futuro seremos melhores e modernos, em objetos, em conceitos ou em atitudes. Logicamente que no filme esses conceitos são extrapolados, assim quando eu cheguei ao fatídico futuro do ano 2015 na vida real, eu percebi que não era bem como nesse filme e em outras obras ou discursos propagados, me fizeram acreditar que o futuro seria. Percebi que utopias caem como folhas da árvore do tempo no solo do dia a dia e elas são levadas para longe pelos ventos presente. Então assim a confusão só aumentou em mim. Como encontrar em minha vida um meio de retirar o véu romantizando do passado e a visão utópica do futuro?

Para responder essas perguntas eu corri atrás das pessoas reais para tentar me ajudar a solucionar a pergunta acima. Belchior em entrevista uma vez disse: “Precisamos perder o medo dos ídolos”. Por sua vez em outra entrevista Ariano Suassuna disse: “Eu não acho que uma coisa é boa só por ser moderna”. Palavras que para mim resumem esses dois homens inteligentes os quais eu admiro e respeito muitíssimo.

O primeiro em minha opinião tem uma visão pragmática do presente em relação ao futuro. Na qual devemos viver o presente tentando moldar de forma real e pragmática o nosso futuro. Procurando buscar no passado nada mais que uma referência, porém sem deixar que elas influencie diretamente em seu pensamento. Visão essa que está em suas músicas e em suas palavras.

Já no segundo eu percebo em seus discursos, aulas e obras que claramente ele tem uma visão do presente no qual romantiza de forma veemente o passado, mas ao mesmo tempo não conduz as suas obras sem que haja críticas aos erros que lá foram cometidos e está sempre procurando se auto-reavaliar.

Com a ajuda indireta desses homens eu fui moldando a minha conclusão. Não preciso viver com olhos de saudade de um passado que nunca vivi, assim como não posso viver olhando e pensando em um futuro que provavelmente eu não irei viver. Preciso sim, absorver e sonhar com os pés no presente. Preciso deixar de lado o passado sem esquecer que sou e de onde vim, preciso sonhar com o futuro produzindo no presente os conceitos e atitudes para que esses sonhos sejam concretizados, para que o meu futuro seja melhor, mas moldado por mim.

Eu não quero ter que escolher uma visão sobre casa conceito, e nem preciso. Eu sou a favor da nuance, eu estou em processo, porém chegando a uma momentânea conclusão, eu não quero o esquecimento dos acontecimentos passados e nem a negação do futuro e das coisas novas. Eu quero poder viajar no tempo e no espaço como um protagonista de um filme, quero permanecer sempre em transformação. Eu quero viver nessa minha máquina do tempo imaginaria, conhecendo todas as coisas que há para conhecer! Estejam elas no passado ou no futuro.

(Viajar)

sexta-feira, 30 de março de 2018

MSN - (Quinta-feira, 22 de março de 2002)


Pedro: Oi – 22:32

Fagner: Oi Pedro. – 22:32

Pedro: Tudo bem contigo? – 22:32

Fagner: Tudo bem né... – 22:32

Pedro: Você pensou na nossa "conversa" de ontem? – 22:32

Fagner: Tanto pensei que acabei escrevendo algo, pois eu fiquei tão mexido que tinha despejar em algum canto. – 22:33

Pedro: Hum ok! Me mostra ai então... – 22:33

Fagner: Acho melhor não. Eu até tentei ouvir música e não ficar pensando, mas infelizmente não deu certo. Tive que ir pro computador escrever. – 22:33

Pedro: Porra, tu escreve uma parada sobre a gente e não quer mostrar? E ainda por cima me fala, se não quisesse que eu pedisse, nem falasse que escreveu. – 22:33

Fagner: Calma cara! Vou colar aqui então.

“Meus sentimentos não são descartáveis ao ponto de juntar as pontas e jogá-los ao vento. Por isso cheguei ao patamar mais indesejado, de lembrar-se de alguém e não poder mover-se para dizer-lhe de fato o que o coração insiste em querer falar” – 22:34

Pedro: Posso fazer uma pergunta? E eu quero que a resposta seja direta! – 22:36

Fagner: Vixe, dependendo da pergunta, eu penso se respondo ou não. – 22:36

Pedro: Esses versos que você escreveu são baseados em sentimentos relacionados ao nosso passado ou são relacionados ao presente?  – 22:39

Fagner: Pergunta difícil – 22:40

Pedro: Com um sim ou não elas são resolvidas! É simples....kkkkkkkkk – 22:41

Fagner: Não é simples ¬¬ tu sabes que não é. É complicado falar sobre isso nas atuais circunstâncias, mas o que eu posso dizer de certeza é que o que está escrito é baseado no encontro de ontem. – 22:41

Pedro: De ontem ou daquela última conversa que tivemos por telefone? – 22:44

Fagner: O que está escrito é fruto do encontro, do contato de ontem. – 22:45  

Pedro: Entendi! Então você respondeu! É relacionado ao presente. Agora basta saber se isso limita-se ao nosso encontro ou a um sentimento que vai além. Mas mudando um pouco de assunto, eu acho que você deveria realmente se dedicar a escrever. Você escreve bem, descreve bem, usa analogias para caracterizar o sentimento que está querendo passar. Eu achei lindo!

Fagner: Você acha mesmo isso tudo? – 22:45

Pedro: Desculpa a demora pra responder, minha mãe me chamou aqui. Ha! Eu acho que você tem um dom e realmente não deveria parar de esquecer, de verdade. – 23:00

Fagner: Ok! Vou tentar me dedicar mais. Olha aqui outro trecho.

“Chegaram às lembranças e elas estão proibidas de fazer a diferença. E se ainda persiste em fazer a diferença, é fadada a não ser vivida. Deve sim, ser guardada, não deve ser mais almejada, torna-se apenas mais uma, em meio à inquietude do ócio do dia.” – 23:01

Pedro: Veio, isso tá muito lindo. Não perde isso, continua escrevendo e publica em algum canto, independente da gente. – 23:02

Fagner: Obrigada, são esboços... – 23:02   

Pedro: E pensar na possibilidade que isso foi escrito em relação aos nossos sentimentos, eu fico mais emocionado ainda. – 23:03

Fagner: Acho que vou acabar publicando no Fotolog. – 23:03

Pedro: Publique, se eu fosse você faria isso, você tem um talento e deve continuar escrevendo. – 23:03

Fagner: Quer saber, melhor não! Acho que vai rolar muitas perguntas. E eu não estou a fim de me expor de forma alguma. – 23:03

Pedro: Publique! Isso já é um passo, e alguma hora você vai ter que fazer isso cara, alguma hora as pessoas vão saber. Vai ser difícil no começo, mas garanto que eu e a escrita vamos te ajudar. – 23:04

Fagner: Já? kkk nada pô...Foram só uns poucos momentos que afloraram. Eu não tenho certeza de nada ainda. Assumir pode me trazer muito tormento e eu não quero isso pra mim agora. Eu acho que não tenho coragem de me revelar assim tão fácil como você. – 23:04

Pedro: Mas é exatamente assim que a força e a coragem pra se assumir surge, diante a esses poucos momentos. Poucos mais verdadeiros. Diante ao nosso encontro de ontem, diante a nossa curta história. – 23:04   

Fagner: Ops! como eu disse, foi mais uma queda diante do ócio do dia a dia. Não vamos passar de novo por isso, sabemos que não dá certo, eu e você. Sabemos que mesmo a nossa carne falando alto, isso não basta pra gente tá junto. – 23:05   

Pedro: Eu sei? – 23:05

Fagner: Não sabe Pedro? – 23:05

Pedro: Eu não tenho certeza de nada? – 23:05

Fagner: A gente não combinou isso? – 23:05  

Pedro: kkkkkk Confuso! Cara a gente combinou, porém eu não mando no meu coração e a minha cabeça não sabe direito o que sente. – 23:05

Fagner: Oi? Não sabe o que sente? Como assim? – 23:06   

Pedro: Sim! – 23:06

Fagner: Como assim? – 23:06

Pedro: Cara eu sou muito sincero ao falar, tu sabe. Então é melhor deixar quieto mesmo! Se você acha que é somente coisa de carne, de desejo, então deixa quieto. – 23:06

Fagner: Fale! – 23:07

Pedro: Posso falar então? – 23:07

Fagner: Claro que pode! – 23:07

Pedro: Cara, eu fui apaixonado por você! Nosso lance foi muito foda e como a paixão é um sentimento forte, ela não some. Ela é uma casa, que no máximo corroída aos poucos pelo tempo. Sempre que te encontro um tijolinho volta para essa construção deteriorada. Sempre que falo contigo uma parede é reconstruída. Sempre que vejo você escrever coisas como essas que você escreveu ai em cima, um cômodo inteiro dessa casa deteriorada chamada paixão é refeito. Então por mais que o tempo passe e acabe lentamente com essa casa, sempre que temos contato, ela se ergue um pouco novamente. E ainda mais porque nós não brigamos e nem ficamos com raiva um do outro. E pra ajudar tudo isso, essa casa não foi totalmente construída, ela ficou incompleta, e pelo menos pra mim, restou um sentimento insatisfação. De querer completar essa casa. – 23:08

Fagner: Hum!

Pedro: Você acha realmente que quando eu converso com você qualquer besteira que seja, como naquele dia em que ficamos conversando na frente da faculdade enquanto você esperava o carro do seu pai, eu simplesmente viro as costas, te esqueço e vou para a parada de ônibus como se não houve nada? Não, eu vou andando para o ponto de ônibus pensando em você, eu entro no ônibus pensando, eu vou no caminho pra casa pensando, eu fico em casa pensando, eu acordo e relembro... Relembro como tudo podia ter sido diferente e que mesmo com todos os defeitos eu te acho uma pessoa maravilhosa. Enfim, ilusões de quem como eu disse, teve uma paixão incompleta. – 23:10

Fagner: Nossa, eu estou sem palavras. E você ainda fala que eu sou bom com as palavras. – 23:10

Pedro: é... – 23:11

Fagner: Sério, eu sempre imaginei que houvesse uma inquietação aí dentro de você, até porque é diferente o jeito que vc fala comigo, sei lá... Não sei explicar, mas eu acho diferente. Aí vc me fala esse tantão de coisas...puts. Estou sem palavras. É o melhor que eu pare de falar contigo então? – 23:11

Pedro: Não velho, claro que não. Você não entendeu. Os meus sentimentos não são nada além de coisas internas minhas, eles não vão além do meu “Eu social”. Eu sei e devo dividir essas duas pessoas. Apesar das dúvidas e das coisas que sinto, você é uma pessoa do meu "convívio" e eu não quero perder o contato. O grande e imenso problema desses sentimentos, e é o ponto focal das minhas dúvidas, é se você sente, ou sentiu, ou os compartilha de alguma forma comigo. Você é especial e sempre será para mim, porém isso é só meu e nem você mesmo tem nada a ver com isso. Quero que você seja a minha ilusão já que você não quer assumir a gente. Eu sei que parece loucura, mas eu não ligo. Espero que eu não tenha deixado você aperreado depois de toda dessa confusão. Mas é mais ou menos o que eu sinto. – 23:12   

Fagner: Me deixou um pouco né?! Mas assim, permanecemos como estamos. Cada um lidando com seus conflitos internos. Só que sorrindo para o mundo. Seguindo o baile. Em suma, é isso? – 23:12   

Pedro: Você já resumiu: “Foi mais uma queda diante do ócio do dia. Não vamos passar de novo por isso, sabemos que não deu certo, eu e você.” – 23:13   

Fagner: Uhum, melhor assim. Se conseguimos lidar com isso até agora há condições de continuar da mesma maneira. Mas num processo de desconstrução dessa casa que você falou. E que os contatos diários não sejam pontes para pensamentos, não sejam inspirações, que sejam somente contatos. Que seja só uma boa amizade. – 23:13

Pedro: É isso que você quer? A frieza de uma suposta amizade? – 23:14

Fagner: É isso que é necessário fazer. Frieza não... Só tentando separar ações e emoções. Categoricamente falando eu sou um covarde, não tenho coragem de enfrentar esse relacionamento, e não estou falando de nossas diferenças, e sim de tudo. – 23:15   

Pedro: kkkkkkkkkk Não é tão fácil assim! – 23:15

Fagner: Kkkkkk eu seeei, não é fácil pra ninguém. Se fosse por mim também eu não daria espaço pra esse assunto. Eu disse que se faz necessário tratar assim, porque, sinceramente, não se consegue segurar o que o coração pede. – 23:16   

Pedro: Exatamente, meu coração muitas vezes pede você, porém a minha cabeça, não sei se agindo certo ou errado, me coloca no lugar. Com você é assim?  – 23:16

Fagner: Minha nossa é mais crítico do que imaginava. Eu tento usar a razão – 23:16   

Pedro: kkkkkkkkkkkkkkk – 23:16

Fagner: Tu tá mais lascado do que eu. – 23:17

Pedro: Eu tento usar a razão também, pelo menos as vezes. – 23:18

Fagner: Seu trabalho será tentar desconstruir isso. E se achar que evitando o contato ajude, pode falar, não hesitarei em ajudar. O que não pode de maneira alguma é você manter isso sozinho. – 23:18

Pedro: Para você parece tão fácil. Tão simples pelo modo que você fala. Cara, eu te falei essas coisas que sinto, porém eu me controlo também, mas não quer disser que sofro. Simplesmente é confusão! Você não fala, só deixa subentendido. Você não se permite falar sobre, mas eu sei que também sente. – 23:18

Fagner: O que eu penso me faz sentir, e o que me faz sentir, me faz querer viver. Por isso eu prefiro não pensar. Porque é uma cadeia que eu não tenho controle. – 23:19   

Pedro: Entendo, enfim, não se preocupe, continuemos! Eu sei ficar na minha, o contato com você não me machuca tanto assim, o não-contato sim! – 23:19

Fagner: kkkk beleza, vc quem sabe! Mas o contato atrai o que não rola mais, e isso machuca pra caralho. Então, você que mede o risco. – 23:22

Pedro: Bom, eu já medi. – 23:23

Fagner: Ótimo.  – 23:23

Pedro: Eu assumo que sinto muita coisa Fagner. E por eu falar você acha que eu estou mal ou coisa parecida. Mas você está em uma situação muito pior que a minha. Eu posso pensar na gente quando acabar essa conversa. Eu posso cantar, posso falar alto, posso conversar com meus pais, eu posso tudo... Você não. – 23:24   

Fagner: Entendo, realmente eu não posso tudo. Porém posso um pouco, pelo menos posso continuar a escrever. E isso já me ajuda imensamente. – 23:24   

Pedro: Mas você não tem nem coragem de publicar, e outra coisa vai passar a vida em palavras? Será que elas vão conseguir esconder esse segredo pra sempre? – 23:24

Fagner: Boa pergunta! Não sei, não tenho certeza de nada. – 23:27   

Pedro: Pois é, você não tem, e talvez isso acabe com você um dia! A incerteza sobre de tudo. – 23:27

Fagner: Já deu dessa conversa, você tá muito dramático hoje, kkkkk Vou nessa, a gente se fala na facu amanhã! Xero. – 23:28

Pedro: Hum. Boa noite Fagner, até amanhã.


segunda-feira, 19 de março de 2018

Útero Social


A Bolha! Já vi e ouvi algumas pessoas falando sobre ela pelas minhas navegações pela internet e acabei constatando que não se trata do filme “A Bolha Assassina de 1988”, porém assim como a do filme essa Bolha a que me refiro, também está sugando os Humanos para dentro dela.

A bolha a qual me refiro em todo o texto abaixo é sobre um tipo novo de bolha. Esse é um assunto veio à tona nesses últimos tempos e eu tenho refletido bastante sobre ele, mas não somente sobre essa bolha que existe aqui na internet, mas também na bolha em que vivemos no “mundo real”, no mundo desconectado.

Essa “polêmica” começou quando as pessoas “descobriram” que em várias redes sociais é usado um algoritmo no qual ele irá trabalhar incessantemente para mostrar informações em sua timeline a partir das coisas que você curte, compartilha ou comenta, exemplo: Se você curte, compartilha ou comenta sobre gatos, o algoritmo vai mostrar gradualmente somente páginas relacionadas a gatos em sua timeline! Criando assim a famigerada bolha, na qual você majoritariamente receberá somente notícias/indicações/páginas sobre lindos gatinhos.

"Mas qual é o problema nisso, eu adoro gatinhos fofinhos?" você pode se perguntar. Não há problema nenhum, você pode continuar gostando de gatinhos tranquilamente (eu também gosto)! O problema é que o mundo não se resume somente a gatos. Há outras informações necessárias para que o indivíduo social vá além dessa bolha. Desde informações sociais e políticas do meio em que vivemos a informações voltadas ao conhecimento geral. No mundo não há somente pessoas que buscam a informação, no mundo há também pessoas que precisam que a informação, seja de certa forma, oferecida a elas.

Eventualmente em uma gravidez chega o momento do parto, no qual as pessoas precisam sair dos úteros de suas mães, para aprender tudo que há nessa vida para ser aprendido. Dessa mesma forma não podemos deixar que essas bolhas invisíveis que nos cercam nos empurrarem novamente para um útero alheio do mundo exterior. Pessoas que por vários motivos distintos, não possuem esse interesse de buscar por conta própria a informação, como bebês precisam das mães, essas pessoas precisam de algum tipo de guia.

Que fique claro aqui que eu estou citando somente o publico médio com acesso a informação, pois não há como uma pessoa que tenha outras preocupações essenciais como saúde, segurança ou alimentação, ficar querendo se manter informada sobre o que acontece entre a Coreia do Norte e o EUA, sobre a Lava-Jato ou o aquecimento global, se na própria vida dela há preocupações essencialmente maiores do que as citadas.


(Ilustração representando Giordano Bruno buscando sair da sua própria bolha)

Então retomando ao conceito do algoritmo, é aí que o prejuízo é causado. Você dificilmente receberá outra informação em sua tela além das que você já procura. Você não irá sair da "sua bolha", você não será confrontado, ou não irá exercer a sua “democracia de pensamento”, pois tudo há em sua “timeline” serão gatinhos fofinhos; ou informações do seu time favorito; ou do seu partido politico; ou da religião que você segue; ou qualquer outra orientação social que você participa ou tenha interesse.

Mas olhando para a sociedade com os olhos das empresas detentoras de tais redes sociais devem olhar, elas estão mais do quê certas, pois elas querem que você se sinta bem, se sinta à vontade, e que você permaneça em suas redes sociais o máximo de tempo possível (não há sarcasmos nesse trecho).

Porém, seguindo no dilema e observando tudo com outros olhos, eu fui além com os meus pensamentos. Eu busquei, como citado acima, as bolhas causadas não somente pela internet, mas por nós mesmos, no mundo desconectado. E me perguntei: Será que esse algoritmo não é somente um reflexo da sociedade? Será que eu já não vivo preso em bolhas invisíveis que limitam a minha visão do mundo e que não me deixam observar, refletir e argumentar sobre nada além de gatinhos? Será que essas bolhas da vida desconectada não são simplesmente reflexos dos meus preconceitos?

E continuei! O que eu preciso fazer para sair da minha bolha? O que eu faço para mudar a minha visão limitada de mundo? O que eu preciso fazer para mudar a minha sociedade? O que eu faço para enxergar o meu irmão? O que eu faço para ir além do meu círculo de convivência? Será que eu enxergo o outro além do meu conhecimento, dos meus preconceitos, dos meus dogmas? Será que eu enxergo o que me é estranho e desconhecido com os olhos da sabedoria? Será que eu enxergo as dores do mundo? Será que a vida é mais do que o meu apartamento? Será que há perguntas suficientes nesses parágrafos para mover-me? Há!

E é isso que eu resolvi fazer, sair da minha bolha! Na verdade, internamente essa não é uma questão nova para mim, pois como os que me acompanham aqui no Blog ou no Instagram já sabem pelas minhas palavras, que eu não sou das pessoas mais conformadas. Porém, essa minha indignação agora deixou de ser meramente em palavras e passou a ser em atitudes, elas precisam ser atitudes. Assim como quando resolvi escrever e tentar me ajudar, sim é para isso que eu escrevo, para me ajudar, pois nenhuma mudança começa externamente amigo! Agora eu vou agir e tentar estourar essa bolha que existe fisicamente e sair desse útero ultrapassado em que vivo e como consequência, assim como acontece com a minha escrita, tentar ajudar e conhecer.

Nesse texto eu deixei muitas perguntas em aberto, literalmente sem respostas, mas gente eu tenho 30 anos, sou um homem branco de classe média e apesar de ter tido uma vida intensa, eu posso dizer que não passei por grandes dificuldades na minha vida. Tenho pouquíssima autoridade de fala, mas tenho uma altíssima autoridade para questionar e assim como você que está lendo esse texto, para se questionar! Eu me questionei, eu questionarei, se questione e quem sabe assim encontraremos as respostas para todas essas perguntas.

O ponto em que eu quero chegar é que não deixem essas bolhas conectadas ou conectadadas limitarem o pensamento de vocês! Eu sei que o útero é um lugar quentinho e agradável, mas há um mundo, vivemos nele e nele existem incontáveis conhecimentos que precisam ser explorados. Basta que furemos nossas bolhas e tentemos enxergar além do algoritmo, tentemos ir além e aprender e reaprender sempre. 

quinta-feira, 15 de março de 2018

Conto - Intervalo Entre Canções - Parte 2



O ano é 1997, Sábado, 29 de Agosto. Magno é acordado com a música que toca no Radio/Relógio. No pequeno visor de números vermelhos, marca oito horas da manhã. Sem reconhecer o ambiente, com um gosto da ressaca em sua boca e se sentindo meio zonzo, ele senta-se na cama.

Olhando em volta, ele busca algo familiar e acaba percebendo que está em um hotel. Olhando para si, ele percebe que está vestido somente com uma cueca. Voltando a observa o quarto, ele procura vestígios de alguém que ainda esteja ali. Pigarreando ele solta “Alô?” e ouve o silêncio como resposta.

Assim, ele levanta-se seguindo na direção do que parecia ser o banheiro, e ao fazer isso sente uma pontada em sua cabeça que quase o derruba. É ela, a maldita ressaca. Após a dor amenizar um pouco, ele tenta alguns passos novamente. Chegando ao banheiro, ele retira a cueca e toma um banho demorado.

Apesar de lhe causar um pouco de preocupação, acordar em um quarto sozinho após uma noite de bebedeira, não chega a ser uma novidade para ele. Magno é um homem, que apesar de magro, possui uma altura e um porte considerável. Possui um rosto quadrado, desenhado por uma barba rala. Tudo isso, somado ao fato de se vestir bem e ser um artista aos olhos dos outros, lhe concederam incontáveis noites com incontáveis mulheres, e por vezes alguns homens.

Se livrando parcialmente da bendita ressaca, ele tentar puxar na memória como veio parar ali. É inútil, ele não consegue se lembrar de nada após a sua chegada ao bar na noite anterior. 

Magno veste a sua roupa, recolhe a sua guitarra, o seu violão e a sua mochila que pendiam escorados em uma parede e sai do quarto seguindo pelo corredor para a recepção do hotel. Chegando lá ele se dirige a recepcionista do hotel dizendo.

– Bom dia, eu estava no quarto 401 e eu gostaria de pagar a minha estadia.

– Bom dia senhor, um minuto! – Responde a mulher e após alguns segundos ela continua – Senhor aqui consta que a sua pernoite já foi está paga!

– Por quem? – Pergunta Magno.

– Eu não tenho essa informação anotada aqui senhor. Como quem estava aqui ontem a noite era outro funcionário eu não lhe posso dizer. Só consta mesmo a informação do pagamento. – Responde a mulher.

– Sem problema então. Muito obrigado e tenha um bom dia. – Se despede Magno pensativo.

– Para o senhor também. – acrescenta a mulher.



Magno se dirige até a saída e chegando a porta dupla de vidro, ele sente a sua ressaca ser incomodada pela luz forte e brilhante do sol. Tentando amenizar a claridade, ele apanha os óculos escuros em sua mochila. Sentindo a sua mão encostar em seu walkman, ele o apanha, e ligando-o na rádio segue caminhando pela rua.

Alguns passos depois e observando a sua volta, ele se dá conta que ainda está no centro da cidade. Também se da conta que está faminto, e ao mesmo tempo em que caminha em direção ao ponto de ônibus, ele também procura algum lugar em que possa tomar café. Por sorte ele nota que há uma padaria ali perto e segue a sua procura.

Chegando a padaria ele se senta em uma das mesas que se espalha pela calçada da padaria. Logo em seguida uma garçonete se apresenta, e sem nem sequer olhar o cardápio, Magno pede à garçonete que lhe traga uma garrafa de água, um café puro e um misto quente.

Enquanto espera, Magno procura mais uma vez em sua memória a noite anterior. É inútil, não há nada lá novamente além da lembrança dele entrando no bar e o gosto ruim de ressaca em sua boca. Pois minutos de pensamentos depois, a garçonete chega com o seu pedido. Ele bebe a água de um gole só, tentando assim aliviar a terrível sensação de desidratação que lhe rasga. Em seguida e lentamente, ele bebe o café e ainda muito pensativo, ele come alguns pedaços do seu misto quente.

Algo perturba a sua alma, algo entre a ressaca e o desconhecido. E perdido entre esses pensamentos ele acaba o seu café da manhã e chamando mais uma vez a garçonete, a pergunta quanto foi à conta. Ela responde, e ao pegar a carteira em seu bolso Magno deixa cair um pequeno pedaço de papel no chão próximo a cadeira. Percebendo que Magno não nota o papel no chão, a garçonete lhe aponta.

– Moço caiu um papel do seu bolso!

Olhando de lado e constatando o papel no chão, Magno o apanha e lê o que está escrito no nele – “Me liga” – seguido de um número de telefone. Pensativo e buscando mais uma vez a noite anterior em sua memória ele coloca o papel sobre a mesa enquanto paga a garçonete.

Apanhando o papel, ele se dirige ao telefone publico que há em frente à padaria com a esperança que aquele número possa dizer algo da sua noite de esquecimento. Curioso ele disca rapidamente o número escrito no papel e após duas chamadas, alguém atende do outro lado linha.

– Produtora Desire, Jeniffer, Bom dia! Em que posso ajudar? – Informa a atendente.

– Bom dia é... Moça... Meu nome é Magno, é que eu encontrei esse número de telefone na minha calça, mas acho que foi engano, enfim. Desculpe! – Responde Magno cheio de dúvidas.

– Sem problemas senhor. Qual é mesmo o seu nome? – questiona a mulher.
– É Magno! – Ele responde.

– Ah! O senhor pode aguardar um segundo? – Questiona a mulher no outro lado da linha.

– Posso sim! – Responde Magno.

– Perfeito! Aguardávamos o seu telefonema senhor. Posso lhe transferir para o nosso gerente? – Após alguns segundos ela continuando o questiona.

– Hã... Acho que sim! – Com ainda mais dúvidas do quê antes Magno responde.

– Um minuto. – Responde a atente transferindo a ligação para outro ramal.

Passam-se alguns segundos até que um homem fala do outro lado da linha.

– Bom dia Magno, tudo bem cara?

– Bom dia, tudo tranquilo e com você? – Responde Magno.

– Tudo na paz. Cara o meu nome é Aurélio e eu recebi uma ligação ontem de um amigo que estava em um bar no centro da cidade me dizendo que você é o novo sucesso do país. Ele me disse também que assistiu a tua apresentação e que não conseguia acreditar no que estava assistindo e escutando. Então como esse é o meu trabalho e como eu confio muito na opinião desse amigo, eu fiquei muito curioso para saber quem era você e como era o teu som. Só que esse amigo não pegou o seu contato e ao contrário disso, disse que lhe entregou o meu! – Diz a voz do outro lado da linha.

– Sei... Cara, eu não lembro muito ou pra falar a verdade nada desse seu amigo. Esse número estava no bolso da minha calça quando acordei hoje pela manhã, e eu também não lembro muita coisa da noite passada. Estou numa baita ressaca e não faço ideia que me apresentei dessa forma que seu amigo te relatou ai! – Responde Magno sem entender absolutamente nada.

– Entendo, mas deixa eu te dizer uma coisa. Eu confio bastante na palavra desse meu amigo. Dessa forma, eu quero saber se você tem interesse da gente se encontrar e assim você me mostrar o que você pode fazer? – Pergunta Aurélio.

– Se você for quem diz ser que é eu tenho interesse sim! Aonde e quando eu te encontro? – Responde Magno percebendo que os créditos do seu cartão telefônico já estavam chegando ao fim.

– Pode ser aqui na produtora mesmo. Dá certo ser hoje? – Pergunta Aurélio.

– Perfeito, me passa só o endereço que eu chego ai. – Diz Magno querendo encurtar o papo.

Em seguida Aurélio retorna a ligação para a atendente e ela passa o endereço para Magno. Ele o anota e retorna até a mesa da padaria. Recolhe as suas coisas e parte imediatamente para a ponto do ônibus.

No decorrer do caminho, já dentro do ônibus, ele puxa na memória quantas vezes pensou em juntar dinheiro para contratar um produtor e assim quem sabe, gravar algo. Porém nunca levou esse pensamento a frente. A segurança em sua voz não era tanta e ainda sem nada inédito para apresentar, sem nada autoral, ele não enxergava muitas chances de fazer qualquer tipo de sucesso.

Os pouco mais de trinta minutos de itinerário até a produtora foram de pensamentos conflitantes. E assim, confuso, ele chega à frente da produtora. Magno percebe que ela não é uma espelunca, mas esta longe de ser uma das grandes. Ele segue para a entrada e na recepção encontra a mulher com quem falou ao telefone. Ela por sua vez pede para Magno aguardar. Comunicando a Aurélio da presença de Magno, não demora muito até que ela seguindo as ordens de Aurélio o mande entrar pela porta logo a direita da mesa dela.


Ao entrar na sala, Magno se depara com Aurélio sentado em sua poltrona atrás de uma grande mesa. Aurélio por sua vez convida Magno para sentar-se e o oferece alguma coisa para beber. Magno aceita água e enquanto bebe e tenta aliviar a sua ressaca mais uma vez, ele observa ao redor e se admira com a quantidade de porta-retratos que há nas paredes do escritório. Aurélio está em todas as fotos. Ás vezes sozinho, outras vezes acompanhado de pessoas famosas. Assim que Magno acaba de beber a sua água, Aurélio o questiona.

– E ai Magno, você é bom mesmo?!

– Cara... Assim... Pra ser sincero até agora eu não sei por que estou aqui. Eu sou um cantor normal, e eu me apresento na maioria das vezes em bares e em pequenas festas. Sempre acompanhado da minha guitarra e do meu violão tocando, eu toco covers dos meus artistas favoritos. E até onde eu sei isso não é lá grande coisa. – Responde Magno em um tom de melancólico.

– Sei... Mas não foi o que eu ouvi. Ouvi dizer que você deu um tremendo show ontem no bar. Me disseram que eu tenho que segurar você antes que “os grandes” segurem. Você topa fazer um teste agora? Eu tenho um pequeno estúdio aqui na produtora. – Pergunta Aurélio.

– Se isso é o que você quer, eu topo sim cara. – Reponde Magno altamente desconfiado.



Ao ouvir a sua resposta, Aurélio pega o telefone e fala com a recepcionista solicitando-a que chamasse o técnico de som para ajudá-lo no Studio. Desligando o telefone ele se levanta de sua poltrona, e segue na direção de uma porta que esta a sua direita. Parando na porta ele convida Magno para acompanha-lo.

Eles entram na sala e lá Magno percebe que a sala é dividida em duas. Uma com uma mesa de som e outra para os músicos tocarem e cantarem as suas músicas. Magno então percorre esta primeira sala e adentra a segunda. Retira as capas de seus instrumentos, e os observa. A sua velha guitarra e o seu velho violão, que mesmo com tanto quilômetros rodados nunca entraram em um estúdio.

Mais sentindo do que refletindo, ele escolhe em meio ao nervosismo o seu violão. Ele é o instrumento que Magno possui mais intimidade, e o que ele aprendeu os primeiros acordes. Isso de certa forma o deixa um pouco mais calmo. Assim ele o conecta ao plug do cabo que leva o som até a outra sala, regula o microfone a sua frente e senta-se no banco que há no meio da sala.
Ele aguarda alguns segundos espera e após um breve momento, Magno observa o técnico de som entrar na primeira sala. Ele senta-se em sua cadeira, liga a mesa de som e realiza alguns ajustes. E falando ao microfone cumprimenta Magno.

– Oi cara, beleza? Meu nome é Matheus, você tá me escutando bem?

– Estou sim. Alto e claro! – Responde Magno.

– Beleza então! Então faz o seguinte, toca qualquer coisa aí só pra eu fazer um teste rápido aqui.

Escutando o pedido, Magno toca algumas notas em seu violão. Em seguida ele volta a encarar Matheus, que instantaneamente faz um sinal de positivo para ele.

– Agora testa o microfone – E novamente escutando o pedido Magno obedece. O teste funciona e novamente Matheus sinaliza positivamente para Magno.

– Então posso começar? – Pergunta Magno a Matheus através do microfone.

– Manda bala! – Responde Matheus.

E com um aceno de cabeça de Aurélio ele começa, e a partir desse momento Magno sente como se ele flutuasse no pelo o universo, solitário entre o infinito e as estrelas.

Sem se dar conta de quantas músicas ele tocou ou quanto tempo se passou, ele simplesmente sente cada nota retirada do violão flutuar ao seu redor. E satisfeito por saboreando cada palavra que sai da sua boca, ao fim da terceira música ele para.

Abrindo os olhos ele procura Aurélio e Matheus através do vidro que divide as salas. É quando Magno percebe que Aurélio não está mais na outra sala, e sim ao seu lado a o encarar sem acreditar no que acabava de ouvir. Magno coloca a violão de lado e com as suas pernas dormentes, como se o seu mundo estive completamente do avesso, ele levanta para pegar um copo de água em cima de uma mesa na pequena sala. Praticamente ignorando a presença de Aurélio ali ele esvazia a jarra de água. Ela corta a sua garganta, limpando um pouco mais a ressaca e a umedecendo após as canções.

Acompanhando Magno com o olhar, meio pálido e sem conseguir processar direito as palavras e o pensamento Aurélio pergunta.

– Cara o que foi isso?

– PUTA QUE PARIU CARA, ISSO FOI MUITO FODA! – Antes da resposta de Magno, Matheus entra na sala e gritando.

Se recompondo e observando a reação de Matheus, Magno se volta lentamente para Aurélio e com um misto de espanto, de ressaca e uma sensação de que acabou de sair do melhor sonho que teve em sua vida, ele responde.

– Eu juro que eu não sei!

– Você tocou e cantou perfeitamente cara. Afinadíssimo, você não errou uma nota. Sua voz tem personalidade e um timbre próprio, tem um toque que poucos possuem. Você tem muito talento. Você tem o talento para conquistar o mundo cara, não somente o país! – Afirma Aurélio se aproximando de Magno com um sorriso.


Sem saber o que dizer e ainda completamente em choque pelo que descobriu que podia realizar, Magno simplesmente concorda com a cabeça. Ele não consegue juntar um pensamento lógico. É como se um turbilhão de sentimentos e emoções estivesse fervendo dentro dele. Quando ele se dá conta e com os dedos ainda dormentes, ele apanha novamente o seu violão. Senta-se no banco e começa a tocar uma melodia que nunca havia escutado na vida.

Aurélio com um sinal de cabeça ordena a Matheus que vá para a outra sala. E quando ele chega lá, fazendo um sinal de indicador o manda começar a gravar. Olhando na direção de Aurélio, Magno pergunta se ele também esta ouvindo o que ele esta tocando. Aurélio afirma que sim e então ele começa a cantarolar.

Ah... Ah... Lá... Lá... Oh... Oh... Oh...
Calma... Calma minha pequena flor
Eu estou aqui te dizendo à verdade
Você não precisa se preocupar com a dor
Por que ela é somente um intervalo entre felicidades

Calma minha pequena flor
Eu vou estar sempre aqui para te amparar
Você não precisa se preocupar com nada
A não ser com o futuro que você tem para caminhar

Calma minha pequena flor
O mundo não é um lugar tão ruim assim
Ele é um grande livro
Repleto de conhecimentos sem fins

Calma minha pequena flor
Não tenha medo de desabrochar
Os ventos que levam as suas pétalas
Também são os ventos que podem te ninar

Você tem toda uma estação pela frente
Você irá brilhar em formas e cores
E lembre-se em meio às tempestades
Eu estarei aqui para te dizer
Calma minha pequena flor

– CARA VOCÊ COMPÔS ISSO AGORA? – Grita Aurélio dentro da pequena sala.

Com os olhos marejados, e sem conseguir pronunciar mais nada, ele simplesmente responde positivamente com a cabeça. Magno que nunca conseguiu realizar nada além do que já estava realizado; nunca conseguiu sentir a satisfação de uma criação; nunca conseguiu se emocionar e se sentir extremamente orgulhoso das coisas que fazia. Em um passo de mágica ele consegue sentir absolutamente tudo de uma única vez.
E como uma avalanche de neve que lava toda a encosta de uma montanha, as lágrimas lavam o seu rosto. Em meio ao choro ele sorri para Aurélio numa mistura de felicidade absoluta e extrema surpresa.

– MATHEUS, VOCÊ GRAVOU ISSO? – Grita Magno para Matheus.

– Claro né porra! Você acha que eu comecei nesse ramo ontem? – Diz Aurélio sorrindo.

– Será que você consegue repetir isso Magno, para a gente melhorar algumas pequenas coisas? – Diz Matheus do outro lado do vidro às gargalhas.

– S... S... Sim... Acho que consigo! – Em um tom quase infantil, Magno Responde.

– Então espera um segundo, Aurélio me dá uma mão aqui cara! – Ao dizer isso Aurélio sai em disparada para a sala do equipamento som.

– Você tá bem cara? – Pergunta Aurélio.

– Estou ótimo! – Responde Magno sorrindo e limpando o rosto.

– Show, eu vou lá então para a gente continuar! – Diz Aurélio.


E nesses segundos em que ficou sentado naquele banco, Magno se perde entre o tempo e o espaço. Com o seu Violão na mão ele viaja entre o futuro, o presente e o passado. Ele vive incontáveis momentos; ele é sufocado por fãs de todo país; ele se banha em flashs e em banheiras; ele transcende a barreira do dinheiro e do corpo; participa de inúmeros shows e concertos, possui todas as mulheres, homens, drogas e sucessos que deseja. Eleva-se ao ponto mais alto que um astro musical pode alcançar, é agraciado com prêmios e seus discos permanecem durante anos a fios entre os mais vendidos.

Nesses mesmos anos em que navega nos rios da Fama, Magno se torna um polêmico, incontrolável, desordeiro e realizando que um astro – tem ou não – direito de ser. Porém as correntezas da Fama são tão rápidas que tudo que ele conseguiu fixar em sua mente são as músicas que compôs. Todo o resto, tudo que foi vivido, agora não passa de um borrão. Um borrão de momentos e pessoas, um borrão de drogas e desperdícios. Ao mesmo tempo em que esses borrões crescem em seu ser, Magno se enxerga em meio a esse pulo temporal.

Agora ele está com pouco mais de quarenta anos de idade. Ele observa. Ele observa a sua carreira; ele observa mais uma dessas noites de festas, bebedeiras e drogas; ele observa mais precisamente o dia 21 de outubro de 2015.



E assim – observando – ele acorda em um lapso temporário entre as drogas, no meio de uma imensa cama de Hotel. Sentando aos sustos ele procura sentido em meio a esse lapso, e encontra. Girando a cabeça na direção de um grande sofá que há no quarto, ele encontra o seu empresário e agora grande amigo Aurélio com mais três mulheres em sua companhia. Sem muito questionamento Magno rapidamente entende toda a situação.

Então com alguma dificuldade ele tenta sair da cama e ir até o frigobar do quarto. Ao chegar e se abaixar, ele sente uma tontura quase óbvia. Abre o frigobar mesmo assim e pega uma água. Nesse momento que Aurélio o questiona.

– Cara você tá bem? Tá bebendo água!?

– Vai se foder – Responde Magno com um pequeno sorriso.

– Elas vão me foder mesmo, não é meninas? – Responde Aurélio beijando uma das mulheres que está ao seu lado.

Observando aquilo e sem um pingo de paciência pra nada além de dormir, Magno se dirige-se novamente para a cama com a sua água na mão. Porém na metade do pequeno caminho ele sente uma vontade quase que incontrolável de ir ao banheiro. Lentamente ele segue na direção do banheiro e ao voltar, dando o primeiro passo de volta para dentro do quarto Magno escuta a campainha do quarto tocar. Olhando para Aurélio, ele pergunta.

– Cara, você mandou vir mais?

– Mais o quê cara? – Responde Aurélio, Largando um copo de whisky no colo de uma das mulheres e acendendo um cigarro.

– Mais mulher porra! – Diz Magno indo lentamente na direção à porta.

Ao abrir a porta ele se depara com uma mulher de cabelos longos e loiros. Voltando-se novamente para dentro do quarto e olhando na direção de Aurélio, o questiona mais uma vez.

– Você é um filho da puta. Tinham que mandar vir um traveco pra cá porra?!
– Eu não mandei nada seu imbecil. Se ele veio é porque quis – Responde Aurélio indo para o banheiro com duas das três mulheres.

– O que você quer? E como você subiu até aqui? Esse andar todo está reservado! Eu reservei e não era para você está aqui! Aurélio esse hotel é um lixo. Nunca mais a gente vem aqui porra! – Esbraveja Magno fala de frente a mulher.

– O que eu quero? Eu não quero nada! Até porque eu não preciso pedir nada. Eu estou aqui somente para observar e com isso eu me satisfaço. E pode ter certeza baby, eu já observei bem tudo o que preciso nesses poucos segundos. – Diz a mulher calmamente e com a certeza do mundo em suas palavras.

Escutando a voz suave da mulher, Magno sente-se como há anos não se sentia. O destino dessa vez não estava há passar a mão em sua nuca, dessa vez ele iria lhe dar um abraço, lhe suspender no ar e colocar ele em um caminho totalmente desconhecido. E nesse novo caminho ele sentiu que permaneceria por muito tempo.

Ali parado na porta do quarto, com esse sentimento em sua alma ele observa a mulher andar através do corredor indo na direção do elevador. Sentindo uma necessidade incontrolável de detê-la, ele parte em sua e agarrando-a pelo braço, ele começa a falar.

– Eu te conheço. Eu lembro de você. Eu te conheci naquele bar no centro da cidade há muito tempo. Você disse que me daria tudo! Agora eu me lembro. Finalmente eu lembrei de tudo daquela noite. Foi você, foi você quem me deixou famoso! – Afirma Magno, com uma mistura de tristeza e desespero.

– Sim, foi eu! – Responde secamente a mulher.



– E o que você quer comigo dessa vez? – Pergunta Magno, apertando um pouco mais o braço da mulher.

– Primeiro que você largue o meu braço imediatamente! – Responde a mulher. E seguindo essa resposta Magno sente um calafrio brotar do braço dela e seguir irradiando pelo seu. Dessa forma quase que imediatamente ele à solta para nunca mais tocá-la.

– Em segundo lugar eu vim te trazer essa lembrança. – Responde a mulher, olhando fixamente para os olhos de Magno.

Sentindo-se como uma criança que fez coisa errada na frente da mãe, ele desvia o olhar. E a questiona novamente.

– Porque você me trouxe essa lembrança?

– Por que ela é a única coisa com que você vai ficar depois que eu me for! Seu tempo chegou novamente Magno e diferente daqueles que nascem com um dom, eu posso fazer com você o que eu bem entender. Você é simplesmente mais uma decepção dos meus experimentos, mais uma falha. Você como todos os outros se acomodou, não continuou, deixou se perder pelas coisas mundanas que todos se perdem e assim não enxergou a chance que eu te dei de colocar o seu nome no caderno do tempo. – Responde a mulher num tom de decepção, mas não uma decepção com Magno propriamente e sim consigo mesma.

– Por favor, não leve o que você me deu. Eu não sou nada sem a música! – Implora Magno depois de alguns segundos de silêncio.

– Ha, ha, ha, eu já levei meu querido há alguns minutos atrás! Mas você está enganado na sua afirmação, você é sim, você era algo quanto de conheci. – Diz a mulher sorrindo e se entrando no elevador.

– Mas agora, eu sou somente isso que você me deu, e eu não consigo ser outra coisa. – Afirma Magno sentindo a mesma sensação de ser abandonado e observar o destino levar a pessoa amada com os seus pequenos e maldosos passos.

Apertando o botão do elevador, e com um brilho acinzentado no olhar ela responde para Magno enquanto a porta se fecha.

– Ahhh... Meu querido, você será, você terá que ser!



O Tempo é um senhor implacável e ele nunca cavalga sozinho através dos anos. Ele tem como companhias a Depressão, a Tristeza, a Solidão e um dos seus melhores amigos o Esquecimento. E a partido do momento em que o elevador fechou as suas portas, Magno conheceu todo o poder desses amigos.

Ele não conseguia mais produzir nada. Não conseguia nem mais tocar mais as músicas que compôs, simplesmente voltou à estaca zero. Caído e abraçado com o Esquecimento e coberto pelo Ostracismo, os “amigos” e o dinheiro que uma vez haviam em abundância, agora foram levados pelas correntezas do interesse e da incerteza.

Tudo que agora lhe resta são os bares. Não para apresentações, mas para ele afogar diariamente as suas lembranças em qualquer garrafa de álcool que encontre. Obtendo algum resultado ele consegue afogar quase todas, mas ainda há uma permanece boiando na superfície. A lembrança da noite de 29 de agosto de 1997, a sexta-feira em que ele recebeu tudo.