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Desde que tomei consciência do meu lugar no mundo, tive inveja dos pernambucanos. Eu, como paraibano, sempre segui na manada que mugia o coro despeitado que dizia: “Recife é ruim demais! Cidade grande, suja, feia! O povo de Pernambuco é muito besta, se acha demais”.
Mas, homem, olhando para os nossos vizinhos, isso é uma reação perfeitamente natural! Eles disseminam cultura por todo canto e para todo canto. Pernambuco se levanta como um dos maiores celeiros culturais do Brasil. É berço do Carnaval e pai do Frevo. Gerou artistas como Luiz Gonzaga, João Cabral de Melo Neto, os irmãos Batista, só para citar alguns filhos deste ventre frutífero. Dessa forma, é normalíssimo que a Paraíba abraçasse o rancor e o despeito ao mirar toda esta riqueza cultural.
Mas, indo além, a Paraíba se move. Se debate. E, na sua inquietude, se levanta e ataca, feito uma fera que é acuada. E esse ataque resulta em uma produção que vem banhada de sangue. Nada aqui é liso, limpo, colorido, brilhoso ou delicado. Não! Aqui na Paraíba, a tez da arte é áspera, cheia de espinhos, arranhões e queimaduras. Minha avó resumiu tudo o que estou narrando até aqui em uma frase: “Meu filho, na Paraíba não existe anistia, não”. E isso se traduz assim: aqui, você só é considerado bom se for bom mesmo; não existe meio-termo ou conversa fiada. Não tem alisamento. Se você errar, ninguém perdoa. E, por fim, não há anistia!
Em síntese, estas foram as percepções que tive ao meu redor enquanto eu crescia: o artista pernambucano sempre orgulhoso e vivendo plenamente a sua cultura, e o artista paraibano sempre lutando para que sua cultura invada e resida nos corações de seus conterrâneos.
Confesso que hoje, olhando, com os olhos do tempo, esse cenário “paraibucano”, não me vejo menor como paraibano nem possuo mais aquele sentimento de inveja em relação aos nossos vizinhos. Pelo contrário:
Sou
da terra de Ariano,
sou
a Paraíba do Norte.
Sou
Pinto do bico forte
que
faz no Repente um dano!
Sou
o folheto mais troiano
que
Leandro fantasia.
Sou
lápis de ventania
que
pelo céu escreveu:
Sou
da terra onde nasceu
o Cordel e a Cantoria!
Paraíba
A História, que dizem periférica,
amanhece
nas Plagas da Verdade!
Ela
afirma de vez nossa Trindade,
pela
força que há em nossa métrica:
somos
Mouros da pele mais Ibérica;
somos
Bantos, Judeus da Cristandade;
somos
todos Tapuias com saudade
do
seu ventre repleto de Poética!
Nosso
Céu, comunal e resoluto,
na
América, avulta-se primeiro.
Nossa
Mão, colossal, de traço astuto,
é
quem nina as agruras docemente!
Somos
filhos do brilho alvissareiro,
somos a Paraíba, o Sol Nascente!
Clique no link abaixo para ouvir este soneto declamado:
Parabéns !👏👏👏👏👏meu querido como sempre vc arrasa ♥️
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