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quarta-feira, 26 de junho de 2024

No Balanço da Rede - Carlos Filho

O Futuro Pelas Almas Atuais

Em uma dissertação de mestrado da universidade de Cambridge, elaborado pelo estudante Kenneth John Freeman no ano de 1907, é narrado o trecho que, em livre tradução, aparentemente, argumentava contra o “afrouxamento” na educação dos jovens:

“A nossa juventude adora o luxo, desprezo pela autoridade, desrespeito aos mais velhos e amor pela conversa em vez do exercício. As crianças começaram a ser os tiranos, e não os escravos, das suas famílias. Eles não se levantavam mais quando um ancião entrava na sala; contradiziam os pais, conversavam diante de convidados, devoravam as guloseimas da mesa e cometiam diversas ofensas aos gostos helênicos, como cruzar as pernas”.

Posteriormente, por motivos que desconheço, estas palavras foram sendo publicadas e atribuídas nos jornais americanos no decorrer do século XXI, e mais recentemente a internet, aos filósofos gregos Sócrates e Platão.

Pois bem, além das origens, é fato que elas revelam um sintoma: O conflito de gerações! Desde sempre, principalmente aqui no Nordeste onde a Tradição (e isso envolve muitos aspectos culturais) é fortíssima, e a gente escuta os mais velhos, desde sempre, criticando a juventude e falando a célebre e reacionária frase “no meu tempo era melhor”! Em termos sociais, mente todo aquele que faz uso dessa afirmação abraçando a sua individualidade e esquecendo do coletivo. Em termos de cultura, mente quem diz que nossa cultura está se esvaindo, se perdendo!

Essa afirmação se torna pior quando esta percepção é propagada por aqueles que dizem ter um “bom gosto cultural”, mas que muitas vezes possuem uma opinião formada a partir da mistura do congelamento mental com o ressentimento, pois muitas vezes estes críticos são totalmente ignorados em seus cenários de atuação.  Botar o pé na rua, procurar, pesquisar e conhecer dá trabalho e esse povo reclamão, constantemente, é mais preguiçoso do que defensor da cultura de seu povo. Vive enclausurado, relembrando as experiências individuais que viveu no passado e pouco se procura em conhecer o que está sendo produzido além do que lhe é entregue pelos meios de comunicação de massa!

Há sempre cultura de qualidade sendo produzida no mundo, sempre houve e sempre haverá enquanto existirmos neste planeta, assim como haverá sempre a de baixa qualidade. Mas voltando ao passado e focalizando no Nordeste brasileiro, onde inúmeros conterrâneos nossos vivem com suas mentes, eu aponto o óbvio: o nosso gênio maior, Luiz Gonzaga, não existia antes da década de 40 no cenário cultural nordestino, ou seja, esta tão celebrada Tradição possui 80 anos, bem dizer duas gerações! Lembro também que quando Luiz apareceu com a novidade do Baião, e com a criação do trio pé-de-serra, foi execrado de tudo que é adjetivo que não presta, por muitos "entendidos" que não aceitavam aquela novidade, tanto entre o povo nordestino como nacionalmente. Mas ele sobreviveu, pois como dizia por aí o inglês Thomas Morus, autor do clássico do medievo europeu “Utopia”: “A tradição não é reter as cinzas, mas sim transmitir a chama adiante”. Luiz não se reteve, se adaptou e levou a chama das suas tradições, tudo que caracteriza o seu povo, adiante. Todavia levou com uma nova roupagem e com novas ferramentas e eu provo isso:

Talvez nem todos atentem para isso, mas a sanfona não é um instrumento, diferente de violas, rabecas, flautas e tambores, que estão no Brasil desde o início de sua formação e, consequentemente, na formação do Nordeste. Pelo contrário, a sanfona adentrou em nosso país pelo Rio Grande do Sul, conforme afirma Renato Almeida no livro História da Música Brasileira, com os colonos italianos e alemães na segunda metade do século XIX. Sendo levada, posteriormente, ao Norte por soldados nordestinos que lutaram na guerra do Paraguai, em 1864-70, possivelmente, a sanfona de oito baixos por ser mais simples e barata. Aqui a Sanfona não ganhou os grandes salões e sim as pobres choupanas sertanejas, fato esse que nos leva a crer que o afamado Januário, pai de Luiz Gonzaga, seja talvez da segunda geração de sanfoneiros do Nordeste. Bom, mas o que quero dizer com isso? Quero mostrar quando Luiz começou a tocar “as coisinhas do Norte” lá pelo Sul, com sua sanfona de 120 baixos, que até então só tocava valsas e polcas, foi um assombro! A Sanfona de 120, ou mais, baixos, foi adaptada, em conjunto com o triangulo e a zabumba, para o que Luiz queria tocar!

Luiz Gonzaga na década de 40

Então, meu elevadíssimo Leitor, esse papo de que o passado está associado a qualidade e o novo ou presente está associado ao que não presta é uma visão ruim, rasa, idiota e preguiçosa. Há lixo cultural hoje tão ruins quanto os da década de 40 e há riquezas culturais hoje tão boas quanto na década de 40. Quem ditará a qualidade de qualquer coisa que se produza é o senhor do infinito, o Tempo! Hoje, eu sou da opinião que precisamos sempre exercitar o conhecimento e lutar constantemente com o preconceito das nossas vistas e mentes. Pois, se algum Luiz Gonzaga aparecer por aí, eu quero estar atento!

E foi assim, com os olhos sempre atentos, que, na plataforma do Instagram, conheci Carlos Filho. Era fevereiro e ele estava tocando, em um de seus tantos vídeos postados, um Frevo de Capiba. Eu sou um homem de paixões, não nego isso e nem muito menos a minha intensidade, sendo assim, confesso também que me apaixonei por aquele cabeludo que tão magnificamente tocava em seu violão composições do mestre de Surubim.

Carlos Filho

Carlos executava, com uma delicadeza incrivelmente única, aquelas músicas que muitas vezes passam despercebidas entre as algazarras das fanfarras e dos blocos. Ele me apresentou ali, com seu violão e sua tenra voz, por mais que eu já conhecesse algo, o Frevo-Canção e me revelou como a nossa cultura brasileira é repleta de facetas desconhecidas. Minha mãe me disse certa vez: “Meu filho, vai chegar um tempo em sua vida que você verá coisas que outras pessoas não enxergam”. Bom, a primeira vez que bati o olho em Carlos eu vi que não estava diante de mais um dos tantos vídeos artísticos que passam diante da “timeline” dos nossos “smartphones”. Fuçando e olhando outros vídeos dele, eu tive a certeza de que estava diante de um novo Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Ednardo etc.

Carlos e seu Violão em um dos seus vídeos no Instagram

Cito estes artistas para que o elevadíssimo Leitor possa ter a exata noção do impacto que a visão de Carlos me causou. Pois, assim como estes grandes vultos nordestinos, vejo que Carlos carrega a chama que eles carregaram e carregam. E foi diante desta percepção que, não constando história, o convidei para uma live que conduzo no meu perfil do Instagram: o Café com Live. Para minha sorte ele aceitou e assim, como desconhecidos, mas unidos pela gana de falar, fazer e de conversar sobre cultura, nós fizemos a live. Clique no link abaixo para assistir:


Por pouco mais de duas horas conversamos sobre diversos temas e pude conhecer bem mais aquele “cabra-bom” que eu já admirava.  Carlos é natural da cidade de Serra Talhada. Autodidata, o nosso cantor começou muito cedo a demonstrar seu interesse e sua aptidão pela música. Dono de um timbre de voz inconfundível, e de um bom gosto musical excepcional, desde o primeiro momento ele me pareceu mais um fruto, raro e precioso, desta frondosa árvore chamada Pernambuco. E como se não bastasse a belíssima voz, o danado ainda toca o violão, o piano e é compositor!

No entanto, foi a sua voz que o levou para o programa The Voice, da Rede Globo! Carlos já se apresentava em várias casas do Recife, onde mora há quase 20 anos, com grupos como Bandavoou, Estesia e Orquestra Malassombro. Também já se apresentava no Marco Zero, para uma multidão de espectadores, anualmente, no tradicional espetáculo natalino Baile do Menino Deus. Dessa forma, ele já era conhecido na cena recifense, mas ao participar de um programa de vulto nacional, ele desponta. No The Voice encanta a todos em sua “audição as cegas” cantado magistralmente Enquanto Engomo a Calça, do cearense Ednardo, e tem várias “cadeiras viradas” escolhendo por fim o time do cantor Lulu Santos.

Carlos Filho no Programa The Voice, da Rede Globo

Para tristeza da imensa torcida, após várias etapas, o “cabra-de-serra-talhada” é eliminado, não por outros oponentes, mas pela gripe. Carlos deixa o programa e deixa em todos nós um gostinho de “quero mais”. Passado todo fuzuê do programa e hoje ciente de suas grandes e únicas qualidades, Carlos me confessou, provocado por mim, na Festa de Louro de 2023 onde nos encontramos: “Eu ia ganhar o programa”! Estou narrando isso aqui, primeiro porque tenho o “bucho furado” (riso) e em segundo lugar para mostrar que quando estamos cientes do que somos e do representamos essa coisa de modéstia é relativa demais!

E foi justamente nesta festa poética e pajeuzeira, a Festa de Louro, que eu e Carlos nos aproximamos e nos conhecemos melhor. Pude ver um cabra pôr vezes inocente e gentil, pôr vezes brincalhão e maldoso, e pôr muitas vezes generoso. Os meses passam e, após este encontro, conversamos mais algumas vezes pelo whatsapp, até que numa destas conversas Carlos comunica que vem à capital da Paraíba a passeio. O recebo na minha casa e, para minha surpresa, ele vem acompanhado de toda sua família. Conversamos um bocado, brincamos outro tanto e por fim lhe entreguei o meu livro. No dia seguinte recebo uma mensagem dele: “Acabei de ler teu livro”. O que ele não sabe é do bem que me fez quando me mandou essa mensagem. Independente se gostou ou não do livro, ele teve a consideração de ler e isso é o que importa. Pois, me informando isso Carlos revelou que havia se concluído mais um elo entre a mente criadora e a mente receptora e é justamente sobre isso que vim escrever aqui!

Carlos Filho e Igor Gregório

Há algumas semanas soube, pelas plataformas digitais, que Carlos havia lançado seu primeiro álbum solo: o Baile Brasileiro! Antes de adentrar neste universo particular, gostaria de observar que pouco tempo antes do álbum Carlos realizou, com Giuliano Eriston, um concerto no Cinetreatro São Luiz (link abaixo), no Ceará, que, buscando uma referência, a meu ver, pode ser comparado facilmente ao encontro de Alceu Valença e Geraldo Azevedo no disco Quadrafônico!

Carlos nunca negou a influência pesada do Forró sobre sua personalidade artística, mas pelo que ouvi dele, houve, por um tempo, certa relutância em assumi-la. Ao lançar este álbum, primeiro ele expõe a coragem em botar no mundo um produto completo ao invés desse negócio minguado e pouco criativo chamado EP que os artistas musicais abraçaram hoje em dia. Em segundo lugar expõe a coragem de assumir seu lado “gonzagueano” ao trazer o forró tradicional repleto de referências que, mescladas, o tornam original.

Link para o álbum Baile Brasileiro, Carlos Filho (2024)

A primeira faixa do álbum é Aboio, Afeto y Recanto, que me encanta e me apresenta o que vem pela frente. O que observei a princípio foi a letra “y” sendo utilizada como vogal. O que pode parecer um traço estético moderno, na verdade se trata, pelo que pude deduzir, de uma referência aos textos antigos, textos que remetem a nossa colonização, onde a língua espanhola exercia ainda uma grande influência na portuguesa. Dessa forma, esta pequena referência me remete logo à Tradição, me dando um "spoiler" o que vem pela frente. E confirmando esse achismo, ao dar o play, sou levado pela bela voz de Carlos a um “aboio de apresentação”, a uma “loa de chegança”, a uma “uma estrofe de anunciação de um Maracatu”, que irá servir de abre-alas para todo sentimento proposto no projeto! Nesta faixa, e nas demais, a voz inconfundível do nosso serratalhadense é acompanhada pela sanfona do também jovem, talentoso e paraibano de Umbuzeiro, Felipe Costta.

Carlos Filho e Felipe Costta

Logo após vem a faixa Barraco na Ribeira. Escrita por Giuliano Eriston, vencedor da edição do The Voice em que Carlos foi eliminado, a música coloca todo mundo para dançar com um pé-de-serra bem sanfonado e ritmado. Sendo sincero e fiel as minhas preferências, confesso que não curto muito quando a poesia e o texto da música tentam emular o linguajar do povo. O povo não erra o português porque lhe é natural ou intrínseco, mas por uma falta de estrutura da sociedade que faz com que ele não tenha acesso devido à educação. Então quando pessoas, que possuem tal acesso, simulam o linguajar do povo, ao meu julgamento, fazem uma espécie de caricatura. Mas como disse, essa é uma opinião geral minha e de forma alguma prejudica a experiência musical da faixa em questão.

Depois de colocar o povo para dançar, vem a canção Cuidar de Mim. Composta por Ítallo Costa, também ele cantor e compositor da nova geração nordestina, a música nos traz um daqueles xotes que colocam a gente pra dançar, mas dessa vez agarradinho, devagar e ainda pensando, entre os arrastados da chinela, nos amores e desamores que a gente viveu. Bom demais!

É aí que nos retorna Giuliano Eriston com outra composição: Devagar, Meu Bem. Com uma poesia delicada e com o português correto, mas sem com isso se distanciar dos maneirismos que caracterizam os nordestinos, como no verso que diz “vida é rede de balançar” e como no sotaque acentuado de Carlos que já embeleza tudo de nordestinidade, a música brilha. A poesia ainda está envolta duma melodia gostosíssima, pontuada pelos excelentes solos de sanfona de Felipe Costta.

Na quinta faixa do álbum, Maçã do Rosto, Carlos me reapresenta uma canção que havia passado despercebida por mim ao ouvir o disco A Voz, o Violão, a Música de Djavan, confesso. “O Deus das Alagoas”, como disse Mano Brown em seu podcast, é um mestre da palavra e mais ainda da interpretação destas palavras. Sendo assim, é sempre perigoso quando nos colocamos ao lado destas entidades. No entanto, a interpretação de Carlos, além de dar luz a esta canção, me trouxe uma nordestinidade e uma qualidade vocal bem mais elaborada do que na primeira versão. A comparação é inevitável, mas não é maléfica. Acho que ela, neste caso, mais une do que separa. E eu já aguardo ansiosamente a versão ao vivo da canção com a participação de Djavan!

A Voz, o Violão, a Música de Djavan

Na penúltima faixa do álbum, sentindo já um gostinho de saudade, se apresenta a canção Tu Vai Ver. Composta em parceria com Giuliano, Carlos divide o vocal da canção com Sarah Leandro, filha do valiosíssimo Flavio Leandro, oriunda do município de Bodocó. Não sei por que, mas essa canção me lembrou um bocado as canções do mestre Petrúcio Amorim. Ela é uma daquelas músicas que a gente aumenta o volume do rádio e canta junto, como Meu Cenário, Anjo Querubim, Filho do Dono, Tareco e Mariola e tantas outras canções fortes e marcantes!

Chegando à última faixa, Forró pra Tia Lila, e ao final deste lindo passeio forrozeiro, temos uma canção instrumental que se despede do ouvinte fazendo um carinho em sua alma. Deixando na gente aquele choramingado feliz de saudade que todos nós sentimos ao nos despedimos dos nossos queridos, geralmente na cozinha de casa, que nos visitam para um café regado à boas histórias e muitas risadas.

Agora, neste ponto, me vejo no final desta longa coluna em homenagem ao meu querido Carlos Filho reafirmando, e ressentindo, o que já disse em seu começo: A nossa cultura não está se perdendo ou acabando. Ela está se renovando nas mentes de Carlos, Giuliano, Felipe, Ítallo, Sarah e tantos outros que amam esse nordeste do mesmo tanto que eu amo. 

Quem mantém a cultura viva é o povo. Ele faz e consome a própria cultura. A cultura do povo não está nos grandes festivais de música porque o povo de verdade não está lá, onde a maioria destes saudosistas que citei vivem, o povo está produzindo sua cultura onde sempre produziu, nas suas localidades, rurais ou urbanas. Pois me diga quem faz todos os anos o festival de Quadrilhas Juninas brilhar? Quem faz todos os anos o desfile de Ala-Ursas alegrar tantas crianças paraibanas? Quem faz todos os anos os desfiles de Maracatu mostrarem sua realeza pelas ruas do Recife? Eu respondo: O povo!

A juventude no desfile do Maracatu

Semana passada fui à uma cantoria, legítima, de pé-de-parede, num bairro periférico aqui da capital da Paraíba, e não vi nenhum destes defensores da tradição e da cultura lá. Pelo contrário, vi o povo! Sendo assim, meu elevadíssimo Leitor, eu estou tranquilo por observar que a chama da nossa cultura está viva e sendo levada à frente por Carlos Filho e inúmeros jovens que eu poderia passar o dia aqui citando. Estou tranquilo ao observar a vontade dele de produzir sem perder o que lhe faz único: As referências de sua Tradição! Estou tranquilo em saber que no futuro meu filho terá música de qualidade para escutar. Só não estou mais tranquilo porque, eu, como um legítimo e orgulhoso paraibano, tive que passar todo esse texto elogiando um pernambucano (risos)!


quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

No Balanço da Rede - Jennifer Trajano



 

O Futuro Pelas Almas Atuais

O que a paraíba tem me revelado, neste meu bater de asas no céu da literatura, é que, graças aos vultos do passado que servem de inspiração e aos olhos que miram o futuro, a poesia em nossa terra não somente é prolífera, é também coisa de sangue! Acho eu, depois de olhar para os lados, que a palavra Paraíba já deveria ser sinônimo da palavra Poesia! 

No Balanço de hoje trago a vocês uma pessoa que não precisa das minhas apresentações, pois acho eu que todos, que conhecem um pouco do que está sendo produzido aqui na Paraíba no campo literário e poético, já conhecem e admiram esta poetisa.

Jennifer Trajano não somente é uma pessoa que escreve (o que já seria suficiente para este poeta), mas ela também é uma professora de língua portuguesa que propaga a poesia em cada passo de sua trajetória. Carregando seus versos no olhar e a sabedoria em sua boca, ela propaga o conhecimento com seus alunos, tanto os formais quanto nós seus alunos extraclasses.


Jennifer Trajano


Conheci Jennifer pessoalmente em um sarau e posteriormente lhe convidei para uma Live que realizo no Instagram (Vídeo ao final do texto). Muito me interessou aquela poetisa paraibana que possuía, e possui, a admiração de muitos poetas e poetisas da nossa cena. Quis conhecê-la. Conversamos, e eu pude observar de perto aquela jovem moradora da Ilha do Bispo que não somente era ativa nas redes sociais, mas que também se movia artisticamente no mundo offline.

Frisei esta questão do bairro, pois acredito piamente que o mundo ao nosso redor molda o que nós somos e os caminhos que escolhemos percorrer. A Ilha do Bispo é uma localidade de divisa entre os municípios de João Pessoa e Bayeux, e justamente por este motivo é, como todo local de divisa, bastante esquecido pelos poderes públicos. Cortado pela linha do trem que transita nas cidades da “grande João Pessoa” (Cabedelo, Bayeux e Santa Rita) e margeando o Rio Sanhauá, a Ilha do Bispo sempre nos presenteou com uma vocação artística marcada pela presença dos Tabajaras, povos indígenas que habitam a região desde sempre. Em contraste com a riqueza cultural, a pobreza social sempre foi outra marca deste que é um dos bairros mais antigos da nossa capital.

Ala Ursa Piragibe da Ilha do Bispo

Dessa forma, tenho plena certeza de que estas marcas estão tanto na trajetória de Jennifer quanto na sua poesia. Para afirmar isto busco duas referências. A primeira é a entrevista ao programa Literato da TV Cidade João Pessoa, em que ela afirma: “Eu fui a primeira pessoa da minha família a ter uma graduação, um curso superior”. A segunda é o poema que ela compôs em homenagem ao seu pai:

pedaço

a meu pai, Luiz Alberto Cavalcanti Lima

naquele tempo

em que eu não tinha

metade da tua altura

as tuas mãos

no guidom

me equilibravam


naquele tempo

em que eu tinha quase

metade da tua altura

teus pés pedalavam

meu caminho

até à escola


e todas as tarde

eram pintadas

com a cor vermelha

da bicicleta, tão forte

quanto a tua cor

nesse tempo aquarelado


hoje continuo o cântico

das duas rodas:

pedalo até o dia

em que eu tinha

metade da tua altura

e lembro do teu riso


manchado de poucos

dentes e cheio de graxa

graça que ultrapassava

o tempo

em que eu não tinha

metade da tua altura


hoje possuo

a mesma altura tua

e choro de amor

porque recordo todo

tamanho das tua mãos

que me subiam â bicicleta


sabendo que me deste

altura à altura

do que és

e te amo

com todo a certeza

de que fazes parte


de todos

os meus

tamanhos

[do andados

à

bicicleta]


neste tempo ultrapassado

que não passa

em que eu tenho

de ti internamente

mais da segunda

metade da altura tua


Estas duas referências demonstram uma cidadã que não tem medo de expor suas raízes e uma poetisa que, mesmo presente em sua localidade, precisa se aventurar em outros meios para cada vez mais evoluir como artista. Este é meu tipo de pessoa! Posso estar redondamente enganado em relação ao que estou afirmando, mas é esta a minha percepção após os meus contatos e as minhas pesquisas acerca de Jennifer.

Como citada anteriormente, eu realizei uma Live com a poetisa. Em nosso bate-papo encontrei uma pessoa simples, alegre e altamente inteligente. Após o encontro, devido a pandemia que nos assolava me impedir de adquirir antes, busquei o seu primeiro livro de poesias: Latíbulos (Editora Escaleras- 2019).


O livro, como muito bem explica a autora em sua entrevista ao programa Literato, tem sua divisão igualmente a uma missa, todavia a sacralidade é quebrada por poemas que não somente provocam, como também fervem os pecados de cada leitor. Latíbulos, ou seja, lugar onde moram os Deuses, ou também, lugar escondido, pode, na minha concepção, ser um lugar onde os poemas (os Deuses) estão escondidos, como também pode fazer uma alusão direta ao local de origem da poetisa, a Ilha do Bispo. Afinal, quase tudo cabe no ocultismo poético, desde ilhas a interpretações malucas. Abaixo alguns dos meus poemas favoritos do livro:

Varadouro


novela na tv

olhos na tela

cortinas amarradas

crateras no piso

da panela

- formigas em papel

Jesus de papel

brilhando na parede

volume alto

salto silêncio

de um gato

Dona Maria

da Dores

dorme sem notar

e os pirralhos correm

notando a rua

depois ela sai

para gritar

com a lua

que os respinga

sobre a terra


Passos


quando astros de galáxias

distante colidirem a olho nu

e a noite não menstruar a lua


quando pirâmides enquadrarem

arranha-céus e rasgando os céus

faraós aos seus postos retornarem


quando rainhas vikings saquearem

Jerusalém à sombra das oliveiras

e o santo graal jogarem ao mar


quando negras da época matarem

a branca escravidão com a força

da palavra de Conceição Evaristo


quando Dionísio não embriagar

 o eu-lírico de Hilda Hilst

só assim, Deus, tu virás a mim


Vejo que Jeniffer, como qualquer pessoa de discernimento, se permite evoluir. Buscando aqui as “Metamorfoses Necessárias da Vida” elaborada pelo filósofo Friedrich Nietzsche, vejo que a nossa poetisa passou, como a maioria de nós, pela fase do Camelo, fase em que precisamos, quando crianças, fazer reverência à tradição e seguir as “normas” estabelecidas pelos múltiplos poderes podadores. Porém, com seu livro Latíbulos, Jennifer rompe com o Camelo e abraça o Leão, momento em que há uma fragmentação da norma e que o espírito se permite a liberdade de conhecer a descrença (no sentido de duvidar e questionar tudo). Sendo assim, passando pelas duas fases iniciais da vida, a poetisa, segundo a teoria de Nietzsche, chega a fase da Criança. O termo parece contraditório, mas na verdade revela a afirmação da vida. É o momento em que o indivíduo encontra a potência e a liberdade da vontade, por isso o termo simbólico da Criança. Dessa forma, já adulta e plena de suas vontades e seus deveres, Jennifer lança o livro Diga aos Brancos que Não Vou:


Aqui encontramos a evolução citada, em que a poetisa deixa de olhar para dentro e começa abraçar o mundo. Ela nos traz poemas que representam múltiplas vozes e causas. Poemas que são eficientes em incomodar e em perturbar aqueles que ainda não realizaram suas metamorfoses e que continuam abraçados ao Camelo ou ao Leão. Não estou aqui dizendo que Jennifer concluiu seu ciclo e que ela é um sinônimo de sapiência e da perfeição humana. Talvez seja (risos). Mas o que quero dizer é que, na busca pela evolução do Ser, ela já está em um platô elevado e que agora caminha e constrói neste espaço. Abaixo os poemas que mais me tocaram no livro:


Povoação Índio Piragibe


há mentes ilhadas

na pedra-corpo

do Piragibe


todavia, há vias

às margens da via

oeste das vistas


a vir do mangue:

aqui o ba(i)rro é

de indígena, não de bispo


pátria


pela manhã vovó

mandava mainha

cozinhar congeladas

estrelas celestes

e as constelações

faziam brilhar

o fervor nas panelas


um dia nero visitou nosso céu

em tempo de cana com mel

e não havia ave

dormindo na

cadeira de balanço

ou vela de sétimo dia

para o gato na parede


então a comida queimou

e os corpos ficaram

pro dobrar os panos

e enterrado no quintal

o ventre da casa

que nunca foi nossa

perdeu o bebê


Gostaria de deixar bem claro que tudo que estou escrevendo aqui são as minhas percepções de Jennifer e que logicamente elas podem estar contaminadas pela minha admiração e a pela minha amizade poética. Mas um fato inegável é a grandeza desta que, sem dúvida nenhuma (me utilizando da personalidade profética dos poetas) será uma das grandes escritoras da nossa Paraíba. Sim, grande escritora. Pois, deixando um pouco os versos de lado, sem deixar a poesia, e se aventurando na prosa, em 2023 Jennifer lançou o seu primeiro livro de contos, o Pequenas Ampulhetas. Como, por falha minha, ainda não li o livro, deixo abaixo a excelente matéria do Jornal União sobre:


Repito constantemente, em todo lugar em que minha voz se faz presente, que gosto de gente que faz! Sou um admirador empolgadíssimo daqueles que, mesmo não estando totalmente lapidados (acho que nunca estaremos), metem a cara à tapa e gritam ao mundo suas belas verdades. Jennifer, as poucas vezes em que conversamos, me revelou isto: Verdade! Então nada mais posso dizer a ela além de um sincero e carinhoso: Continue, poetisa!




quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

No Balanço da Rede - Siélysson Francisco

O Futuro Pelas Almas Atuais

Se buscarmos a analogia dos Racionais MC’s, na música Vida Loka, e tratarmos o mundo da internet como um lixão, então podemos afirmar que até no meio deste imenso deposito de sujeira podem brotar flores. E uma destas flores, talvez um Copo-de-Leite, seja o meu amigo e poeta Siéllysson Francisco. Pois foi desta forma, se destacando pelo Belo e pelo Conhecimento, que ele chegou até à tela do meu celular.

Eu pesquisava sobre a história da Paraíba e, consequentemente, esbarrei na história do município de Santa Rita, tão importante em nosso desenvolvimento estadual. Graças aos transmissores que conectam o universo, nesta pesquisa, vi que havia a indicação de vídeos sobre o tema e os vídeos eram justamente de Siéllysson.

Cliquei e assisti o primeiro!

Siéllysson é graduado e licenciado em História pela Universidade Federal da Paraíba, especialista em História do Brasil pela FIP, Mestre em Ciências das Religiões pela UFPB. Além, da autoria do livro "Santa Rita: A Herança Cristã do Real ao Cumbe" (Ed.Ideia), é também co-autor de outras publicações, dessa forma, repleto de propriedade acerca do patrimônio histórico e cultural da Paraíba e do município de Santa Rita , este professor começou a me ensinar com seus vídeos.

Siéllysson Francisco

Eu que sempre fui um curioso, e sempre gostei de me aproximar das pessoas que, acima de tudo, produzem, fui procurar conhecer melhor aquele professor. Entrei em contato e conversamos. Graças a Deus, ele foi receptivo e desse modo começamos uma amizade que perdura até os dias de hoje, quase três anos depois. Afirmo: Para este poeta que vos escreve, uma das maiores alegrias que ele pode ter na vida é o poder de se conectar com pessoas a partir da centelha do conhecimento, da literatura e da poesia! Sendo assim, fiquei, e fico, imensamente feliz ao dialogar com Siéllysson. Abaixo um vídeo didático de seu excelente canal e o nosso bate papo sobre o Cordel Brasileiro:




Siéllysson é natural e reside no município de Santa Rita, e tem orgulho disso! Não por um sentimento bairrista qualquer, mas por uma conexão e um amor profundo com a sua terra. Sentimento este, que não somente admiro como imito. Pois como todos aqueles que verdadeiramente amam, ele não só ama platonicamente, ele se move. O poeta e professor conhece todas as vielas, ruas, prédios e vultos históricos da sua cidade. Certa vez, ao lhe dar uma carona, passamos por uma casinha charmosa no centro da cidade e eu comentei com ele como ela era bonita. Para minha surpresa, ele sabia toda a história da casa e da família que residia nela!

Primeiro livro de Siéllysson

O Professor produz e personifica o seu lugar. Pelas nossas conversas, acredito que desde muito cedo ele entendeu, como historiador e cidadão, que deveria preservar a riqueza, imensa, de Santa Rita. Como um bom filho que busca conhecimento no mundo, mas que retorna para transformar a sua família, Siéllysson valoriza, constrói e dissemina as potencialidades do seu povo, do seu lugar!

Produção de vídeos (didáticos, poéticos, encenados, entrevistas), Colunas em vários canais informativos, livros lançados, eventos poéticos, movimentos culturais, valorização dos artistas locais, Siéllysson caminha por todos estes ambientes com a maestria de quem não somente conhece as veredas, mas como também aquele guia e apresenta novos lugares, novas possibilidades. Se isso não é sinônimo de um Mestre, eu não sei mais de nada.

Não bastasse isso tudo, Siéllysson é poeta! Sou cooperativista (se é que isso existe na poesia) e defendo e exalto os meus. Ser poeta não é somente escrever palavras e sim ter em seus olhos um modo diferente de enxergar o mundo. Em sua poesia sinto muitas dores, mas acho que elas, as dores, foram feitas, em certa medida, para engrandecer o ser. Seguidor, acho que posso revelar isto, de Drummond e de Vinicius de Morares, o poeta santarritense nos revela a mesma simplicidade direta e poderosa do mestre Itabirano e a doçura sensual de mestre Fluminense.

Primeiro livro de poemas de Siéllysson.
Alguns poemas abaixo: 

Sombra e Luz

A dor em minha vida
é uma transfusão para o papel,
isto não quer dizer que seja antídoto
apenas um breve alívio.

Nascemos sem receita e
sem mapa para a felicidade.
Inventamos os caminhos ilusórios.

Na sombra de nossas almas
há muito dos deuses
E quase nada de resposta

Sem Órbita

Desligo o celular,
preparo chá de erva doce
sem açúcar, como sempre.

Saio de órbita,
sigo o silêncio,
bebo dos Beatles
recuperando minha energia perdida
nas galáxias vizinhas.

Não corto os pulsos, corto o cordão umbilical
que me prende a este mundo
e sigo em versos que só eu entendo.

Silêncio das Palavras

Olho para folha em branco
sinto tristeza, porque hoje ela continua em branco
não consigo escrever nada.
Tenho ideias, mas elas não se sentam na esfera do meu mundo
e assim como uma poeira cósmica flutua no meu infinito
sem deixar rastros,
sem nenhum escrito.


Siel, como chamam todos aqueles que o amam, faz da poesia seu respirar! E ao transpirar ele trata e cuida dos seus amados, sempre de ouvidos atentos e olhar encorajador. Na sua casa ele acolhe! Ahhh a sua casa! Sinônimo de sonho, ela é um personagem à parte: Linda, bem cuidada, de um bom gosto incrível e extremamente aconchegante e acolhedora! Posso afirmar que ela é a personificação da alma do meu amigo!

Casa de Siéllysson

Na sua casa, ele organiza o Sarau do Cafofo. Evento privado e seleto (faço questão de frisar isto por me sentir privilegiado de ser convidado) no qual o poeta seleciona pessoas das mais diversas artes para, em noites regadas a risadas e a conversas prazerosíssimas, propagar nas almas a poesia. Eu já disse inúmeras vezes a Siéllysson o quando me faz bem poder estar no meio de pessoas tão inteligentes e mais capazes do que eu. Saio sempre renovado e em êxtase das edições do Sarau, que esse ano, completa dez anos de existência e que, com a graça aos Deuses, acontecerá por longos anos.

Sarau do Cafofo

Siéllysson já me falou, mais de uma vez, das críticas que recebe, e que recebeu, no decorrer da sua caminhada. Me relatou as suas decepções acerca das pessoas. Já me narrou, mais de uma vez, que pensou em desistir da arte e de todo ônus que ela impõe. Contrapus sempre estes seus argumentos. Sou um esperançoso, apesar de tudo, e reafirmo aqui ao meu amigo: Para saber se a gente presta, basta olhar quem está do nosso lado! A canalha encontra sempre a solidão. Ao contrário de Siel que está sempre cercado de alunos, familiares e amigos! E posso afirmar, sem sombra de dúvida, estes últimos estão sempre dispostos a embarcar em suas loucuras artísticas, pois talvez enxerguem o grande ser humano que descrevi no decorrer deste texto.

Avante, meu poeta! Avante, Siel! O mundo precisa de nós, dos que são loucos suficientes para sonhar, e nós precisamos um do outro! Pois como dizia Raul:

“Sonho que se sonha só
É só um sonho que se sonha só
Mas sonho que se sonha junto, é realidade”

Siléllysson Francisco e Igor Gregório





 

domingo, 3 de dezembro de 2023

No Balanço da Rede - Dayane Rocha

 

O Futuro Pelas Almas Atuais

Hoje começo no meu blog mais uma coluna, e nela direciono os meus olhos para o futuro. Irei falar sobre poetas que convivo, poetas que estão produzindo e compartilhando nas redes os seus pensamentos e poemas. Sempre tive interesse de fazer algo assim, pois há uma percepção, na população geral, que o poeta é um ser do passado, distante e inacessível.

Não sou crítico literário! Sou apenas um poeta que gosta de descobrir e ler outros poetas. Aqui irei relatar um pouco sobre a trajetória e revelar alguns poemas dos meus homenageados. Irei falar da minha experiência ao conhecer, conviver e ler cada um. Tomo partido: Todos os quais relatarei aqui tem um lugar cativo em meu peito. São pessoas do meu agrado, mas que sim, os considero talentosos. Falo isso não para limitar ou separar, mas para ser honesto comigo e com os elevadíssimos leitores.

Logicamente, no decorrer da minha caminhada pretendo sempre descobrir, abraçar e trazer novos poetas para minha vida e para este espaço. Afinal, como dizia Chico Buarque: "Vamos botar água no feijão", que está sempre chegando gente. Mas hoje começo com uma queridíssima poetisa: Dayane Rocha!

Vamos balançar:

Conheci Dayane acessando o perfil do Instagram do querido Du Leal, pois ele tinha compartilhado um vídeo no qual Dayane recitava uma estrofe na modalidade poética do Galope a Beira Mar:

Fiquei mais contente com tua chegada
que trouxe tesão carinho e afeto
pro peito que estava ficando sem teto
sem ter outro peito pra fazer morada.
Vão ficar meus versos por entre a estrada
quando essa história for ultrapassar.
Não serei a mesma quando isso passar
nem serão mais tuas minhas poesias
restaram lembranças desses nossos dias
nos dez de galope da beira do mar!

Impactado com os versos: "pro peito que estava ficando sem teto / sem ter outro peito pra fazer morada", imediatamente comecei a seguir aquela poetisa que, para o deleite de todos, estava compartilhando seus lindos escritos nas redes sociais. Dayane é natural de Afogados da Ingazeira e reside em Brejinho, distrito da cidade Tabira, que fica localizado ali, nas costelas da Paraíba, no Vale do Pajeú pernambucano. De formas que eu, residindo aqui na capital da Paraíba, não iria conhecer ela tão facilmente sem a ajuda das redes sociais. Me utilizando do pretexto principal das redes, que é aproximar, me aproximei desta poetisa. Conheci mais os seus versos e conversamos virtualmente criando uma amizade poética. Porém, foi somente no festival em homenagem ao poeta Zeto do Pajeú, acontecido no Recife, que tive a oportunidade de abraçar Dayane e conhecer um pouco mais de sua alma.

Dayane Rocha Lira

Não quero entrar aqui nos pormenores da educação formal da Dayane, pois para os poetas, apesar de essencial para todos, isso é irrelevante. Quero focar mais na sua trajetória com os sentimentos. Lá no calor do Recife, Dayane me confessou um pouco sobre as dificuldades de uma mãe solteira que precisava se performar em várias para cuidar da sua casa, do seu cavalo e do seu amor maior: Seu filhinho Ian!

Dayane começou a fazer verso lá pelos 11 anos de idade. Brincava de fazer verso na escola. E talvez essa seja a forma mais linda e certa de se criar um poeta: Brincando! Foi assistir a primeira Cantoria de Viola na adolescência. Se apaixonou não somente pelas formas poéticas dos cantadores, mas especialmente pelo improviso, pelo repente, pelo mote, pela glosa! E é aí onde ela brilha: Foi galopando no seu cavalo, Cancão, por sua trajetória como uma vaqueira que rompe o mato fechado, com sua roupa de couro que simbolicamente é representada pelo seu caráter. Parando somente numa mesa de glosa, para beber uns motes e matar sua sede poética.

Sobre a mesa de glosa, para aqueles menos atentos a poética do Romanceiro Nordestino, trata-se de uma mesa onde se juntam três ou mais poetas para glosar (improvisar) versos a partir de Motes previamente escolhidos. Essas mesas tanto podem ser organizadas formalmente, onde há cachê ou premiação, quanto informalmente, por pura diversão.

Dayane, juntamente com a poetisa Elenilda, foi pioneira nas mesas de glosa do Pajeú. Pois, como vários escopos da nossa sociedade, as mesas eram dominadas pelos homens e pelo machismo. Ambas levaram a voz da mulher e começaram a implantar nestas mesas vários outros temas que até então não eram considerados. Deixo um trecho da entrevista de Dayane concedida ao Jornal O Globo, em ocasião da FLIP - Feira literária de Paraty, relatando um pouco deste percurso:

"Faço poesia erótica e falavam: "Lá vem ela com aquela safadeza". Quando era a deles, tudo bem... Em seguida, tinha o assédio, achavam que era um convite. Tenho um livro de cordel erótico e engraçadinhos diziam: "Mas você vem junto?" - lembra Dayane. - Sempre estivemos no lugar de musas inspiradoras, por isso, para eles é natural falar dos nossos corpos. Mas quando a gente fala dos nossos desejos..."

Folheto de conteúdo erótico de Dayane

Inspirada pela coragem de mulheres poetisas da sua própria região, como Mocinha de Passira, Rafaelzinha e Severina Branca, Dayane continuou insistindo nas mesas de glosa e junto de outras poetisas da sua contemporaneidade fundou o coletivo Mulheres de Repente, o qual se propõe a revelar uma nova postura das mulheres, tanto no cenário das Mesas de Glosa, como no cenário poético como um todo.

Mulheres de Repente

Mesa de Glosa

No evento em que conheci Dayane pessoalmente, a Festa em homenagem ao Poeta Zeto do Pajeú, ela participou de uma pequena Mesa de Glosa. Sinto por não ter gravado suas glosas naquele dia, pois me recordo que foram muito boas. Mas pesquisando sobre a poetisa, encontrei alguns registros seus. Um deles está em um trabalho de conclusão de curso: PAJEÚ: O RIO ENCOSTA AS MARGENS/ NO ECO DE NOSSA VOZ de GABRIELLE VITORIA DE LIRA. Deste trabalho pincei alguns ótimas estrofes de Dayane: 

Mote:

Nossa voz é Resistência
na favela e no Sertão!

Glosa:

Resistir, eis o dilema
da nossa voz que ecoa.
Vim a terra da garoa
para molha meu poema.
Vamos quebrar o sistema
que tanto prega opressão.
Como fez Marco Pezão
durante sua existência.
Nossa voz é Resistência
na favela e no Sertão!

Mote:

Bares, praças e calçadas
são palcos da poesia!

Glosa:

Noite, palco dos poetas
do bailar das rimas loucas,
onde passam tantas bocas
em glosas analfabetas.
Onde almas inquietas
caminham sem teimosia
e o colo da noite fria
embala dores geladas.
Bares, praças e calçadas
são palcos da poesia!

Porém, todavia, entretanto Dayane não é poetisa somente de Mesas de Glosa, coisa que já é coisa demais, é também uma sonetista de primeira linha! No livro "Coletânea das Flores, Poetisas do Pajeú" organizado por Dayane e por Bruna Tavares, podemos encontrar alguns destes belíssimos sonetos. Vale ressaltar a qualidade na métrica, na rima, na oração, mas também na construção do soneto, o desenvolvimento da ideia e as conclusões perfeitas:

Cinza

Era cinza a tarde amordaçada,
sem vestígios de telas e de cores.
Só restou uma cor acinzentada
e um véu cor de cinza entre as flores.

Era cinza o aroma dos amores,
tinha cinza na beira da calçada.
Era cinza o clarão da madrugada,
tinha cinza queimando algumas dores.

Era cinza o cenário que eu via.
Era cinza o pincel da poesia.
Era cinza, só cinza e nada mais.

Era cinza o meu pranto que pingava.
Era cinza o meu sangue que sangrava.
Era cinza, era cinza a cor dos "ais".

Agonias

Horas vagas, lembranças, agonias
riam dentro de mim, como crianças.
Dos meus olhos pra fora, dores frias.
Dos meus olhos pra dentro, mil lembranças.

Nunca mais encontreis as esperanças
que perdi, procurando as alegrias.
Só restaram lamentos e vinganças
no inferno das minhas poesias.

Madrugada, loucuras, devaneios
alguns vultos trazendo os versos feios.
outros com as saudades mais bonitas.

Quem sou eu? Sou mais uma rima alheia.
Sou menor que o menor grão de areia
carregando paisagens infinitas.

Coletânea das Flores Poetisas do Pajeú

Conversei com Dayane no mês passado (Novembro/2023) numa transmissão online, abaixo está o registro. A conversa foi massa. Nela, recitei os sonetos, descritos acima, como forma de homenageá-la. A poetisa também recitou alguns poemas deixando esse papo leve e sorridente. Ela também me revelou que prepara o seu primeiro livro de poesias "Virada no Mói de Coentro" para o ano que vem (2024). Espero ansiosamente!



Na já tradicional Festa de Louro, evento cultural em homenagem ao poeta Lourival Batista que ocorre no mês de janeiro em São José do Egito, eu e Dayane tivemos uma proximidade maior. Conversamos sobre os poetas do Pajéu, sobre poesia e sobre a vida. Ah! E Claro recitamos muitas poesias com os amigos. Uma coisa que me chamou atenção neste encontro foi que eu percebi que o poeta não é somente aquele que faz poesia, mas sim aquele que vive a poesia! Porém, como ele vive a poesia e a poesia se transmuta em sua vida, assim como a vida, ela não é fácil. A convivência é difícil, conflituosa, mas, também, assim como a vida, é extremamente prazerosa.

Nas conversas com Dayane vi uma mulher moldada em dois extremos: Nas mazelas da vida e na poesia (escrita ou vivida). Uma dualidade aparentemente dispare, mas que confluem e formam um ser sorridente, cheio de vida e com um olhar melancólico sobre tudo e todos. Assim a vejo! Gosto de gente assim! Gosto de pessoas que são múltiplas, confusas e que ao mesmo tempo são doces no meio de tanto amargor. Não sei se neste texto eu fiz jus a pessoa de Dayane e a sua poesia, deixo para ela me dizer, mas que fique bem claro o quando admiro esta poetisa que, acima de tudo, é gente!

E eu lembro que minha Avó dizia quando ela conhecia uma pessoa que tinha caráter, quando ela conhecia uma pessoa que gostava e admirava: Ela é gente!